Da água à águia. Um volver revolteado do(s) sentido(s). Ler Aquilino.

por PN | 2014.04.13 - 09:13

A pesar, me quedo agora da releitura de “A Via Sinuosa”, três décadas volvidas da sua descoberta. 1

Numa girândola de estralejo, vigor e cor, ocorrem-me as sendas plurais de leituras encetáveis, e contudo, uma linha flagrante e constante, simples e límpida se perfila, mau grado o inúsito da opção: a Água.

Da água que sendo fonte de vida é meio de purificação e centro de regenerescência… e por mero exercício reinante da conjectura, à águia que o autor no nome porta, e que é também nome do ninho dos amores adúlteros entre Libório e Estefânia, no Paço de Santa Maria das Águias, uma mera síncope vocálica as separa, sendo esta símbolo do poder, da clarividência augural, bem como do pai e de todas as figuras da paternidade.

Esta 4ª obra de Aquilino consagra no frontispício, lapidar, em escrito:

“À memória de meu pai, Joaquim Francisco Ribeiro.”

De certo modo, não é também “A Via Sinuosa” a consagração do amado mestre, o Pe. Ambrósio?

O título, “A Via Sinuosa”, se metaforiza a existência cedo ziguezagueada de Libório Barradas, um adolescente em emersão para a vida, poderá ser sempre e também a imagem do curso de água, que a bom exemplo, de sobre um lapêdo em fio brota, na Serra da Lapa, tenro córrego se torna e impado rio se cria, do planalto encurvando, às gargantas da Fraga corrido, por penhascos arouqueses esgalgado, até às planuras aveirenses, onde mavioso se espraia, se dilata, exausto ao fim chegado.

E por que via tão sinuosa…!

Inserirmos esta obra num conjunto que “Cinco Réis de Gente” encetaria para fluir com “Uma Luz ao Longe”, “Lápides Partidas” e se rematar em “Um Escritor Confessa-se”, seria ajeitar em políptico um possível percurso autobiográfico de seu autor, seguir seus passos em verdades de vida dados e outros mais com que a ficção as engorda, quer pelo maneio a romance requerido, quer tão só por almejados transes nunca pelo destino avivados.

Aquilino, até, em voz de enfado, adverte:

 

“… houve quem se comprouvesse em me reconhecer no protagonista do romance ‘O Homem que Matou o Diabo’ (…) Viram-me ainda na pele de herói de ‘A Via Sinuosa’ e ‘Lápides Partidas’. Não é nada disto. A identificação tem seus limites.”

Pois que os tenha. A vida tem suas coincidências. E nelas, aquela, frequentemente, se revê.

O incipit da obra é este:

 

Sentado na borda do tanque…(p.1)

 

E é neste secular continente, que a água represa se guarda, remansosa para dar vida à terra. E é a seu lado, numa adjuvância total, que a quietude de um viver ainda ledo se inicia, na aprendizagem das letras para enfrentar o mundo além.

E fora ali, que S. Francisco de jornada para Compostela se dessedentara (…) numa fontinha, que não era este chafariz formoso, talhado, mais parece, para os jardins do papa que para cerca de monges. (p. 1)

Continua a narrativa, rematada a sagração da água por boca ávida de santo, num confessar de mágoas imemoriais, a modos de indício premonitório do provir:

Sobre o tanque, que se vedava para a rega, noite e dia a fonte levava a chorar. A água vinha de longe por uma caleira de pedra, e era a sua uma toada tão leda e inquebrantável, que parecia mesmo a pulsação do silêncio.

         De três bicas, manando de rosáceas num pano de gracioso corte, com o entablamento coroado por pirâmides e um frontão em que se vasava uma guarita de santinho, apenas uma escorria pelo tempo da seca. Se pelos meses de águas vivas todas três brotavam, na tristeza das horas sem luz, à borda do silêncio revessado pelo convento, seu gorgolão era grave, como uma salmodia de monges.

