Da Monarquia à República. Tempo, espaço e Aquilino

por PN | 2014.04.22 - 14:59

(…) “Os impulsos, os motivos, as secretas percepções que instam (fazem) um homem não aparecem, não podem aparecer recolhidas pela História, assim como, mesmo sob a sala de operações, jamais se captará o sentimento de dor do homem dolorido.”

In O Mundo Alucinante, Reinaldo Arenas, D. Quixote, jan. 2010 (2ª ed.)

Há homens que, por uma convergência de factores, geralmente arredios do comum mortal, se vêem, fruto dos fados, da personalidade ou da sinuosidade confluente das vias trilhadas, no epicentro, no âmago dos acontecimentos mais marcantes de uma época.

Há épocas que, pela ebuliência dos factos históricos,  propiciam a certos actantes mais carismáticos, o protagonismo e uma natural envolvência no processo re-evolutivo.

Há espaços onde, por força da macrocefalia circunstancial, a História acontece, minudente e precisa, irrompe, arrasta e transforma tempos e homens, num grau de probabilidade muito maior que noutros possíveis topos.

Assim aberto, este incipit, o mesmo é dizer que, certos homens, em certas épocas, em determinados espaços, parecem confluir para a mudança do rumo secular da humanidade, ou, pelo menos, daquela fatia da humanidade onde se inserem, mais do que figurantes, como protagonistas.

Aquilino Gomes Ribeiro, nascido a 13 de Setembro de 1885, no Carregal, em Sernancelhe, tinha em 1908 vinte e três anos, estava em Lisboa e pertencia desde o ano anterior a uma organização carbonária designada de Grupo Solidariedade.

Deste modo descreve suas verças, em Maria Benigna (1933):

Tudo aquilo tempestade de penedos suspensos de morros e encostas, plainos desolados em que cresce a rabugem de mato, e a que nem os rebanhos de reses magras e pequeninas nem o renovo da Primavera conseguem animar; pinheirais vergados para nascente como hordas em marcha; solo sáfaro e condenado a dar fruto; terra onde os medos andam à solta e as ruínas guerreiras e monásticas ensombram a cada passo os horizontes; brutalidade e melancolia, rijeza e desespero, perspectivas abstractas e um sentido da vida muito concreto –“ eis as Terras altas da  Beira…

Mas afinal o que era a Carbonária? Originária de Itália, inspirada na Jovem Itália do Mazzini, dos tempos da luta pela unificação, é a associação secreta em estrita clandestinidade, que teceu a teia subversiva que iria destruir a monarquia. Com ritos de iniciação muito próprios e fundamentais para o cumprimento do segredo, tem Artur Augusto Duarte da Luz de Almeida como Grão Mestre, tendo como seus adjuntos António Maria da Silva e Machado Santos, sendo seu órgão de cúpula a Alta Venda do Jovem Portugal. Esta teia, enquanto associação popular interclassista, tem grande acolhimento entre os mais humildes, o proletariado urbano dos caixeiros, os operários, os marinheiros, os sargentos e os negociantes modestos. Os seus membros desconhecem-se uns aos outros, ficando limitado a 5 os que se conhecem e reúnem. São os “primos”, correspondentes aos “irmãos” da Maçonaria. Dotada de uma dinâmica e capacidade de acção notável, partindo de Lisboa estende-se a todo o país, recebendo a adesão dos anarquistas, tendo já, em 1909, perto de 40 mil membros. Tinha duas funções mais específicas: actuar contra a Guarda Civil montada, impedindo-a de patrulhar e reprimir os sublevados e imiscuir-se nos quartéis, junto das tropas revolucionárias.

A determinada altura o desejo de acção imediata dos carbonários foi tão premente, que teve de ser o Grão Mestre da Maçonaria, Sebastião Magalhães Lima a moderar os ânimos cada vez mais exaltados.

Mas como é que um jovem desconhecido da província, sem antecedentes familiares ou outros na ribalta política, sem conhecimentos relevantes que o encaminhassem, guiassem, orientassem na capital, se entrosa desta forma profunda num núcleo tão activista? Onde vai Aquilino buscar, também, os pressupostos ideológicos que lhe serviriam de esteio para um tal tipo de consciencialização política?

Em primeiro lugar, e de posse do conhecimento hoje tido daquele que foi todo o percurso coerente da sua vida, não é mera conjectura afirmar-se que nele o inconformismo, a inteligência superior, a destreza do raciocínio, a indómita bravura, a valentia, a competência física e, de modo inequivocamente determinante, o carisma, adubaram a fértil leira donde brotou, da boa semente lançada, o fruto tão sadio.

