Contos Comuns – Aquilino e Araújo Correia

por Paulo Neto | 2016.05.23 - 08:34

Este foi o título que dei a um ensaio publicado na Revista de Literatura “Forma Breve“, Universidade de Aveiro, 2003.

Nele me debruçava sobre o conto, esse género do modo narrativo englobante da epopeia, do romance e da novela, deles se distinguindo, de modo simplista, pela sua característica de short story e pela sua capacidade de poder ser contado… nesse trabalho, cingindo-me a determinada e ampla sincronia ou sincronias do período literário, o realismo e o neo-realismo português, abordei quatro autores em função, também, de dois outros factores: a sua conterraneidade e a sua coetaneidade.

Nele escrevi sobre Aquilino Ribeiro, João Maria de Araújo Correia, João Pina de Morais, Afonso Ribeiro e António José Branquinho da Fonseca. Respectivamente naturais de Carregal, Canelas do Douro, Valdigem, Vila da Rua e Mortágua, nascidos em 1885, 1889, 1889, 1911, 1905. Aqui estavam os pontos comuns.

Pondo de parte três destes cinco nomes e cingindo-me a Araújo Correia,  relevo estas palavras de Aquilino, proferidas em 1960:

 

Não é o mestre da Régua, como se dizia da pintura, no obscuro século de Quinhentos, o mestre de Ferreirim ou de Linhares. Mas o mestre de nós todos, que andamos há cinquenta anos a lavrar nesta ingrata e ímproba seara branca do papel almaço, e somos velhos, gloriosos ou ingloriosos, pouca importa; mestres dos que vieram no intermezo da arte literária com três dimensões para a arte literária sem gramática, sem sintaxe, sem bom senso, sem pés nem cabeça; e mestre para aqueles que terão de libertar-se da acrobacia insustentável e queiram construir obra séria e duradoura.”

 

Incumpre aqui reportarmo-nos aos modelares percursos de vida de cada um, Aquilino e Araújo Correia. Tão pouco à sua vasta bibliografia. Cingir-nos-emos, de entre a pluralidade de contos por ambos escritos, à abordagem de “A Pele do Bombo“, de Aquilino, in “Jardim das Tormentas” – 1913 e “O Soba de Mafómedes“, in “Contos Durienses” -1941.
Não vamos entrar aqui na perspectivação periodológica nem catalogar subjectivamente escritas em compartimentos sincrónicos, falar de realismo, naturalismo, neo-realismo ou mesmo em regionalismo dada a tipicidade de figuras, usos ou tradições. Não visamos captar feições folcloristas nem aquelas centradas no típico do local e sua visão de beleza. Ambos se inserem num mais amplo percurso comungado nas pretensões do homem comum que não se conforma com a realidade asfixiantemente opressora, mas que lutam pela sua transformação e bebem no povo o sangue renovador, não devendo minimizar a sua influência na estética do Novo Humanismo, assim como não se devem inserir em sub-períodos nebulosos, facilitistas e de redutora nomeação, como realismo tardio, realismo regionalista, realismo populista, etc., nomenclaturas tão vagas e inexactas quanto inexpressivas.

Estes dois escritores em questão têm denominadores comuns: são coevos, oriundos do mesmo espaço físico, separados à nascença por parca meia dezena de anos, nestes contos à colação trazidos, predominam o ambiente e o espaço rural, em ambos os contos é expressa uma “simpatia (…) à resistência dos pobres e dos explorados contra a violência cruel ou hipócrita (…) por este entranhado mas desapiedado amor à vida sempre em risco e, no plano das sociedades humanas históricas, constantemente reprimida sob a mó das explorações e ideologias dominantes (…)” Citando Óscar Lopes, in “5 Motivos de Meditação“. A morte é-lhes comum. A miséria, material ou humana e o medo estão presentes…

aquilino

Em “A Pele do Bombo“, o espaço é o circunscrito à aldeia da Lapa, em cujo colégio o escritor fez os seus primeiros estudos, e a personagem central é o cavalo do Cleto, carretador de leite, “vila vai, vila vem“. Avelhantado, cansado e dorido de uma vida de labuta e chibata, roído dos alifates nos tendões, sovado a pontapés e arrochadas, calhavam-lhe escassas horas de sono prenhe de pesadelos, para de novo, antes da aurora, dia após dia, recomeçar o seu calvário. Aquilino, “o melhor animalista da literatura portuguesa“, no dizer autorizado de Óscar Lopes na obra supra citada, faz do cavalo do Cleto o protagonista deste conto, metáfora do homem explorado pelo seu semelhante, ele próprio, se dono do esquálido equídeo, pobre diabo, vítima da exploração do dono da fábrica de leite, o sr. José da Loba “homenzinho gordanchudo e tatibitate, mas rico e de muita influência eleitoral“, que e para cúmulo, o enxifra, pela figura de sua mulher Joana, que ainda lhe vendia o corpo a troco do trabalho a Cleto concedido. “– Vamos morrer de fome“, suplica ao dono da fábrica, enquanto este, “encostando a cabeça à dela, beijocou-a, deixou-lhe pela nuca, pelas têmperas, uma baba fátua de caracol“, pagando-lhe com cinco mil réis, enjoado e à pressa o favor com o corpo feito. O próprio Cleto, não se admira da liberalidade do ricaço, que dá para mercar uma fornada de pão e uma saia de chita. Tem “a moral amolecida“, e quanto à despedida da fábrica, aceita-a com um encolher de ombros à inexorabilidade do destino.