         De bordo em curvas alternando com segmentos de rectas, o tanque era, de par em par com o lineamento da escaleira que poucos passos dali conduzia à capela, duma ordenança mais harmoniosa que as rendas por minha mãe tecidas. (…) “Aqui se erguerá uma casa para pobres da vida pobre, quando Deus for servido! – dissera ele (S. Francisco)” E dali o ficar a água do nascente de muita virtude nas moléstias da tripa… (p. 2)

 

Também aos Violas, segundos inquilinos do Convento de Caria, que os primeiros eram os Barradas, na menos amparada das pobrezas, a água não faltava:

Passos adiante, oferecia-lhes uma fonte arcada água da boa, na cisterna da qual, rasa com o tempo, iam, segundo as vozes, os religiosos de S. Francisco pôr o bacalhau de molho em vésperas de magro. Casa, água, lenha da que apodrecia pelas tapadas ricas, e a graça de Deus, disto eram fartos os Violas. (p. 12)

Para Libório, no acesso à casa dos Terceiros, guardiã da sabedoria, e aconchego das horas más:

… A fonte dos monges lá estava entoando o seu mavioso cantochão às horas sem fim. (p.17)

Quando chegam, de dúbias intenções carregados, os Padres do Espírito Santo, como que a virem apossar-se de um território maninho, a fonte chora:

Minha mãe, na lacrimosa fonte dos monges, lavou de sol nado a sol, pôr. (p. 37)

Ao sentir-se ultrajada por outras liturgias que não as do bom Pe. Ambrósio, a água augurando o abuso de que o boticário Chinoca adverte, sente o que o prelado, na sua imensa bondade, afoga sem verbalizar:

Os fiéis, entretanto passavam pela rua de buxo em direcção à igreja, abafando a magoada melopeia da fonte antiga. (p. 46)

Em suspenso, ciente do passo que surge e vai lançar a confusão no corpo núbil de Libório, quando em panne o automóvel de D. Estefânia se detém:

Sobre o silêncio universal, a fonte dos monges levantava aquela solfa maviosa que media o escoamento do tempo no açude sem fundo do infinito.  (p. 56/57)

… que também poderia ser o açude sem fundo do desejo ora ali em geração.

 

Portadores da mal asada nova, repelidos pelo tio de Libório, o Fome-Negra, de Barrelas, a quem o Pe. Ambrósio fora com o discípulo pedir custeio para seus estudos…

 

Avançando nos tempos, sentia já as saudades das doces ruínas de S. Francisco, sobre cuja solidão o rouxinol entoava nas noites encobertas uma ária doce. E com ele a fonte dos monges chorava, eram suas vozes um cântico de infinita suavidade sobre o mundo morto. (p. 84)

Mas a água é também o manancial de vida e sustento das bocas arredias de iguaria:

Sem a água, não teríamos nós, agora, o paladar regalado por estes saborosos salmonídeos, de hábitos elegantes e casaca pintalgada como os marqueses do senhor D. João V. (p. 145)

Quando os ditames da consciência ordenam ao Pe. Ambrósio aclarar a verdade sobre o Rolim, pretendente de Celidónia, perante os Violas e o próprio facínora, como se as histórias do passado, num cíclico suceder, se repetissem, a ingerir nos dias do presente…

A mãe Violas chegou primeiro, aturdindo com as chancas ferradas o recolhimento do eremitério a que a fonte estava contando melancólica lenda. (p. 146)

        

Depois da ruim nova a Rolim:

E após um grande silêncio em que cheguei a ouvir a fonte que calmou a sede a S. Francisco… (p. 157)

A água purifica Libório, que chega correndo à missa:

Mas ainda cheguei a tempo de ser dealbado pela água lustral, como ordenava a liturgia daquele domínio terceiro. (p. 163)

Mas mais ainda que purificar, a água, em seu curso litúrgico, exorcisa o mal e os malvados:

Ao tempo que seus lábios (Pe. Ambrósio) proferiam a antífona ‘asperges me’, o movimento do braço repartindo a água com a cadência ordenada dum semeador, afugentava dos corpos e das almas os espíritos malignos, os génios do mal e toda a classe de potências do reino das sombras. (p. 163)

Mas, no decurso do almoço com D. Estefânia, esta, a modos de antigos sábios gregos em simpósio, soltava-se com lentidão e sem se deixar tomar, lesta como às bacantes de Dionísio.

