Danos materiais

por Patricia Maia Noronha | 2014.11.17 - 11:12

Os paramédicos já tinham chegado. Ele e a Maria estavam fora do carro. Eu via tudo vermelho e doía-me qualquer coisa. Não me lembro bem. Havia sangue… Disso tenho a certeza. O CD no autorádio continuava a tocar. Eram os Arcade Fire. “Children wake up… hold your mistake up”. Uma das miúdas dos paramédicos era gira.

Ele estava fora do carro. A explicar aos polícias o acidente. A dar a mão à Maria. A revirar os olhos para cima. Em sinal de lamentação – não sei porquê, mas acho que, no fundo, o que ele sentia era uma cínica satisfação. Ele ia connosco no carro e gritou muito alto. Foi por causa dele isto tudo, o acidente. E nem sequer é meu amigo.

“Opá, ele até é porreiro. E agora anda numa fase difícil, não está a aceitar muito bem ter acabado com a Cláudia”, dizia-me a Maria há uns meses.

Eu, parvo, armei-me em compreensivo. E bláblá, “deixólá colar-se a nós”. Jantar fora. Jogar conversa fora. Um copo aqui e ali. Até pode ser que nos tenhamos divertido. Um dia ou outro. Num ou noutro momento de um dia ou outro.

Como naquela vez em que ele insistiu que a playstation dele não lia os meus CD’s “porque tinham sido gravado à pressa”. Hahahaha!. Como se existissem CD’s gravados à pressa. Ou estão gravados ou não. Que estupidez!

Quando o acidente aconteceu, íamos todos jantar a casa do Fernando. Estrear um kit de fondue que o Fernando tinha comprado. Ia eu no meu carro a conduzir, a Maria ao meu lado e ele lá atrás. Lá atrás é como quem diz, porque arranjou maneira de se meter entre os dois bancos da frente como fazem os cães. E, no fundo, também estava ali connosco: à frente.

“Vira práli! “Epá por ali é mais rápido. Olhó autocarro!”.

Não, não havia paciência. Em mim foi crescendo uma raivinha miúda. Que esforço enorme para o tolerar.

Íamos no carro. “A saída era práli”, gritou ele. Eu guinei na esperança de encontrar a saída. Sim, porque pelo tom dele se não fosse AQUELA saída, não saíamos daquela estrada nunca mais. “Tínhamos de sair ali!”, gritava ele. Era ali a saída. Só que o carro de trás já estava perto demais.

Eu virei. À pressa, mas virei.

Para além de mim, não houve mais feridos. Fora estragos nos carros, claro. Os danos materiais.

Portuguesa, natural de Lisboa. Sou jornalista e também gosto de escrever ficção. O meu livro de contos "Brilho Vermelho" foi vencedor da menção honrosa do prémio Alves Redol 2009. Tenho vindo a publicar esses e outros contos em revistas eletrónicas de Portugal e do Brasil.

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