Corpo a corpo

por Patricia Maia Noronha | 2014.03.20 - 22:08

Dou comigo a abanar a perna de tal forma que o corpo também abana todo. Um tique nervoso. Quem não tiver um tique, por mais pequeno que seja – roer as unhas, rezar baixinho, coçar a cabeça – que se acuse. Aposto que até Deus tem tiques nervosos… O tique nervoso de Deus talvez seja provocar desastres naturais, quem sabe? O meu é este: abanar a perna. Freneticamente. Como se estivesse numa espécie de transe.

Já são quase dez da noite. Do outro lado da rua, nas janelas dela, nada se mexe. Desde ontem que não aparece em casa. Vigio-a de perto há quase dois meses. Sinto que já a conheço melhor do que ninguém. O que mais gosto é de a ver cozinhar porque ali, na cozinha, consigo vê-la de corpo inteiro, dos pés à cabeça. É a divisão que dá para a varanda e tem uma porta enorme mesmo em frente ao fogão. Na sala é só uma janela e só a vejo da cintura para cima. A cozinha é uma espécie de ecrã gigante.

É uma rapariga saudável. Vê-se pela comida que prepara: coisas verdes, tomate, frutas. Mas espero que não compre daquelas coisas biológicas e caras que agora estão na moda. Engraçada, esta coisa das modas. Agora é biológico. Aquilo que há cinquenta anos era só comida. Aquilo que as pessoas plantavam lá na terra para pôr no prato, agora são produtos biológicos. O que os nossos bisavós se haviam de rir ao ler na embalagem dos ovos: “galinhas criadas ao ar livre” ou “galinhas alimentadas a milho”.

Os vegetarianos e os fanáticos da comida biológica são das coisas mais assustadoras dos tempos modernos. Um dia ainda hei-de dar uma tarte, uma omelete ou outra coisa qualquer cheia de carne disfarçada a um vegetariano qualquer e no fim confesso que aquilo estava cheio de bacon. É isso e os descontos. Agora temos de acumular pontos, quantos mais melhor, pontos em todos os cartões: do supermercado, da gasolina, da farmácia. E andamos sempre com os bolsos cheios de talões e cartões. Porque é que não põem logo os preços mais baixos e poupam as pessoas a figuras ridículas? A minha avó é uma fanática dos talões, uma obsessão que às vezes roça a loucura. É capaz de ficar quase a chorar se perde um talão com descontos. “Eu tinha a certeza que o tinha deixado aqui, tenho a certeza”, dizia no outro dia enquanto despejava com fúria o conteúdo da mala por cima da mesa. Tive que lhe por a mão no ombro e dizer “Avó, calma, afinal é só um talão.” O talão, que nunca chegou a aparecer, “dava direito a cinco euros no cartão”.

A janela da Mariana continua desligada, por isso ligo o Facebook, a ver se paro com esta coisa da perna, que às tantas me irrita. Apesar de tudo abanar a perna, ainda que violentamente, não é tão grave como arrancar cabelos. Vi na CNN que este tique tem um nome – “Tricotilomania”. No programa apareciam raparigas que não podiam sair de casa sem chapéu tal era a quantidade de cabelo que arrancavam. Mais vale roer as unhas ou abanar a perna.

Ligo o Facebook e acedo ao perfil falso que criei e que uso para chegar às minhas vítimas. Estou sempre a apagar e a criar novos. Desta vez sou o Guilherme, tenho ar um pouco beto mas sensível, sou fã de música reggae e o meu livro preferido é o ‘Principezinho’. Meti há dias conversa com uma Rita. É loira e também adora o ‘Principezinho’. E música reggae. Parece que estuda comunicação na Universidade Nova. Será fácil chegar a ela.