Mas seria redutor consignarmo-nos a estes elementos, até e porque, com características análogas, outros jovens como ele existiriam. Também não temos a candura, nem tão pouco a intenção de criar místicas, na dupla acepção etimológica do termo, de mistério e de engano, em torno da personalidade tão activamente prolífica deste homem.

Assim, é preciso tentarmos perceber os factores exógenos, também biográficos, destacando vectores essenciais que darão mais nítida forma à causa geradora dos efeitos posteriores.

Aquilino Gomes Ribeiro é filho natural do Padre Joaquim Francisco Ribeiro. Nasce numa aldeia vetusta e anónima do interior da interioridade lusitana. Tem uma infância feliz, livre e jovial, que nos conta, em Cinco Réis de Gente (1948).

A 11 de Março de 1895, a família vai viver para a terra de onde eram originários seus pais: Soutosa, Moimenta da Beira. Ainda nesse ano, a 10 de Junho, Aquilino ingressa no Colégio da Lapa para fazer o equivalente ao curso do liceu.

(…) a Lapa ficava nos carrapitos da Lua. E era de tal ácie e leveza  o ar que, dir-se-ia, dum instante para o outro me brotariam asas, na alma para não dizer nos ombros, com que era possível desferir voo. Realmente, céu assim imenso e cristalino estava a pedir revoada de águias e metafísica de pastorinhos. (ULL)

Aí, passa cinco anos da vida, que nos narra em Uma Luz ao Longe (1948), até ser instado a sair, e aqui a ficção enleia-se na realidade, em consequência de uma luta com um colega mais forte e mais velho, o Pires, para defesa de sua honra. As palavras do jovem Amadeu Magalhães:

Os grandes tinham quarto no primeiro andar, mas nos dias da reinação caíam as barreiras e espraiavam-se pela nossa camarata. O Pires, aproveitando o congraçamento, meteu-se de gorra connosco. Pareceu-me vê-lo rondar à minha volta e de começo segui-o em suas manobras com olho suspicaz. Depois, no meio do bródio geral, perdi-o de vista. E, apanhando-me descuidado, de que se havia de lembrar a estúpida cavalgadura? Pegar dum bacio e enfiar-mo na cabeça.

            Saltei como uma péla perante o ultraje. Remeti para ele à unha, a dente, a pontapé, e no primeiro impulso vi-o oscilar. Mas, como era mais alto, mais pesado e mais vigoroso, abateu-se sobre mim num abraço de urso. E dominando-me pela fortaleza, depois de se dobrar na cama por cima de mim, esmagava-me com o seu corpo. Ao mesmo tempo rompia a martelar-me a cara com o punho fechado, num rijo e feroz ‘passage à tabac’. Eu arquejava, meio sufocado debaixo dele, sem me poder mexer. Não sei se me entendeu a voz rouquejada quando pedi socorro, o facto é que ninguém me acudiu. Trazia um canivete no bolso… Lá achei modo de lhe chegar, de o abrir e, zás, uma, duas, três vezes, espetei o meu agressor nas costas. (ULL)

A clausura, naquela mole maciça de granito escuro, a viril convivialidade de jovens adolescentes, a influência de um ensino escolástico, a visão rasgada do imenso planalto, rochoso, árido e inclemente nos seus rigores invernais, onde a sua liberdade galopava bravia através das estreitas baias das janelas fundas, a influência religiosa e a dicotomia vivencial com a infância sem freios nem bridões, começam a modelar o inconformismo revoltado que não mais o abandonará.

O próximo passo é dado para o célebre Colégio da Roseira, em Lamego, o colégio do Pe. Alfredo, onde ingressa a 5 de Outubro de 1900, e de onde sai um ano depois.

Dá-se aqui o primeiro contacto do jovem Aquilino com um meio urbano, profundamente conservador e clerical. O romance A Via Sinuosa (1918) conta-nos essa passagem e ficciona uma primeira detenção de Libório Barradas, seu alter-ego, num comício em frente ao Seminário local.

A cidade das nobres tradições era convocada, deste modo, para um comício onde, por oradores de marca, seriam versadas as monumentais questões que agitavam o país. E a proclamação concluía: Abaixo a reacção! Abaixo o carolismo! Abaixo os déspotas! Viva a liberdade!

Ao lusco-fusco o Velhinha veio ter comigo e disse-me:

– Vens ouvir os revolucionários?

– Para quê?

– Minha besta, para quê?

A apóstrofe persuadir-me-ia, se já não fosse grata ao meu espírito toda a ideia de diferir na noite os místicos pavores. Fui.

