Crónica sem jeito nenhum

por Alexandra Azambuja | 2014.06.13 - 11:28

Fico calada a ver o mundo deste lado da janela.

Passam pessoas e animais, carros do lixo e outros seres viventes, vejo muitas vezes casais. Invariavelmente os homens olham em frente, enfadados enquanto caminham e elas matraqueiam o ar com torrentes intermináveis de conversas que eles não ouvem. Elas esticam muito o pescoço para ficaram grandes mas em vão. É quando os casamentos se tornam este penadoiro que devia ser proibido estar naquele triste estado.

Depois as crianças. Puxam a mão, pedem este mundo e o outro. As mães perdem a cabeça e gritam, ou dão um safanão no pequeno terrorista, a fila inteira do supermercado a olhar com ar de tss tss, és uma Mãe falhada e não sabes, ou sabes mas não queres saber.

Depois no café, as empregadas que teimam em virar costas aos clientes – atende-se tão mal os clientes neste país, santo deus, não sabem que afastam as pessoas assim e ajudam a cavar o desemprego que se aproxima? – e a gente que desespera por um café e elas a ignorarem-nos olimpicamente, tudo é mais importante que o cliente, contar as moedinhas pretas da caixa, lavar pires, ajeitar os bolos na travessa da montra, falar com a colega da vizinha e o formigueiro a subir-nos de impaciência e a falta de vontade de atender que parece contagiosa neste país e eu a lembrar-me da minha Mãe que dizia um dia se tiveres de servir bicas num café faz o melhor que souberes e eu a lembrar-me de gente que é tratada abaixo de cão pelo patronato, que acha que faz a misericórdia divina de “dar” emprego a uns miseráveis sem o quais o seu negócio não existiria e eu sem saber como teria brio para atender clientes se me levantasse às 6 da matina para ir esmolar 480 euros depois de centenas de bicas aviadas e muitas chávenas lavadas, talvez não tivesse vontade de me virar para a cliente que também era eu e depois pensava em simultâneo como raio podia ser a cliente que bramava pela falta de formação profissional e a empregada que não queria voltar-se de frente?

E caio sempre no mesmo fosso absoluto do país chamado Portugal onde os que podem e os que obedecem estão separados por séculos, línguas diferentes e mundos paralelos que nunca – por nunca ser- se tocam, tornando assim impossível perceber que mundo é esse onde se movimentam os miseráveis.

Temos portanto universos separados – lá dizia o outro – onde vislumbramos gente mesmo à nossa frente mas que não fazemos ideia como vivem, o que pensam e sobretudo como raio sobrevivem, mistério insondável esse que é apanágio da gente pobre que teima em ser feia, provavelmente apenas para irritar os afortunados do mundo das belas coisas onde tudo se move grácil e suavemente entre a elegância das palavras, a metáfora dos actos e o gosto requintado de ignorar que existe mais além alguma coisa chamada gente.

Pergunto ao novo mendigo da rua como se chama e ele abana muitas vezes a cabeça, mas os olhos sorridentes e azuis parecem os de um homem contente. Suspeito que terá a felicidade de ser um bocadinho louco e poder assim escapar à condição humana e pobre de ser triste. E pobre.

E depois ouço os afortunados, com quem infelizmente me cruzo demasiadas vezes na vida e pergunto-me no silêncio aos gritos muitas vezes muito alto, se não têm olhos de ver, que raio fazem na vida para além de figuras patéticas e que mecanismo lhes terá substituído o coração quando desenham sorrisos de escárnio – mas sem mal-dizer – nas caras escanhoadas, perfumadas e límpidas ?

E queria muito ver os sorrisos de escárnio – mas sem mal-dizer – depois de dias passados a lavar chávenas sem a maior ou menor esperança de passar da cepa torta, não há emprego, a escola foi difícil, o país não ajudou, mas temos de expiar o crime de ter vivido acima das possibilidades – ir ao dentista particular que nos centros de saúde não há – e comprar um simulacro de brinquedo no Natal e no aniversário dos terroristas, mas porque me olha a senhora que escreve nos jornais assim quando lhe ponho a bica no balcão, querem ver que é da ASAE, ou então conhece o meu pai que pede esmola lá no cimo da avenida, só sei que me doem as costas e as mãos não aguentam mais tanto detergente barato e os jornais são tão bons para puxar lustro aos vidros mas agora estão muito caros e têm de ser com um pano nunca fica tão bem, mas não faz mal que a patroa só vem ao café já escuro fazer o caixa e já não se vê, se um dia vir sei que vai gritar e dizer que não presto e se calhar tem razão, não presto para ser empregada dela embora isso não me adiante nada, já é tão tarde e amanhã às 6 da matina é outra vez dia de me levantar onde andará o maluco do meu pai que não se lembra do nome e traz os bolsos cheios de bolas de papel que lhe dão porque não sabe contar moedas e gostam de o ver sorrir apesar de ele ser gente e pobre, mas com uns lindos olhos azuis?

(Imagem de Zé Oliveira)