Do presunto ibérico a Unamuno e Pessoa

por João Luís Oliva | 2013.11.28 - 17:16

A Ibéria e o pensamento iberista são, neste recanto e há muitos séculos, temas recorrentes da história política, militar, económica e social, da literatura de ideias e múltiplas criações artísticas, do debate de referências pátrias e patrioteiras quezílias, de afirmativamente corajosas atitudes e idiossincrasias preconceituosas de todos os matizes e pontos cardeais.

Mas não é, descansem os leitores, da carga erudita que a este tema está ligada que aqui se vai falar. É, simplesmente, do espectáculo “Ibéria: a harmonia impossível”, apresentado no Lugar do Capitão, em Viseu, na passada sexta-feira, dia 22 de Novembro, e antes visto no espaço ibérico não galaico durante o festival “O Gesto Orelhudo”, realizado em Águeda pela Associação D’ Orfeu.

Em cerca de 45 minutos (que parecem cinco), este é um monólogo (que parece um palco repleto e ainda fosso de orquestra) escrito, interpretado e sentido pelo dramaturgo galego Carlos Santiago, também actor, músico, neo-renascentista de corpo inteiro, que só não foi, como o próprio diz, operário da construção civil (e, acrescenta-se agora, cobrador de impostos e pescador de atum).

Num desempenho cénico que suscita um sorriso constante, subtil e discreto, bem como inúmeros momentos de riso franco e picos de irresistível gargalhada não alarve. O humor feito de ironia e sarcasmo, ancorado numa reflexão apurada, mas sem erudições adjectivas, do momento em que arreigados afectos ou interesses nacionalistas se cruzam com fórmulas de integração e federação de mais uma União Europeia.

E “mais uma” porque desde o Império Romano que ideias e interesses (sempre eles…) se encaminham nesse sentido. Foi, aliás, essa latinofonia que, transformando a Ibéria em Hispânia, mudou o “nome” mas não conseguiu alterar a “coisa”. Depois, com o mesmo objectivo, vieram o Papado (também de Roma), Carlos V, Napoleão Bonaparte e Adolfo Hitler. Desta vez, esperava-se outra coisa…

Os tratados que, a partir da segunda metade do século XX, foram instituindo na Europa associações e comunidades mais ou menos económicas e estratégicas não auguravam grande coisa, a não ser a organização do mercado (ainda os interesses…); mas a ideia de uma união cooperante e solidária, formalmente instituída em 1992, criou alguma esperança envolvida em sedutoras frases como a poliédrica “Europa das regiões”. Cedo, porém, se foi tornando mais visível o seu carácter burocrático e institucional e mais frágil o anseio de uma nova realidade política. Agora, está mesmo tudo a nu…

Afinal, não era por aí que se queria comentar “Ibéria: a harmonia impossível”. Mas foi irresistível ampliar a escala, mesmo à custa de poder dar a ideia errada de que o texto cénico se encosta a qualquer didáctico objectivo, militante intento ou moralista pretensão.

Nada disso!

Transbordante de inteligência e frescura, o humor (às vezes ácido e vernáculo) do espectáculo conduz os espectadores através desta península de galhardias toureiras e épicas aljubarrotas (pelo menos do seu artesanato panificador), numa viagem imperdível que cruza solenidades e quotidianos, mitos sagrados e prosaicas realidades, cantábricos, atlânticos e mediterrânicos vícios, virtudes de ventos e casamentos.

E não se diz mais nada, que só se estraga…

Mas porque é isso mesmo – imperdível –, embora fora dos circuitos convencionais, a sua agenda de apresentações pode sempre ser seguida através da rede digital.

E, espera-se, em breve, de novo perto de si.