Memorável ficou aquela data nos fastos da velha cidade, duma quietude que apenas turvavam, como vinhetas à margem, mortes de homem por amor de mulher ou em arruaça de bêbados. O teatrinho, onde ouvira com emoção a Filha do Marinheiro, desempenhada por curiosos da terra, de barro a esmiolar-se nos taipais, enchera-se com estudantes, artífices, inúmera gente sem mester definido, e sapateiros, classe esta de categoria na cidade que calçou borzeguins pela Renascença fora. Os senhores que tinham vindo em apostolado de longes terras, mal pisaram a cena, foram acolhidos como outros tantos Messias. E, ao faro dum meio propício, todos eles, sacudindo a grenha e recolhendo os punhos, arrancaram do peito sua melhor solfa sobre o esmagamento da liberdade a patas de cavalo, a pátria esfomeada de ideal, e os jesuítas cravando garras de abutres nos lares incautos. E escutando-os, meio convencido, recordava-me daquela palavra de meu mestre: “Dizia Kant, Libório, que o tambor rufa porque é oco; assim acontece com os oradores das turbas”.

Fora, em arraial, aguardámos os tribunos; e entre ovações, dispensando à direita e à esquerda uma cortesia real, com tampar e destampar incansavelmente as cabeleiras românticas, bateram para o “João dos Três”, na tipóia do Ceguinho. No encalço dos cavalos enfeitados, rompemos gritando: – Abaixo os jesuítas! Abaixo a tirania! Viva a liberdade! (AVS)

A 16 de Junho de 1902, para completar os preparatórios, com uma crise de fé à mistura com um primeiro amor, em luta com a vontade de seus pais, vai para Viseu e hospeda-se na Rua do Arco, na casa da Sra. Joaquina, que acolhe estudantes. Há um desentendimento com um filho desta, o Augusto, com ordens tomadas de subdiácono ou presbítero. Aquilino dá-lhe umas “galhetas”, segundo a sua própria expressão, e a Sra. Joaquina, naturalmente, expulsa-o.

Tem explicações com Júlio Alves Martins, poeta menor da “Anunciação” e “Mulher de Benção”, sobrinho do renomado bispo António Alves Martins. Faz exame com sucesso. Está pronto para ingressar no seminário, nada pronto, porém, para ser padre. A propósito deste exame, na obra postumamente editada em 1974, Um Escritor Confessa-se, concluída em 1962, meses antes de sua morte, refere:

Que sabia eu, que sei ainda hoje, que saberiam os mestres que me examinaram? Em verdade o Português nunca aprendeu outra coisa que não fosse rezar. Nunca aprendeu a pensar, nem lhe consentiriam pensar livremente. Jamais lhe cultivaram esta faculdade perigosa, o espírito, no que tem de original e altivo. Tanto a Igreja como a Realeza quiseram-no sempre carneiro e nutrindo-se no prado sujo das ideias feitas. À rectaguarda, a censura e o Santo Ofício tinham sido instrumentos perfeitos deste recalcamento e repressão. Uma seara pedagógica que só produz onagros utilitários, inteligências rotineiras e sábios asmáticos implica um terreno preparado, vessado desde longe, de modo a deter o limo e o húmus para que só nele possa florescer, medrar, produzir opimos frutos este bamburral, ou melhor este bomburral lusitano. (pp.46/47)

            Influenciado pelo seu colega Joaquim de Almeida Costa Nunes, em Outubro de 1902 dá entrada no Seminário de Beja, pelas afiançadas facilidades aí dadas aos seminaristas:

(…)      a disciplina branda (…) vestia-se de preto, mas andaina comum, e nunca se saía à praça em formatura como os soldados. (…) Certo, certo, sobretudo, era emborcar-se a ciência tomística e canónica sem grande queimação de pestanas.  (UEC)

A Instituição é dirigida pelos irmãos Ançã, José Maria, vice-reitor e Manuel Maria, perfeito e ecónomo, um par amoral e hipócrita que leva uma vida ambígua, dupla, explorando, ainda, os seminaristas. Aquilino entra em conflito com o segundo quando estavam no momento de oração e aquele o repreende…

Uma noite sucedeu a minha queda de Ordenando. Achávamo-nos todos no refeitório, a rezar, depois da ceia, as rezas costumadas. Eu estava, conforme me pedia a arquitectura do corpo, mãos postas, ligeiramente inclinado, recitando a ave-maria. De repente ouviu-se uma voz como um trovão. Compreendi que era comigo e me apostrofavam:

— Não quer cá uma cama? Está a rezar sem o devido respeito e atenção!