Mas por enquanto é a Mariana que me interessa. Sinto por ela um carinho especial, confesso. Até agora tem-se mantido distante. As outras ficam logo com um entusiasmo asqueroso e a coisa que mais querem é conhecer-me. A Mariana não. Vi pela janela da sala que esboçou um sorriso quando recebeu o colar que lhe enviei pelo correio. Custou-me os olhos da cara. Vi que o colocou ao peito e a borboleta de metal encaixou perfeitamente naquela cavidade suave, no fim do pescoço. Ficava-lhe bem. Foi talvez a maior manifestação de carinho que registei – com a minha grande angular – da parte dela. De resto tem sido evasiva. Ainda assim respondeu ao último email, onde lhe disse que gostava de combinar um encontro num café para nos conhecermos finalmente. Que percebia se ela não quisesse, que não a queria assustar. Mas era importante para mim. Disse-me que tem pouco tempo livre, que estuda e trabalha, mas que talvez nos possamos encontrar na baixa, ainda esta semana. Já respondi a marcar dia e hora. Será já amanhã se tudo correr como planeado.

O plano segue em frente. Já tenho uma série de fotos dela. Serão 13 no final. Como sempre. Não me perguntem porquê: foi este número que me escolheu e não eu a ele. Mas posso dizer que estas fotos correspondem a 13 etapas diferentes. As quatro primeiras são fotos de surpresa, espanto, incredulidade. Gosto de as fotografar quando recebem a primeira carta, o primeiro bilhete, as primeiras mensagens no telemóvel. As rosas vermelhas (incrível como este velho truque ainda funciona, experimentem vocês mesmos e verão, infalível). O sorriso estúpido de felicidade. O passo leve na rua. Estes são os registos das primeiras quatro fotos.

As outras quatro serão de confiança. De quem voltou a acreditar em si mesmo e no mundo. Confiança e felicidade. Uma ligeira arrogância que vem com a certeza do amor. E a última, a 13ª fotografia, é a fotografia do desastre. Aquela em que as empurro para o abismo da humilhação. A fotografia derradeira onde, sem que elas saibam, na realidade as liberto da armadilha da felicidade. Dessa coisa pegajosa que as pessoas buscam i n c e s s a n t e m e n t e.

Tiro essa última foto no dia do nosso suposto encontro. Aquele dia em que, depois lhes ter demostrado o meu amor de todas as maneiras possíveis – com cartas, bilhetes, emails, flores – nos iríamos encontrar cara a cara, corpo a corpo. Nesse dia deixaria de ser o admirador secreto. Era o dia em que a coelhinha linda iria ver o seu coelhinho lindo para serem felizes para sempre. É sem dúvida o dia que me dá mais gozo e o longo processo de sedução compensa por isso mesmo. Sinto-me como aquele gajo do Matrix, o Morpheus, que dá ao Neo o comprimido para ele ver a vida como ela é. Sou eu que lhes tiro o véu dos olhos e lhes mostro a paisagem real.

Para conseguir essa última foto posso enviar-lhes um bilhete a dizer qualquer coisa do género: “Como é que alguém pode ser tão burro? Acreditaste mesmo que um homem, qualquer pessoa neste mundo, se interessava por ti? Pior! Acreditaste mesmo que alguém te poderia amar loucamente? Olha bem para essa figura ridícula (aqui posso realçar algum defeito da mulher em causa como o nariz de papagaio, as coxas gordas provavelmente com celulite, qualquer coisa assim). Fecha-te em casa e deita a chave fora. O mundo sem ti será um sítio melhor”.

Queremos ir ao fundo. Mesmo ao fundo. Aquele ponto em que achamos que já não há volta a dar. Não é? Não sentem isso às vezes? Que é tão importante esse fundo como a superfície. Ou talvez até seja mais importante do que a superfície. A superfície é mesmo isso: superficial. As pessoas felizes são fúteis. E é lá no fundo que nos encontramos.

Se há coisa que não suporto são pessoas que andam sempre todas bem-dispostas. Sempre a rir, a acreditar no futuro. A Adriana, a penúltima miúda que ajudei, brasileira, era assim. Não sei como é possível com aqueles pés achatados que exibia sem qualquer pudor enfiado numas havaianas. Mesmo que estivesse um frio de rachar ela andava aí pela rua com as havaianas. Tive mesmo para lhe enviar por correio umas sandálias fechadas -daquelas Melissa por exemplo, que também são brasileiras – mas acho que ela não conseguiria usar. Como aqueles miúdos do campo que sempre andaram descalços e depois qualquer sapato lhes magoa os pés.

