E porque hoje é, ainda, Natal…

por Amélia Santos | 2014.12.25 - 14:30

 

(à minha Mãe)

Em África diz-se que «sempre que morre um velho», desaparece uma biblioteca. A velhice (não gosto do termo «velho») é estimada e valorizada, em África, pelo seu saber de experiências acumuladas. Entre nós nem sempre isso acontece. Salvo honrosas exceções, os nossos idosos são um fardo para as famílias, que, por isso, os deixam esquecidos nos hospitais ou os despejam em lares, à espera que a morte os venha resgatar. Afinal eles já não servem nem para cuidar da casa, nem dos netos. São, muitas vezes, despesa extra, investimento sem retorno. Já estão a mais e a própria mesa de jantar é pequena para acolher a sua presença vaga e alheada.

Felizmente, eu tenho ainda hoje a minha mãe, a minha querida mãe, com os seus saudáveis noventa anos, acabados de completar. E continuo a ver nos seus olhos azuis a imensidão do mar e do céu. Vejo toda a sabedoria de quem nunca foi além de uma antiga quarta classe, mas que muito viveu e aprendeu. A minha mãe continua a fazer-me falta, como sempre fez. A sua companhia, a sua voz, a sua mão a apertar a minha…dão-me o ânimo de que tantas vezes necessito para me levantar. Saber que posso dar-lhe um abraço e receber o seu colo serve-me de consolo e compensa todas as outras ausências…

A minha mãe continua a fazer-me muita falta. Hoje sinto isso com uma agudeza cada vez mais consciente, porque sei que o seu amor é incondicional, genuíno e insubstituível.

Mesmo aos meus 41 anos, sendo eu também mãe de uma filha de onze. Continuo a aprender com ela, com os seus silêncios estratégicos, com as suas meias palavras e até com o seu (mau) feitio. Tudo me serve como motivo de reflexão e de medida para todas as coisas que faço e para o que, talvez por causa dela, não chego a fazer…

O que é certo é que, com ela, adquiri os meus valores e tudo o que constitui hoje a minha base moral e ética. Com os seus exemplos, com os seus ralhetes, com a sua determinação cresci e apreendi o que é a educação no seu sentido mais puro e talvez ingénuo.

A minha mãe sempre cuidou do meu avô (o seu retrato na ascendência familiar), sempre foi vítima do seu mau feitio e alvo das suas injustiças impensadas, tão recorrentes frente àqueles que nos estão mais próximos e sempre à mão. Mas nunca o deixou, nem lhe virou as costas, nem o internou num lar. Cuidou dele até ao último dia dos seus noventa e tal anos. Chorou e sentiu a sua morte como ninguém. A minha mãe também nisso é um exemplo que eu reavivo muitas vezes, relatando à minha filha («Filho és, pai serás. Conforme fizeres, assim acharás»).

A minha mãe vai continuar a fazer-me muita falta pela vida fora. Nem imagino a minha vida sem ela, porque ela é uma parte de mim, como eu sou parte dela… Nada voltará a ser igual. Sei-o muito bem!

Fico eternamente grata à vida por me ter dado a oportunidade de ter uma avó para a minha filha. E, juro que, apesar da sua idade, não é uma avó qualquer…

 

Licenciatura em Estudos Portugueses pela FLUL (1996) Pós Graduação em Museologia pela FLUP (2008) Mestrado em Ensino do Espanhol pela UBI (2011)

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