Contar a História

por Rui Macário | 2014.04.20 - 20:15

Um dos sub-produtos do quotidiano é a “documentação”. Produz-se um documento por cada elemento directo de registo, seja de uma compra ou de uma opinião partilhada. Das facturas, aos e-mails, no mais corriqueiro sentido, até aos, por exemplo, processos de contratação de um serviço, com suas cláusulas e logos mutáveis (dentro da vivência de uma empresa), às tipologias de endereçar informação (ou o tipo de informação que se endereça).

Repetindo um tema caro (para mim, ao menos), se a História pertencer na sua escrita (registo) a terceiros, estaremos a assumir que o nosso papel depende de outros que não nós e isso é o primeiro de um conjunto vasto de equívocos e perigos. A História conta-se pelas Histórias (e histórias) de cada um, com sua documentação…

O “a propósito” surge numa constatação aflitiva em torno ao encerramento de vários tribunais (e é em grande medida extensível à extinção de um conjunto de outros serviços públicos, cada vez que uma “sucursal” fecha portas). Os processos – a grande maioria, em quantidade, já que se preservam alguns tipos de processos – judiciais, sem local onde serem acolhidos serão destruídos, sem mais. De repente teremos (temos já) uma lacuna ao nível das Histórias locais de várias comunidades e ainda que se saiba em que estado estão vários arquivos distritais, a solução – penso – está em dotá-los de condições, não em justificar a hecatombe com a sua incapacidade (mesmo quando há vontade dos seus responsáveis) em modernizar acessos e salvaguardar informação.

Viseu é disso exemplo cimeiro, com um dos poucos Arquivos Distritais que ainda não foi objecto de modernização adequada. E merece-o. Aos arquivos ou sobre eles, cumpre ainda dizer que não são espaço para onde se dirigem maioritariamente “estudiosos” ou “genealogistas familiares”. Pelo contrário, servindo-os, servem sobretudo quem necessita de comprovar propriedade sobre terrenos ou fundamentar a sua antecedência (em casos de entre outros, aquisição de nacionalidade). Mas se Hoje é a esses casos que importa um Arquivo Distrital funcional, em breve poderá ser a outros e estamos alegre ou inconscientemente a desperdiçar (sem volta) o conhecimento do nosso passado recente. Enfim será, de uma vez por todas, Arquivo Morto, tudo aquilo que os tribunais não sejam obrigados a conservar. E lá se vão os nossos séculos XIX e XX, aqueles onde afinal vivemos ou dos quais sentimos ainda o peso eminente (e dos que menos tratamos apesar de tudo).

Sabendo que é impossível tudo fazer e a todos agradar, trata-se mais de consolidar o futuro que o passado, para que um dia não digam que “A Bem da Nação” era uma gentileza de despedida de meados do século XX, ao invés de uma pragmática laudatória totalitarista. Pois, a bem da nação se poupam recursos, extinguindo o que nos permitirá um dia distinguir o livre do imposto.

Licenciado em Arte e Património (UCP-Porto) e Pós-Graduado em Arte Contemporânea (UCP-Porto), sendo actualmente Investigador do Centro de Investigação em Ciência e Tecnologia das Artes (CITAR) e doutorando em Estudos do Património (UCP-Porto), Desde 2008 é um dos responsáveis pela Projecto Património, tendo assumido funções de coordenação/co-coordenação de vários dos projectos pela mesma assumidos (de que se destacam o Ano Internacional Viseense, a VISEUPÉDIA, o VISTACURTA – Festival de Curtas de Viseu, e o Museu do Falso). Colaborou em, ou integrou projectos de várias entidades a operar no sector cultural (entre outras: Museu do Carro Eléctrico, Museu Grão Vasco, Diocese de Viseu, Arquivo Distrital de Viseu).

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