Tenho uma relação amor ódio com os pés das pessoas. Fascinam-me tantos os bonitos como os feios. Mas os pés pequeninos e lisinhos, esses sinto um carinho inexplicável, um impulso de os agarrar e fazer festas devagar. A Mariana tem pés desses. Já vi quando anda descalça pela cozinha, pisando o chão de pedra com cuidado por causa do frio. É raro muito raro mesmo. Mas já os vi duas vezes. Peguei logo na grande angular e fiquei ali parado a olhar. Ainda não consegui foi tirar-lhes uma foto. Desaparecem sempre depressa demais.

A minha avó por exemplo tem uns pés que me escandalizam. Apesar de os conhecer há tantos anos, escandalizam-me sempre. Quando os vejo, não consigo ver mais nada. Quadrados, demasiado reais, com aquela pele seca. Felizmente raramente os põe à mostra. Ultimamente a minha avó anda desconfiada e até irritada, o que não é nada dela. É verdade que passo cada vez mais tempo em casa. Mas tenho enviado currículos. Tenho mesmo. Talvez não envie com grande entusiasmo, isso talvez. Mas quanto entusiasmo se pode por numa carta de apresentação que será sempre a mesma e para centenas de empresas que provavelmente nem a vão ler? “Adoro trabalhar em equipa”, “sou pontual e responsável”, “sei que serei uma mais-valia para a vossa equipa”. Pouco mais do que isto se arranja.

Penso que a minha avó também nunca ultrapassou aquele incidente do meu último emprego. Era uma boa empresa, sim, um grande grupo em crescimento. Eu estava no departamento criativo mas podem acreditar que de criativo não tinha nada. Nada de nada. E o pior era a nossa “coordenadora”. Ponho entre aspas porque ela na realidade não coordenava nada. O seu cargo oficial deveria ser “graxista”.

As coisas nunca correram bem entre nós mas o dia “D” (de despedimento) aconteceu quando ela olhou para mim furiosa a perguntar pela arte final de um anúncio de preservativos do qual toda a gente na realidade se tinha esquecido, ela inclusive. “Tens meia hora para entregar isso à equipa, ouviste?, M e i a h o r a”, disse carregando as palavras. Ok, disse eu com um sorriso de orelha a orelha. Aquela voz esganiçada dava-me sempre uma vontade incontrolável de rir.

E num acesso de inspiração peguei no esboço do cartaz que já tinha feito onde dois casais se acariciavam apaixonadamente na cama. Substitui a cara da moça pela cara da graxista e pus a cara do nosso ‘big boss’ na cara do moço. O slogan ficou “A melhor maneira de subir é na horizontal”. Claro que aquilo era uma brincadeira e depois lá acabei o cartaz verdadeiro. Mas na hora de enviar a arte final, sem querer, anexei ao email o cartaz a gozar em vez de enviar o verdadeiro. Percebi logo o engano assim que fiz “send”. Era tarde demais. Em poucos segundos toda a empresa tinha recebido aquele cartaz. Uma onda de risinhos percorreu a sala e dezenas de caras rodaram na minha direção.

No próprio dia fui posto na rua. Isto já foi há dois anos e até agora não consegui mais nenhum emprego. Nem num ‘call center’, acreditam? Ainda fiz uns testes psicotécnicos para uma dessas empresas mas parece que não tenho perfil para atender telefonemas. Podia ter voltado para casa da minha mãe mas não consegui. Preferi ficar aqui com a minha avó. A minha mãe vem cá visitar-nos quase todas as semanas e faz sempre de conta que está ofendida por eu não voltar para casa dela. Tem um daqueles cães minúsculos – nunca me lembro do nome da raça – mas como dizia é minúsculo e tem uma franja que cai para cima dos olhos e que a minha mãe tem de estar sempre a cortar. É daqueles cães tarados que se agarram as pernas das pessoas a simular um ato de coito e que deixa toda a gente à rasca.

No outro dia o bicho teve um problema qualquer no intestino e quase se desfez em diarreia. A minha mãe estava convencida que ele ia morrer. Andava numa depressão tal que era como se alguém da família tivesse uma doença terminal.

– Coitadinho Adalberto (sim este é o meu nome), não imaginas como ele anda, coitadinho… fraquinho, fraquinho. E ainda acrescentou umas quantas vezes, coitadinho, coitadinho.