O cavalo do Cleto não pode trabalhar, não pode comer. Tem o seu fado traçado, numa sociedade que não tem lugar para os improdutivos e sem préstimo, homens ou animais. É conduzido à ara pelo remorso de Joana, vai “pensativo e melancólico“. O filho de Cleto trespassou-o com o facalhão. “Cleto puxou-lhe por uma perna e logo a seguir pespegou-lhe um pontapé no bandulho a título piedoso de sondagem“. Esfolado, a pele tanto rende uns patacos nos samarreiros, como por imposição do filho do Cleto, fará bombo rijo para zurrar forte no arraial da Lapa.

Temos toda a simplicidade rústica, a alegoria da humanidade riscada a traças ora ameigados, ora cruéis da cor da vida, acabada quando “no horizonte, a grande rosa caiu arrastando o ar todo. E às escuras se engolfou no escuro nada”. E a vida continua. Em “A Pele do Bombo” está contida a pele do homem, surrado pela vida e faina árdua, na morte toado no seu clamor, que se dalguns é de festa, doutros decerto será a voz ecoante da dor.

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Em “Soba de Mafómedes“, de João de Araújo Correia, já o conto se começa com riqueza e progresso, automóveis nos caminhos rurais, electricidade nos lagares e telefone no escritório do vinicultor. O protagonista é um velho rico, o Soba ou Senhor Comendador Eusébio, que manda chamar o médico à vila, para o tratar do medo à morte. Do progresso inicial se passa ao arcaico transporte na “égua do tempo dos afonsinhos”, que os levará a Mafómedes, espaço ficcional que tem em Mafamude, freguesia do concelho de Vila Nova de Gaia, e em Mafamede, o mesmo que Maomé, que quererá dizer louvado ou louvável, os seus mais próximos homógrafos.

O soba era o chefe da tribo, na África, o mesmo que régulo, dando-nos no epíteto parte da caracterização da personagem, com riqueza oriunda de um passado colonial. A casa do Soba é enorme: “Isto é um Marão”, diz o braço direito do Comendador, figura tipicada nas novelas camilianas, o brasileiro regressado à pátria rico, amparo de ministério em queda, que à laia de recompensa o agracia com a almejada comenda, que depura o dinheiro arrecadado do fedor a negreiro como foi granjeado.

O Soba, deitado numa cama, era enorme, velho e porco. “Há cinquenta anos que não me lavo por causa da zípela!”. O Soba, com barbas de prata e arreios da égua também em prata, quer conversar, aproveitando o João Semana, para numa analepse relativamente longa, enumerar suas façanhas aventurosas pelo sertão brasileiro, no mar, com mulheres… intermitentemente interrompido pelo Rocha, braço direito, que leva recado e pedido, da Rita do Eirô que precisa de dinheiro para ir para o Brasil ter com o homem, da Cândida Lamelas que não paga a renda do Cardenho há mais de sete meses, do Administrador do concelho a convidar para a recepção ao Governador Civil do Distrito, o Soba de Mafómedes é a imagem típica do influente cacique caça votos, que manda os seus homens às recepções, fazer molho, como o “Tolão que dê os vivas que é alto“.

O Soba acompanhou o Hintze, o Zé Luciano, o João Franco, o Afonso Costa… acompanhou-os a todos porque é seu lema “acompanhar os governos“.

Com ironia, na senectude não assumida, desfia jactâncias e arrogâncias antigas, reais ou imaginárias, do tipo português das sete partidas, Fernão Mendes Pinto peregrino da riqueza e da aventura ladina, ainda sonha com sua força: “se o Governo precisar de mim, que me mande chamar. A minha faca de mato — deixe-ma ver, Rocha — é só amolá-la, e o Governo verá o que é um mar de sangue“.

O Soba morre “com noventa anos apergaminhados. O surro conserva o corpo“, a dar ordens a torto e a esmo, numa espécie de esconjuro à morte desobediente, que tanto leva consigo o miserável pobre de pedir, como os sobas de todas as mafómedes destes mundos, uma só vez na vida os igualando.

O que há de comum entre o cavalo do Cleto e o próprio Cleto e o Eusébio comendador? São seres verosímeis de um tempo vivido. Eusébio é comum à morte e à rusticidade espacial, mas aqui ancha e oposta à miseranda existência arrastada até que a morte os liberte.

Esta proposta centra-se na leitura de dois contos quase à sorte escolhidos. Não faltam denominadores comuns, dentro da narrativa, anaforizando a simbologia da miséria e sua denúncia, enfocando-se a arte na realidade de uma visão social, com capacidade de intervenção sociopolítica, denunciadora da realidade entrevista e prenunciando o Novo Humanismo, que desabrocha em Portugal nos anos 40. Aqui se confrontam os protagonistas com as suas semelhanças e diferenças, nas linhas mestras geradoras de acção. Daqui se inferem universos espaciais reais e alegóricos e ainda se enquadra o regionalismo, não na perspectiva do mero pitoresco e deleite estético, mero motivo recusado pelo Neo-Realismo, mas como pano de fundo de uma literatura humana ao serviço dos homens, em narrativas que exigem a dor, o sofrimento, a fome e o desespero, e também o sonho, passo prenunciador, antecessor da acção, desviando-se dos devaneios retóricos,