Foi como se me dessem uma bofetada. Redargui:

— Sem respeito e atenção rezava o senhor que reparou como eu estava…

O refeitório ficou siderado, inclusive o prefeito, Pe. Manuel Ançã, que tão injustamente me tirara do meu bom sentido.

Foi quanto bastou. No dia seguinte, um monitor chegou-se a mim muito manso:

— O senhor vai-se hoje embora…

— Já o sabia.    (UEC)

É a expulsão, em Novembro de 1903.

Conjecturalmente, poderíamos iladir que muito do Aquilino revolucionário lhe advém desta imposta omnipresença clerical em seu redor, concomitante com uma aversão e crescente antipatia votada, que ganha maiores foros após Lamego, quando, pela primeira vez questiona a vida sacerdotal a que foi destinado, e para a qual a sua falta de vocação se insurge com a força de um poderoso grito angustiado, represo e insaciável por se libertar.

Com um carácter talhado a cinzel na dureza do granito, educado por clérigos, alguns que permanecerão para sempre na sua memória como paradigma de bondade e sapiência, outros, muito alternativos no ser e no parecer, depressa esquecidos, vivendo apartado dos horizontes largos e rudes da sua origem, chega Aquilino a Lisboa no final desse ano.

Quer queiramos quer não, é um ex-seminarista provinciano, deslumbrado com o que vê e tão bem abarca e memoriza, de bolsos cheios de nada e uma sofreguidão de vida incomparável.

Na capital sentia-se por todo o lado “essa electricidade surda que se ia acumulando no céu de Portugal” (UEC). Estuda contabilidade, sem sucesso. Torna-se aprendiz de jornalista e envolve-se no ambiente revolucionário local.

A instância de seu pai e também por manifesta falta de meios para sobreviver, no início de 1904, regressa a Soutosa, onde passa quase um ano.

Aquilino refere-se ao teor dessa carta do Padre Joaquim:

O dinheiro que lhe envio é para se vir embora, pois que não consegue empregar-se. Enquanto eu for vivo, tem aqui a tijela do caldo. Quando eu fechar os olhos, e não estará longe, só lhe resta deitar-se a um poço, pois não acredita em Deus para implorar a divina misericórdia que lhe valha. Se me não der ouvidos, desta vez, não conte que continue a sustentar-lhe a vadiagem, cedendo às suas lamúrias, por essa Babilónia! (UEC)

O jovem cede ao ultimato, até porque a vida lhe vai adversa. Mas a aldeia já não dá resposta às exigências fogosas deste moço rebelde e ávido de novos e fervilhantes horizontes. Regressa a Lisboa, antevendo uma hipótese de emprego, a 26 de Outubro desse ano e vive num 3º andar da Rua do Crucifixo, depois na Rua das Pedras Negras e mais tarde na Rua do Carrião.

A prisão de Gorki, em S. Petersburgo, seu eventual fuzilamento, e todos os acontecimentos daí contextualizados, geram uma vaga de solidariedade internacional e um crescente ódio contra as monarquias. Em Lisboa, são várias as iniciativas promovidas por anarquistas e republicanos. Aquilino toma parte em algumas. Acede ao núcleo de Sebastião de Magalhães Lima, que o publica n’ “A Vanguarda”, Mayer Garção, França Borges, José do Valle, entre outros

Vive parcamente dos artigos que escreve e das traduções que faz, entre elas, Il Santo, de Fogazzaro, publicada por José Bastos. Estamos em 1905. Em Junho deste ano apresenta-se à inspecção militar, em Vila Nova de Paiva, cenário de onde é oriunda a pícara figura do Malhadinhas. Vai por três dias e fica quase um ano. Regressa a Lisboa em fins de 1906, num movimento quase pendular, ao qual não consegue já subtrair-se. A aldeia de Soutosa e a cidade de Lisboa tornam-se seus axis mundii.

Esta fase da vida de Aquilino, até à sua partida para o primeiro exílio em Paris, a 31 de Maio de 1908, pode ler-se, ficcionada, em Lápides Partidas (1945).

