concerto para violino e orquestra nº 1 em ré maior (paganini )

por PN | 2014.01.16 - 13:18

 

 

podia falar-te horas a fio, corridas

(sobre afonia, sobre silêncio

sobre falta de sons)

o som é tão importante quanto o silêncio é tão importante quanto o espaço e joga com o tempo

(ficar sem palavras para te dizer

é um sobressalto convicto)

a sonoridade e a harmonia. síntonas compostas com um jeito de dizer meigo um gesto manso de fazer

(ficar contigo em silêncio

muito atento a ti e ao teu respirar)

o sussurro com que quebro o silêncio é um começo cadente de uma longa melopeia. uma recitação antiga. talvez uma prece ou encantamento. um exorcismo que ao de leve quebra a treva o medo e o som do medo

(murmurar com o vento apelo

sentir as palavras uma por uma na pele dos lábios)

como um vinho poderoso e grosso onde na espessura escura se decantam furtivos os sons. confundo as palavras se muito te vejo na ansiedade com que te olho e na ânsia de te gravar. para o meu sempre.

(sarilheiro salpica o vento num roçagar asedado.

e mente com o hálito quente)

o teu hálito. o meu hábito. de te ouvir junto aos lábios para que as palavras não se percam na réstea de espaço que nos aparta

(hoje não falo, dizias tu

e eu retorquia, respira só para te ouvir)

amuavas em trejeitos cujos nós eu desfazia com uma loa pequenina do meu berço ora perdido

(e rias de brusca alegria

ao mimar a toada com ecos  assim do rir)

falo e sou para ti um contrabaixo soturno soltando num canto tons de muita gravidade. no centro claro uma guitarra, tu, respondes-me jovial para e depois, como tão bem sabes, chorares de seguida muita lágrima estuada em regato das doze cordas tangidas

(tenho que pôr aqui uma concertina-trapézio-e-carrossel de uma tristeza pobre

tem que haver)

e se um dia o som se tolher na garganta sem mesmo almejar a boca? como  uma espinha que fere? falar-te-ei com os olhos. e tu descerás as pálpebras para não me ouvires

(o riacho tem um som de inverno que gostava de ouvir contigo

cheio. intenso. ancho . porque não ouvimos o riacho?)

como hás-de ouvir as palavras que não digo? como te hei-de fazer de guia nos silêncios?

(na madrugada amplio-te. dormida  estás.

no teu natural modo estremeces por vezes num receio de sonho mais intenso

e aquietas-te depois ao meu olhar. ao meu olhar sem fadiga de ver-te

e vejo-te muito para te lembrar depois)

a falta de sons e o excesso de imagem. estás bem, assim. é uma discussão do meu olhar com o teu corpo. principalmente  com o teu rosto. até de olhos meigos cerrados atrevido. no queixo e no  nariz e nos lábios a harmonia. no cabelo tão corvo a ousadia

(e o silêncio dá-me tempo para te ver

o tempo rendido. anuente  e um hiato cúmplice)

a madrugada tem os sons mais limpos. mesmo se a voz é insegura. seguro de te ver ir

(e voltarei a um silêncio constrangido. da antecipação e do depois

perdem-se sussurro e murmúrio)

as imagens e o riso acalentar-me-ão este inverno.

na primavera estarei mais triste com a natureza que renova aviva exclama

(os sons que não chegam aos lábios

e se tornam suspiros que a penumbra escoa)

é um som maligno o do suspiro. benigno seria re-ouvir-te até ceder à surdez que o cansaço arrasta

poderia falar-te de afonia. mas como falar-te de quando não temos palavras para dizer? ou temos tanta palavra para dizer que não alcançamos a selecção das palavras que transportam o sentir naquele exacto momento e espaço?

(decorre um tempo longo para a espera

e quando em tropel as profiro só para mim eu falo

já não estás. e na tua ausência este diálogo de acronia é a voz do sofrimento

o discurso da afonia. para a tua memória)

é inverno. não tenho o teu calor. uma tristeza me toma e agonia. cerro-me todo. sem ti.