corpo

por Maria José Quintela | 2013.12.05 - 11:02

o tempo resvala no teu corpo como um rio silencioso. não deixa ver nem margem nem passagem. o que se vê é o que o espelho garante aos olhos. sem palavras e sem desfeitas. o que se vê é a distância da realidade. o muro que te separa de um lado é o mesmo muro que te ampara do outro: uma ruga. os olhos ensaiam todos os ângulos. menos um. os olhos separam-se do corpo para não ver. toque e fuga. refúgio e medo. ninguém quer tocar a verdade. a morte é uma escama.

ou
a noite atira-te sempre o corpo para o mesmo lado. o silêncio com o som de uma berma esquerda pulsante. um livro que se reabre na mesma página. como se fosse sempre a mesma noite. como se fosse sempre a mesma véspera. como se o corpo da espera fosse antecâmara da eternidade. noite e dia. duas faces com a leveza do pó em movimento. a disputa entre um suspiro e um estremecimento. um longo tédio.

ou
não se inventa um corpo. um nome sim. tudo parece simples até perceberes o corpo preso ao vazio. até nomeares a dor da qual não sabes a substância submersa. falas para te certificares. o eco dá-te a dimensão do corpo e da casa. não da dor.