Aquilino é apresentado pelo seu amigo Raul Pires, redactor do “Caixeiro”, ao editor Gomes de Carvalho, destacado membro da Maçonaria que lhe encomenda a tradução da “Anarquia”, do francês Jean Grave. Pires e ele, sendo carbonários, integram A Alta Venda. Aquilino desde o início de 1907…

Lisboa ferve de descontentamento contra a monarquia, contra D. Carlos Iº (o último, no dizer corrosivo de Bordalo Pinheiro), a francesa rainha, Dª Amélia de Orlëans –  beata dura que odiava um povo que nunca compreendeu e nunca a aceitou –  e contra o astuto e prepotente ministro do reino, Presidente do Conselho, o auto-intitulado regenerador-liberal João Ferreira Franco Pinto Castelo Branco. Aquilino assim escreve, reportando-se à célebre questão dos adiantamentos do erário público ao erário real, insidiosamene tornada pública pelo próprio João Franco, visando ter o monarca de si dependente, numa chantagem mal sucedida:

            Visto do alto, o Portugal do senhor D. Carlos era um casarão velho esburacado, com um inçadoiro prodigioso de gusanos. Ouve-se dizer aos que têm o culto das ideias fossilizadas e ajoelham ao passado, porque o presente não lhes liga importância: Era um rei bom. Porque é que havia de ser mau ou dar impressão de maldade se nada lhe faltava, e a vida lhe corria sobre rubis? (…) A D. Carlos não chegava a lista civil, passou a receber por baixo da capa dos ministros venais. Feia coisa, comparável à do sacristão a roubar a cera das almas, do maioral que induz os moços do bardo a maquiar a queijeira dos amos. (UEC).

Pululam os anarquistas, também designados de intervencionistas, os republicanos, os monárquicos descontentes, em grosso, os oponentes do regime. Convém recordar aqui o grande êxito, então, do romance do monárquico viseense, António de Albuquerque, “O Marquês da Bacalhoa”, que satiriza toda a corte e governantes, nomeadamente o rei, pondo a nu seus defeitos e vícios. Sem esquecermos as duras críticas, por exemplo do monárquico, deputado regenerador e par do Reino, João Arroyo.

É um movimento denso, pesado, forte e, ao mesmo tempo, aparentemente desestruturado, com um quê de improvisado, muito de clandestino, muito de acção política pública, muito ao sabor das circunstâncias que fortuitas vão surgindo, por inabilidade dos governantes e desfaçatez real, nas capelas reunidas por todo o lado, nas redacções dos jornais do “contra”, A Lucta, O Paiz, O Mundo, A Capital, A Vanguarda, no Café Restaurante Montanha, no Café Gelo, e em breve por todo o país.

Seria redutor não pensarmos que ele vem de mais longe, de 1851, desde a Regeneração, que tem nomes de rectaguarda como Teófilo Braga, Manuel de Arriaga, Alves da Veiga, Sampaio Bruno, Bazílio Teles, aos quais se juntam os da geração do ultimatum, Afonso Costa, António José de Almeida, Brito Camacho, Alexandre Braga, João Mendes, entre outros.

E é no Café Gelo, ou talvez na pensão da Rua dos Retroseiros que Aquilino conhece Alfredo da Costa que o alicia a escrever um romance em fascículos, de publicação periódica, distribuição em mão e ao domicílio, cujo enredo há-de ser a história brejeira da sedução da filha do jardineiro da Tapada das Necessidades imputada a D. Carlos. O título daí sairá: A Filha do Jardineiro. Será ilustrado por Colomb com colaboração de Myriel Myrra, sendo o 1º e o 3º fascículo da autoria de Aquilino e o 2º de José Augusto Ferreira da Silva (1907).

Aos vinte e dois anos, Aquilino está um revolucionário feito, que já foi, no seu tirocínio, do confeccionar de bombas, até ao baptismo de fogo, ao ser ferido por uma bala numa perna (Junho de 1907), durante uma manifestação no Rossio.

A 9 de Novembro de 1907, Aquilino é abordado por um dos cabecilhas de A Alta Venda, o próprio Luz de Almeida, para esconder no seu quarto, à Rua do Carrião, por dois ou três dias, a metralha guardada no consultório do dr. Gonçalves Lopes, médico e professor do Liceu do Carmo, que era, com Alberto da Costa, um dos republicanos que organizaram o golpe de 28 de Janeiro.

A 17 de Novembro aparece este e Belmonte de Lemos, com loja de algibebe na Rua dos Fanqueiros, para armarem as granadas. Enquanto as manipulam, por natural imprudência e/ou descuido, dá-se uma explosão. Apenas se salva Aquilino, que ainda atordoado é de imediato preso na esquadra do Caminho Novo.

Reproduz-se uma sua astuta resposta, durante os interrogatórios feitos pelo juiz-corregedor Veiga, papão dos republicanos e terror dos anarquistas, que recebia no Paço, do próprio Rei, as instruções de acção, numa escandalosa promiscuidade do poder judicial e poder político:

Já confessei tudo a V. Exª. Eu sou um serrano em Lisboa… Mal assentei o pé, pus-me a ler Kropotkine e, por desgraça, na minha condição, pobre, desamparado, sem futuro, deixei-me contaminar pelas ideias extremistas. Logo aqueles amigos aproveitaram a minha inexperiência (refere-se aos falecidos, a quem já nenhum mal viria…) e meteram-me nesta camisa de onze varas.” (UEC)

É lícito acrescentar-se que uma vez alinhavada a versão, nunca dela se descoseu, e sem tergiversações, nunca denunciou nenhum companheiro, nem perante acareações, nem face a ameaças ou ilusões de indulto.