 

D. Estefânia temperava o seu vinho com água. (p.178)

Para logo de seguida, num ajeitamento promíscuo, provocante e sôfrega, se desaugar do mesmo cálice, como no ritual da igreja:

D. Estefânia, não cessando de me fixar, estendeu a mão para o copo da água. Eu julguei-me obrigado de preveni-la de que distraidamente se servia do meu copo; mas já ela bebera gole sobre gole. (p. 181)

À noite, repudiado do lar pela iracunda beatice da mãe, com o sangue pulsante de desejo, no aconchego atordoado que busca junto a Celidónia, na casa aberta dos Violas:

Só depois de ouvir o coração bater, percebi a cantilena da água de mina e o rumor distante dos açudes. (p. 226)

E é na Invernia longa e inclemente, quando o sr. Chinoca-boticário

(o Marat local) lhe prediz com tanto acerto o futuro

        

Ainda hás-de deitar bombas! Tão certo… (p. 241)

que, em enxurrada, as águas revoltas afogam o doce fluir da monacal fonte:

As águas corriam a monte das minas e, extravasando, afogavam a toada do chafariz, tão melancólica pelo estio fora (p. 241/242)

Volvem os tempos. Libório enquanto arquivista da casa das Águias, do fidalgo e deputado Luís Malafaia, por muita intercessão do seu mestre Pe. Ambrósio, que não desiste de lhe encontrar futuro, envolve-se numa relação carnal estrepitosamente estouvada com D. Estefânia, nas barbas de seu marido. E aqui, a força da carne, poderosa surge nas garras da águia:

Estava doido por aquela mulher mas isso não me tolhia de me sentir nas garras terríveis duma águia! (p. 300)

Caprichosa e enciumada, D. Estefânia quer conhecer a outra mulher que Libório amou. Dando provas de pouco carácter e totalmente submisso àquela paixão carnal requintada, o jovem amante aceita ir mostrar-lhe Celidónia em S. Francisco, num dos momentos mais constrangedores e precipitadores da narrativa, com a água, no seu imemorial curso, envergonhada daquilo que sabia serem as fraquezas de sempre, dos amantes tresvairados:

 

O silêncio grave das ruínas envolvia S. Francisco. A maviosa fonte voltara a cantar com a primavera e a voz parecia vir do fundo dos tempos. (p. 308)

        

O confronto entre Celidónia e Estefânia, opondo a vistosa riqueza à pobreza mais singela, é de uma inaudita crueldade. Porém, a beleza casta de Celidónia, é aos olhos da própria Estefânia triunfadora do confronto:

Estefânia foi sentar-se na Biblioteca, no poial da janela, donde se ouvia o gorgulho da fonte, soltando a amarela balada da melancolia. (p. 311)

Doravante precipita-se a ruptura. Luís Malafaia é colocado na Suécia. Estefânia parece, de repente, humilhada pela doçura cristalina da “rival”, enfadar-se de Libório. Este esbraceja inutilmente, um desespero de repudiado, tudo fazendo para não perder o usufruto da amante. E vai, em causa derradeira, depois de ter sido apanhado em flagrante pelo marido enganado, tentar chegar à fala com a amante, ao Paço de Santa Maria das Águias – atente-se no nome do ninho deste adultério! E é na viagem que entrevê a água, como ele revolta:

