Dioxinas: origem

por Elvira Gaspar | 2014.02.26 - 19:23

 A denominação simplista de “dioxina”  refere-se a compostos organo-halogenados (Policlorodibenzo-p-dioxinas (PCDD) e Policlorodibenzofuranos (PCDF)), os quais totalizam 210 compostos com propriedades e estruturas químicas semelhantes (congéneres), dos quais 75 são PCDDs e 135 são PCDFs.

Constituídos apenas por átomos de hidrogénio, carbono, oxigénio e cloro, estes compostos apresentam uma estrutura trianelar. O número de átomos de cloro de cada PCDD ou PCDF pode variar entre um e oito, conferindo aos compostos diferentes níveis de toxicidade.

As dioxinas são oriundas de processos de origem antropogénica e não-antropogénica (naturais). As fontes naturais compreendem os incêndios florestais, as erupções vulcânicas e algumas reacções enzimáticas ou fotolíticas.

Relativamente à origem antropogénica, convém salientar que, ao invés de outros poluentes orgânicos, as dioxinas não são hoje produzidas pelo homem de forma intencional, surgindo como subprodutos ou produtos secundários indesejáveis em diversos processos industriais.

Os principais processos de produção de dioxinas podem ser agrupados em quatro categorias:

Processos térmicos ou de combustão:1.Incineradoras e coincineradoras de resíduos (urbanos, industriais e hospitalares)

Crematórios e fogos florestais

Centrais térmicas que efectuem a combustão de combustíveis fósseis

Motores de combustão (automóveis e outros), sistemas de aquecimento doméstico que utilizem a combustão de matéria orgânica para gerar calor (por exemplo, lareiras e etc.) e outras combustões de matéria orgânica (por exemplo, cigarros, fogueiras e outros)

Reciclagem de metais

Processos industriais húmidos1.Fabrico de pesticidas, herbicidas e compostos organoclorados

Produção e reciclagem de metais, nomeadamente em processos de fundição que utilizem sucatas como matéria-prima

Fabrico do vidro e de cerâmica

Branqueamento da pasta de papel com cloro

Produção eletroquímica de cloro através de elétrodos de grafite

Fabrico de retardantes de chama

Utilização de corantes e tratamento de fibras na indústria têxtil

Processos metalúrgicos e indústria petroquímica

Processos de tratamento de superfícies de metais com desengordurantes químicos

Processos de limpeza a seco com solventes orgânicos

Acidentes1.Incêndios de plásticos, PVCs, material organoclorado ou de matérias orgânicas (por exemplo, o desastre de 1976 na fábrica de produtos químicos Industrie Chimie Meda Società, em Seveso – Itália)

Derrames ou incêndios em postos de transformação cujo fluido dielétrico esteja contaminado com PCBs (Compostos Bifenilos Policlorados  –  exemplo: o incêndio de 1981 num posto de transformação de energia elétrica de Binghamton, em Nova Iorque – EUA).

Produção de resíduos1.Lamas de estações de tratamento de águas residuais contaminadas

Cinzas de centrais de incineração contaminadas

Lixiviados industriais contaminados

Águas residuais industriais e domésticas contaminadas.

Sabe-se que desde 1940 alguns compostos têm vindo a acumular-se de forma sistemática e progressiva, nos diferentes sistemas ambientais. Tendo estas substâncias caraterísticas PBT (persistentes, bioacumuláveis e tóxicas) tornou-se evidente que seria necessário tomar medidas adequadas para reduzir a sua produção e, consequentemente, prevenir o seu efeito no meio ambiente. Algumas das medidas consistiram na proibição do seu fabrico e comercialização, o que aconteceu no final da década de 1970, em diveros países industrializados.  Contudo, estes compostos continuam a ser detectados em amostras biológicas, em quase todas as regiões do planeta. Verifica-se assim que o desafio em termos de controle a nível industrial, ambiental e da saúde, bem como a sua regulação legislativa está longe de estar concluído.

 

Nascida em 1960, em Luanda, Angola. Pais Beirões (Pai de Mangualde, Mãe de Cantanhede) - raízes genéticas e culturais que me "desassossegam". Ensino secundário em Mangualde (um privilégio!) (transição colégio-liceu, 1975-1978). Licenciatura em Engª Química pela Universidade de Coimbra (1983). PhD em Química, especialidade Química Orgânica, pela Universidade Nova de Lisboa (1994). Docente da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa desde 1984.

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