Malheiro Dias, em Zona de Tufões (1912) escreve :

“O juvenil dinamitista mantinha uma mudez heróica. Sobre a invulnerabilidade daquele crente resvalavam as armas e embotavam-se os martírios da polícia.”

Detido, incomunicável, na esquadra do Caminho Novo durante cinquenta e seis dias, tudo faz para se evadir, desde o primeiro momento, o que acaba por acontecer, sem a ajuda de ninguém, no dia seguinte ao de atracar o navio alemão, o Hohenstaufen, que vinha carregar os dissidentes para o longínquo Timor, ao abrigo da famigerada lei de 13 de Fevereiro de 1895, destino que lhe estaria também consignado. Estamos a 12 de Janeiro de 1908.

No final dessa rocambolesca noite e dia, que passa arrastando-se por Lisboa, improvisadamente disfarçado de moço vendedor de grelos, é resgatado por Alfredo da Costa da primeira taverna da Travessa da Palha, onde a fraqueza e o cansaço o haviam remetido.

Por intercessão do director do “País”, Meira e Sousa, é acolhido por duas senhoras idosas nas águas-furtadas de um prédio pombalino, a 150 metros da Parreirinha pelas escadinhas de S. Francisco, e a menos de 200 metros do Ministério do Reino. Para manter as iniciais gravadas na roupa e escritas nos livros, adoptou o pseudónimo de Alberto Ramos. A sua cabeça está a prémio pelo país fora tendo as autoridades recebido instruções de empregarem todos os meios ao seu alcance para o deterem, que o mesmo é dizer:”Vivo ou Morto!”.

Alfredo da Costa, que é administrador do periódico “O Caixeiro” e um dos regicidas, visita Aquilino no seu refúgio no dia 1 de Fevereiro e dá-lhe conhecimento da tentativa de sequestrar ou assassinar João Franco, para pôr a revolução na rua. Aquilino sugere-lhe que isso seja obra de agaloados, militares de patente. Não o diz mas pensa que será mais um impulso em vão. Talvez, uma bravata inócua, entre tantas…

Conta-lhe que levará consigo o compadre de Aquilino, Manuel Buíça, professor no Colégio Moderno, cujo filho mais novo, Manuel, nascido a 12 de Setembro de 1907 é afilhado do escritor, mais dois antigos guardas-fiscais do posto de Olivais, demitidos por João Franco, e um rapaz da Costa do Castelo, Domingos Ribeiro, empregado num armazém de vinhos um pouco acima da Sé.

Raul Brandão, no volume II das Memórias, corrobora Aquilino.

Idem, Rocha Martins, em João Franco e o Seu Tempo, Lx, ed. do autor, s/data.

Em artigo publicado na “Seara Nova”, de 5 Dezembro de 1921, Aquilino retrata assim Manuel dos Reis da Silva Buíça:

Curioso este tipo de português vindo do Note, da parte mais resistentemente nacional, godo que aflorasse, na linha longa das gerações, genuíno, inquieto e trabalhador como a flor estreme da raça. De corpo, era um homem de estatura meã, rosto fino, tez branca que mais realçava a barba preta com tons de fogo, na qual as suas mãos tinham o vício de passear-se, de embrenhar-se, quando a cólera o tomava ou ouvia alguém do seu agrado. A testa era longa, com as arcadas superciliares marcadas, sem demais, as linhas fisionómicas duma delicadeza que, fora das mulheres desagrada. A aparência, toda ela de franzino, mascarava-lhe inteiramente o génio assomadiço e a coragem que não era lenta nem jamais foi receosa a medir-se. Parecia um delicado, destes homens para produzir os quais a vida das cidades esculpiu sobre a carne de gerações e gerações, desengrossando, limando, amaneirando, e era uma planta vivaz das serras. Só os olhos muito móveis e azuis, mas sem fereza, traíam nele o ânimo expeditivo e a índole que, além de resoluta, era exaltada.