Por entre o bracejar da água de lima, dum branco cristalino, as ferras eriçavam seu tapete de indolente e frio verde. (p.325)

E quando tenta, a qualquer transe, mesmo roubando, arranjar dinheiro para correr atrás da amante, para a Suécia distante, que a água se transmuta, álgida, nas moscas brancas, cobrindo terras e caminhos com seu alvinitente e imaculado manto. Vai Libório fugindo de Barrelas, de casa do tio Fome-Negra, a quem agride e tenta vaamente roubar a carteira, num acto criminoso e repugnante:

Era a hora crepuscular, e da neve e da luz esmorecente a terra cobria-se de muito lívida e melancólica mortalha. (p. 331)

Para continuar, logo adiante, como que a esconder com seu manto a podridão e a vileza dos actos humanos:

A grande vaga branca, pouco a pouco, foi apagando todos os borrões negros da terra; e nichos do purgatório, cruzes de homem morto, cemitérios, lugarejos, suavemente cediam à altura sua tristeza inconsolável. (p. 332)

E assim culminar, ferindo com o silêncio envergonhado das suas cortantes arestas:

Caíam umas raras arestas de neve e a terra era um mar de prata e de silêncio (…) o caminho fora entupido pela neve, e eu ia pelo tacto, tomando como referência as ladeiras e os pinhais toucados de trémulas fosforescências. (p. 332)

Chega trôpego e desvairado de seu acto, num arrependimento da sua inconsequência tardio, e ao chegar a S. Francisco, ainda pensa:

Estava lá Celidónia e como a Virgem e como a neve era casta, formosa e forte! (p. 333)

É no momento que entra em casa do Pe. Ambrósio, que surpreende e ouve a conversa entre este e o fidalgo enganado Luís Malafaia, que afirma tudo ter sabido por D. Estefânia, a quem perdoara a leviandade e ligeireza que ouve da boca de seu amado mestre esta sentença final, enredada no turbilhão tumultuoso das águas revoltas:

— Pois lutei, lutei com ardiloso esforço para furtar Libório à corrente que tudo vai levando. (p. 336)

Na sua reflexão final, o Pe. Ambrósio, ciente de quão improfícuo houvera sido seu empenho, ainda tenta assacar aos tempos, mais que a Libório, as culpas do sucedido:

Para onde correrá a via sinuosa? Não sei, mas estou em jurar que meu discípulo será bem desgraçado!… (p.337)

Perante o que ouve, desenganado, confirmada a ligeireza e leviandade de D. Estefânia, por quem quase matara um tio e esquecera o seu amor casto por Celidónia, depois de ouvir a tristeza mortal de seu mestre, Libório…

 

Saí a passos lentos, cabisbaixo, outro homem. E, pela terra rasa de neve, sem rumo, esclarecida por um vago horizonte, marchei, marchei, costas voltadas implacavelmente ao que ali ficava. (p. 337)

 

Concluindo, se a água se presentifica ao longo da narrativa desde o continente, seguro e forte, do tanque tranquilo de atalaia ao tempo, à neve em arestas catárcticas do momento climático do desespero de Libório, ela é choro, melancolia, fradesco canto e entremez de volúpias na confusão dos sentidos de Estefânia, até chegar à corrente que tudo arrasta, levando em tumulto o protagonista, em sua tão agitada iniciação à vida.

A terra rasa de neve oferece-se, enfim, como oportunidade de remissão, ao caminho sinuoso de Libório.

Para a desgraça?

Melhor será encontrarmos a resposta nos outros volumes do políptico (quase) confessional, pois daqui, em água nova de fonte velha, lavamos já nossas mãos…

 

____________________________________________________________

1. Neste passo foi seguida, com grafia ora actualizada, a 2ª edição das Livrarias Aillaud & Bertrand, de 1919 – a 1ª sendo do ano transacto, deste romance escrito em Lisboa, de 1916 a 1917, recém chegado do 1º exílio em Paris.