Quase que desejei que o raio do cão morresse mesmo para não ouvir falar mais nele. Tenho a certeza que gosta mais do cão do que de mim. Quando me apanho sozinho com ele fico a olhar fixamente para os seus olhos escondidos na franja para ver se percebo. Se entendo o que provoca aquele amor incondicional. No fundo é só mais uma alternativa ao meu pai. Deve ser isso. Como eu também fui em tempos: um vestígio do pai que desapareceu, uma arma contra o divórcio, qualquer coisa para negociar, e dizer “é meu!”, “é meu”.

Foi por isso mesmo que fugi dela. É assim não é pai? Corremos que nem um loucos. Fugimos do medo, tentamos não perder o fôlego. Corremos a uma velocidade alucinante, sem olhar para os lados, os olhos posto lá longe no infinito. E quando damos por ela não saímos do lugar. Ele continua ali colado a nós, o nosso medo, como se fosse a nossa sombra. Inspiramos. Voltamos à corrida. Mas a distância nunca se alcança.

A luz acende-se. Finalmente. Uma luz. Lá está a Mariana, vem cansada. Deixa-se cair no sofá. Levanta-se vem até à janela. Os olhos abertos como duas capelas abandonadas há muito tempo. Que já ninguém visita. Será que me vê? Não. Não vê nada. Olho para ela diretamente. Olhos nos olhos. E vejo que não me vê. Estamos demasiado distantes. Ela vê apenas o exterior, os prédios em frente. Talvez observe um pormenor qualquer do meu prédio. As varandas com ferro forjado em forma de coração. O pássaro que acaba de levantar voo.

Aqueles olhos. Talvez gostasse de lhes tocar ao de leve com os dedos, fazendo com que se fechassem num risco fininho. Como borboletas. A nuca, os cabelos brilhantes. Se ela estivesse deitada ao seu lado, talvez ele lhe tocasse na testa com o indicador percorrendo lentamente o seu perfil: o nariz pequenino de criança, o lábio superior saliente demais, o queixo redondo, o pescoço liso. E iria parar aí e ela ia gostar. Ia gostar muito. Ia gostar mas de olhos fechados. Porque iria confiar nele.

E agora a minha avó irrompe pelo quarto. Vem com aquele ar irritado de ultimamente. Apanhou-me com a máquina fotográfica em riste. “Que estás praí a fazer?”, atira com a voz nervosa, quebradiça, como se fosse chorar. “Nada, nada de especial, estou aqui a ver uns pássaros que têm aparecido, uma espécie estranha que nunca vi”. “Oh Adalberto tu a mim não me enganas, andas a tramar alguma, eu vi aquelas fotos todas. O que é que tu fizeste aquelas raparigas? Perdeste o juízo!?”.

Ia-me caindo tudo. Não posso acreditar. O importante agora é disfarçar o melhor possível.

– Que fotos? Que fotos avó? Andaste a bisbilhotar no meu quarto é isso? Gostavas que fizesse o mesmo, que andasse a mexer nas tuas gavetas, nos teus armários?, disse eu ofendido.

– Mas o que é que tu lhes fazes? Porque é que elas ficam assim, vês, vês? Olha como ela ficou. Não pode ser coisas boa o que andas aí a fazer…

E não é que foi direita ao meu álbum de fotografias escaqueirando as páginas uma a uma e apontando para a tal coleção final com as fotos delas já transtornadas?

– Só espero que saibas o que estás a fazer. Isto vai acabar mal, vai acabar mesmo mal…

Diz derrotada e deixa-se cair na minha cama, os olhos postos no chão, a fazer-me sentir um cão. Mas eu defendo-me!

– O que é que eu ando a fazer? Por favor, avó, eu nem lhes toco. Castigo? eu só lhes abro a porta. Para que esqueçam o sonho das famílias felizes… O pai com a camisa passada a ferro. As mães que mantêm os cabelos brancos cuidadosamente pintados. Que conciliam a vida familiar com a carreira. Que usam uns sapatos elegantes mas desportivos. E que andam com os filhos lavadinhos e penteados pelas mãos. Que fazem umas semanas de férias programadas de antecedência. Refeições em conjunto. A hora de dormir. É isso que fica bem nas fotografias? É isso que queres para estas mulheres? Uma vida de sorrisos que esmorecem? Esmorecem sempre, bem sabes…

Atiro isto triunfante, de olhos bem postos na minha avó. Com os olhos quase juntos ao dela, de tal maneira que ela se afasta. Será que falei alto demais? É importante manter a calma.