            Na mesma publicação, mas de 14 de Janeiro, escreve sobre Alfredo da Costa:

            (…) rapaz de vinte e oito anos, alto, desengonçado de corpo, duma fisionomia séria, quase triste (…) Grandes olhos castanhos, lentos a mover-se, com uma fixidez por vezes de desvario, um nada de barba loura no queixo, o nariz levemente amolgado sobre a esquerda. Provavelmente uma tuberculose descurada, que traiçoeiramente seguisse caminho, achatara-lhe o tórax, aguçando-lhe os ombros e imprimindo-lhe já às costas uma quebratura perceptível.

            (…) Alfredo da Costa foi este homem, lançado para a cidade da sua aldeia alentejana, e que, dobrando-se sobre si, batido dos baldões, “se viu a marchar”. Atrás, todo o atavismo da alma popular, opressões, tristeza, fatalismo, solidão. Pela frente, o torvelinho do século, luz e sombras, ideias confusas, ideias desordenadas, ideias; a vida com as suas facetas todas; o homem em todos os seus planos.

            Educou-se como pôde, que mais não foi que abrir os olhos ao que via e tratar de compreender. Tudo o que era imediato recebeu-o; tudo o que era bradado alto, ouviu-o. Nada mais receptivo que a simplicidade do camponês; nada, ao mesmo tempo, que mais precise de síntese. Para a improvisação intelectual de Costa, a revolução pregada em 1906-1907 devia ser o fecho de abóbada, a ideia adequada.

Não precisamos de ser visionários para entrever nestas linhas a admiração e respeito, talvez amizade que Aquilino nutria pelos dois homens. Também não é extrapolação exagerada, lermos nelas um pouco de eventual alter-ego de Aquilino, ou pelo menos, muito de si, na descrição moral que deles faz.

É interessante constatar que tanto Alfredo da Costa como Manuel Buíça aparecem como personagens, em Lápides Partidas, sendo o primeiro o Manfredo Bemposta e o segundo Uriel Roliça. Além destes, aparecem outros nomes: o de Paulo Ramos, que é o amigo com quem aprende contabilidade, Joaquim Pinto Ramos; Tavares Cardoso, o editor, é Felizardo Langroiva; Humberto de Avelar, professor, é Humberto Pataroxa; José Augusto Ferreira da Silva, cadete da Escola do Exército, e que será ministro da República é o Tomé da Silveira; José Dias é o Velhinha em A Via Sinuosa e o José Elias em Lápides Partidas.

Aquilino deixa as águas-furtadas da Rua Nova do Almada pelo Hotel Rossio. Estamos em Março de 1908. É pronunciado judicialmente. A 31 de Maio, Aquilino, disfarçado, apanha o comboio (o “ronceiro”) para o Entroncamento e ali, o Sud Express para Paris.

Armando Ribeiro, em A Revolução Portuguesa (vol. V, 1916), escreve:

“Ainda em 1910 correm boatos em Portugal sobre a sua fuga: diz-se que teria sido a Maçonaria a financiar a sua partida, que o estadista francês Pichon lhe teria dispensado protecção, também a pedido da Maçonaria…”

Certa porém, terá sido a inestimável ajuda de Magalhães Lima e do Directório do Partido Republicano.

O professor Joaquim Romero Magalhães, no seu livro “Vem aí a República! (Almedina, Outº de 2009) escreve a este respeito:

Para Aquilino Ribeiro, então um jovem próximo dos anarquistas que lidou com os dois regicidas sobre cuja participação não há dúvidas, Alfredo Costa e Manuel Buiça, o alvo inicial era João Franco e não o rei. Vendo frustrada a possibilidade de o atingir porque Franco lhes teria trocado as voltas, num impulso de momento decidiram avançar sobre a carruagem real e liquidar o o monarca e o príncipe herdeiro. “O segredo hermético de que se cercou o atentado só se explica pela improvisação…” (UEC). Afinal, nem sequer haveria segredo – fora simplesmente uma decisão daquele instante. A mesma versão dos regicidas por conta própria é ainda sustentada por José Relvas e por Jorge de Abreu – ambos em boas condições para saber o que se dizia em Lisboa. E ainda Machado Santos sublinha que os regicidas actuaram “sem o conhecimento de ninguém, por um acto de abnegação espontânea.” Terá sido assim? É a melhor explicação, mas não há maneira de fazer prova, como não há qualquer outra. (José Relvas, Memórias Políticas, vol. I; Machado Santos, A revolução portuguesa. Relatorio). João Chagas resume com justeza o seu efeito: “ O regicídio foi uma surpresa e surpresa tão espantosa, que ainda hoje vivemos sob a sua acção. Na realidade, paralisou os movimentos de todos, até os nossos.” (João Chagas, 1908. Subsidios críticos para a historia da dictatura).

