Considerações sobre as espécies

por Gaëlle Istanbul | 2013.12.18 - 16:23

Mudar de cultura, de forma prolongada no tempo, cria em nós grandes convulsões. Se estivermos disponíveis para a vida e para as suas transformações, sentimo-las, pois questionamos.
Lembro-me especialmente dos Salamaleques. Durante anos vivi num país que adora os Salamaleques. Não vejo mal nisso, apenas não se adequa à minha personalidade e digo-vos porquê.
Em Portugal sofri. Muito. Sofri porque todos os dias tinha de conviver com a cultura dos Salamaleques. Desde a alvorada até ao pôr do sol e, por vezes, pela noite dentro; os Salamaleques invadiam as minhas terras. Como as Acácias, os Salamaleques são plantas invasoras. Mas algo as distingue, pois os Salamaleques também são plantas evasivas.
Exma Sra Dona, Exma Sra Dra, Excelentíssima Senhora Doutora, semeados com especial cuidado, crescem, crescem, crescem, mas depois, confrontados com o contexto, secam bruscamente.
Talvez seja pelo excesso de sol.
O mesmo acontece quando semeados na espécie Digníssima. Imaginem os níveis de energia despendidos, com tanto floreado, em longos campos de Salamaleques que, no fim de contas, não dão em nada.
Aqui mais a norte, ao contrário, e em terras bem mais frias e, por essa mesma razão, mais inférteis, conseguem, apesar de tudo, fecundar energéticos botões de flor. Há sempre uma sugestão, um contacto, uma informação que ajudará o agricultor a planear uma boa colheita. Digo-vos o nome desta espécie mas não garanto o seu sucesso em terras mais solarengas – chama-se Reserva.
Por exemplo, a Reserva é uma planta tão saudável que até mesmo nos campos dos `Centros de Emprego´, campos aráveis, também aqui a norte, sabemos logo que 70% do emprego é conseguido através de contactos de familiares ou amigos. A Reserva, ainda que com os seus defeitos, informa o agricultor dos seus efeitos secundários. O agricultor pode deste modo continuar a planear e, no caso de se mostrar disponível, resistente ao frio, batalhador, é bem capaz de não sofrer tanto desses efeitos secundários, sendo, eventualmente, premiado.
Não posso dizer que gosto mais de uma espécie de planta do que da outra. Talvez me sinta apenas mais livre e segura ao caminhar pelos campos de Reserva.
Nestes terrenos inóspitos, apesar de tudo, os autocarros enchem-se de crianças vindas das escolas. Crianças que vão passear ao museu, à cidade ou para as montanhas. Isto não tem nada a ver com o texto mas apeteceu-me dizê-lo na mesma, não fosse algum d@s leitor@s ter vontade de estabelecer uma eventual conexão entre o texto e o subtexto.

Gaëlle Istanbul (1972, Mulhouse, França) passou a sua infância em França e Portugal. Estudou comunicação social e cultural em Lisboa, mas foi com o seu filho que mais aprendeu. Graças às viagens e aos acontecimentos da sua vida tornou-se contadora de estórias, através da escrita, da fotografia e do vídeo. Co-edita a Bypass Editions (http://bypass.pt), aprende norueguês e sobe montanhas, para que não lhe falte o ar.

Pub