– Adalberto eu não quero nada para essas raparigas e tu também não devias querer. A vida é delas não é tua. Tu não és responsável. Ninguém e responsável pelos outros. Tu não decides nada.

– Ai não decido? Então o que é isto?

Agora sou eu que aponto para as fotos. Aponto uma particularmente impressionante. A rapariga dessa foto demorou tempo muito tempo a assimilar as palavras que lhe chegavam às mãos, naquela derradeira carta que lhe escrevi. Releu-a muitas vezes. Tremeu. Pousou a carta. Mordeu os lábios com tanta força que fez um pouco de sangue que limpou nervosa com a mão. E foi nessa altura, ao observar o sangue na mão, que se escangalhou num esgar e começou a chorar. Olhava à volta confusa. Tão humilhada que saiu aos tropeções ignorando o empregado e sem pagar a conta. Na mesa, o líquido castanho da chávena entornada deixou a mesa suja.

– Adalberto a culpa não é tua.

– Não é minha como? Fui eu, sozinho, que lhes fiz isto. É toda minha a culpa. Todinha.

– Porque é que te afastaste dela? Ela quis ficar contigo, sabes disso. Tentou manter o contacto, quis ficar perto de ti… ela tentou.

Diz a minha avó, com a voz por um fio, a desconversar, adora desconversar sobre a minha ex-namorada. Como se isso tivesse alguma importância para mim. Essa relação que nunca foi nada.

– Tu estás a ficar senil, o que é que ela tem a ver com isto? Tens cada uma. Esta é uma missão só minha. Achas que ela, com os seus olhos lacrimejantes e o peito aberto à espera de um abraço, a boca a pedir um beijo, daquela vez em que apareceu depois de tudo ter acabado, achas que é isso que me move? O que me move são as pessoas que fazem ‘gugu dada’ aos bebés. Essa gente patética que pega no bebé, que lhe aperta as bochechas. E eles não nos dizem nada e ficam ali a olhar para as coisas e vê-se mesmo que não sentem nem percebem nada, e mesmo assim as pessoas enternecem-se.

– Deixa a rapariga em paz, por favor…

– Qual rapariga?

– Essa que estás a espiar há dias, essa que está aí nas tuas fotos – e aponta para as fotos da Mariana. Falei com ela no outro dia, na farmácia. É muito simpática, mesmo muito… Está a tirar o curso de enfermeira e também trabalha para ajudar nas despesas. Coisa que tu também devias fazer. Quando é que arranjas um trabalho Adalberto? Arranja qualquer coisa filho…

Às vezes chama-me filho, a minha avó.

– Avó, fazemos assim, eu não me preocupo contigo e tu não te preocupas comigo, e cada um vive a sua vida à sua maneira, e à noite jantamos juntos como sempre, e eu faço as compras cá de casa que tu já não podes com o peso, e prometo que vou, vou mesmo arranjar um emprego, é o que eu mais quero, e tudo vai ficar bem.

– Prometes, isso do emprego?

– Claro que prometo avó, prometo. Agora deixa-me lá ligar o computador…

E assim consegui que saísse do meu quarto. Liguei o PC e enviei novo email a pressionar a Mariana. Compensou. Antes de ir dormir tinha um email de confirmação do nosso encontro. Acordo entusiasmadíssimo mas derrapo na minha avó que se barricou por detrás de um muro sólido de silêncio. Ainda não se esqueceu da cena de ontem. Eu mantive a conversa informal. “Bom dia, queres que vá à mercearia? O carteiro deixou umas cartas.” Da parte dela, nada. Não me deixo ir abaixo. Vou-me preparando porque ainda tenho de escrever a carta. É estranho tê-la tão próximo. As outras moravam longe. Tinha que sair de casa para as seguir. Talvez seja por isso que desta vez as coisas são diferentes. Talvez ela não mereça. Talvez desta vez eu esteja errado. Não sejas cobarde. Digo para mim próprio. Isto é para ir até ao fim.