Ainda sobre o assunto do Regicídio, o Sr. Eng. Aquilino Ribeiro Machado, filho do Escritor, escrevia-me, a 7 de Março deste ano, com a sua habitual gentileza clarividente, e em resposta a uma questão que eu lhe colocara, o que cito com a devida vénia e autorização:

De vez em quando vem à tona a história da 3ª carabina do Terreiro do Paço, invencionice antiga dos tempos em que não se sabendo nada do regicídio, cada um se deitava a imaginar coisas e acrescentar um ponto aos mais extravagantes boatos, que corriam por todo o lado. Quando o rei foi morto meu pai encontrava-se refugiado num prédio não muito distante do sítio onde o rei foi abatido e seria totalmente louco se pusesse um pé na rua, quando o terreno previsivelmente estaria cheio de bufos que o procuravam por tudo o que era sítio. Contribuiu para aquela lenda o Mello Breyner que foi médico de D. Carlos e o primeiro a reconhecer oficialmente o óbito. Ele, que era um monárquico devotado, foi um dos primeiros a acolher a atoarda de que à espera do soberano estavam alinhados, ao longo do percurso até às Necessidades, diversos carbonários armados, entre os quais o jovem foragido Aquilino Ribeiro. (…) A verdade é que nunca parece ter havido qualquer conspiração para matar o rei e que o alvo esperado pelos regicidas era o João Franco, o qual lhes trocou as voltas e não compareceu à chamada. (…)

Escreveu-me ainda, e na sequência da anterior, a 8 de Março deste ano o que segue:

(…) ” Por muito que o rei fosse odiado, matá-lo seria sempre um acto temeroso e de consequências imprevisíveis face aos reflexos e aos atavismos colectivos de submissão secular perante a figura simbólica do soberano. E que, de certeza, não seria, na altura, mais odiado que o João Franco. O Costa e o Buíça, que não eram indivíduos primários, sabiam-no bem. Atirar ao rei e à família real foi um acto reflexo que traduziu a frustração do malogro de mais uma iniciativa falhada a acrescer ao malogro do 28 de Janeiro. Representou ainda um acto de brio pessoal ferido, uma bravata contra a humilhação do insucesso, um desafio final, à maneira hispânica, contra o touro que se não deixara dominar. Nada confirma que, para além da deposição do rei, a que muitos monárquicos e republicanos aspiravam, houvesse uma prévia conspiração para eliminar o soberano. Tudo o que se disse e diz a tal respeito não tem nenhuma comprovação fidedigna e não passa de mera atoarda.”

Há vidas coerentes tecidas com linha de coesão. A de Aquilino é uma delas. Se foi preso por monárquicos, foi também, mais tarde, em plena República, reprimido pela ditadura militar de 1926/1933.

Em 1927, implicado na revolta contra a Ditadura Militar, que eclodiu no Porto a 3, e em Lisboa a 7 de Fevereiro, é perseguido. Foge para Soutosa e daqui para Paris, onde permanecerá um ano. Já durante 1928, ano em que Salazar se empossa como ministro das Finanças, é feito prisioneiro na Estação das Contenças, em Mangualde, pelo seu envolvimento na rebelião do Regimento de Pinhel. Detido no presídio do Fontelo, antigo Paço Episcopal, com o Dr. António Mota, do Freixinho, dele se evade no dia da Nª Sª da Lapa: 15 de Agosto, e pela terceira vez se refugia em Paris.

Em 1929 é julgado e condenado à revelia no tribunal militar de Santa Clara, em Lisboa.

Pelas suas convicções, pelos seus ideais, Aquilino sacrificou-se como poucos. E não foi apenas nestes anos e causas, foi-o também aderindo ao MUD, apoiando candidaturas dos opositores a Salazar, Norton de Matos em 1949 e Humberto Delgado, em 1958.

Já no crepúsculo de sua existência, em Março de 1959, foi ainda enxovalhado, alvo de um processo, perseguido, constituído arguido, pronunciado, censurado nas suas obras e proibido em livros como “Quando os Lobos Uivam”, 1958, a escassos cinco anos de sua morte, concomitantemente com a sua proposição para Prémio Nobel da Literatura, apresentada pelo Professor Vieira de Almeida, e subscrita por incontestáveis nomes da intelectualidade lusa, francesa, espanhola, inglesa e alemã.

Finalmente, a 19 de Setembro de 2007, a Assembleia da República, o Governo e o Presidente da República outorgaram-lhe tardia justiça, ao decretar a trasladação do seu corpo para o Panteão Nacional, onde jazem aqueles que pela grandeza de suas obras e vidas se perpetuaram para além da morte e da debilidade da memória humana.