E se ela não aparece no encontro? Mas no último email disse que sim, que iria, disse até que estava com alguma curiosidade de saber quem sou afinal. Gosto de lhes dar a entender que nos conhecemos na vida real mas que sou tímido e tenho vergonha. Por duas razões. Primeiro porque ficam mais seguras e nem duvidam da história do admirador secreto. Depois porque após o (des)encontro final ficarão eternamente desconfiadas de todos os homens que conhecem tentando imaginar qual deles seria o ‘serial killer do amor’.

A minha avó saiu e nem disse nada. Bateu a porta com força. Está mesmo chateada, bolas. Tenho de acabar o postal que vou mandar entregar à Mariana mas está a custar-me tanto. Até agora ainda só escrevi “Querida Mariana, esquece tudo o que te disse”. Quando tento escrever um insulto vem-me à memória a imagem dela a olhar pela janela. A ler o livro deitada no sofá. Ou a preparar a comida com cuidado como se esperasse uma visita. Até mesmo o momento em que estende a roupa com molas na boca que muitas vezes caem ao chão. E tudo o resto que faz sem saber que eu estou aqui a ver tudo.

Quase uma hora depois o papel continua em branco e abano a perna com mais força que nunca. Oiço passos nas escadas. Deve ser a minha avó. Vem com alguém. São os passos de duas pessoas. Só me faltava esta agora. Vir aqui uma pessoa. Não calha nada bem logo agora que estou nos preparativos finais. Abre-se a porta. A voz da minha avó está animada. Quem diria. “Pronto assim já fica a saber a conhecer a minha casa”, diz ela numa voz demasiado alta. Não consigo reconhecer a voz da outra pessoa. Fala baixinho mas é uma voz de mulher. A minha avó domina a conversa. “Ah já me esquecia de lhe dizer que vivo com o meu neto. Adalberto vem cá”. “Agora não posso avó!”, grito do meu quarto. Que nervos pá. “Anda cá um minuto se fazes favor”. É melhor aparecer e despachar isto, vou lá e digo bom dia sou o Adalberto, adeus. Senão já não me despacho a tempo de ir ao café à hora combinada.

Resignado, com o cartão bem preso na minha mão furiosa, apareço na sala apanhando o resto da conversa da minha avó: “Então está combinado, a menina duas vezes por semana, vem cá tirar-me a tensão! Nem sabe como lhe agradeço este favor. Podia ir à farmácia mas aquilo tem sempre tanta gente e aqueles velhos todos a queixarem-se. Eu também sou velha mas não suporto os outros velhos, sabe? Gosto de gente jovem como a menina. Gente que ainda não tem medo de nada, não é? Ah, cá está o meu netinho! Adalberto, esta é a menina Mariana.”

É ela. Primeiro está de costas com uma solidez impressionante recortada no cenário. Depois volta-se num sorriso absoluto que se prolonga por todo o corpo. Que irradia pela sala e se transporta até mim numa luz inédita. Queria estar parado mas os meus pés avançam na sua direção numa vontade própria. A minha avó continua a falar embora eu não a oiça. Não oiço nada para além deste momento. Estou tão perto quanto possível. Sinto que chega até mim uma qualquer forma de perdão. Uma redenção que me esgota. A minha cara está agora tão perto dela que só vejo um mar de pestanas escuras iluminadas pela retina dos seus olhos que também sorriem. O postal cai-me das mãos. Estou fraco. Não tenho força sequer para agarrar uma simples folha de papel. Tudo se esvai em mim. Fecho os meus olhos quando os meus lábios tocam a pele do rosto dela. Não sou eu que falo mas a minha voz murmura “obrigado”.

(Imagem de António Ferra)

Portuguesa, natural de Lisboa. Sou jornalista e também gosto de escrever ficção. O meu livro de contos "Brilho Vermelho" foi vencedor da menção honrosa do prémio Alves Redol 2009. Tenho vindo a publicar esses e outros contos em revistas eletrónicas de Portugal e do Brasil.

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