Coerência, Coesão e Constância — Os 3 Exílios de Aquilino*

por PN | 2015.11.16 - 12:26

 

 

 

Podia falar-vos horas a fio sobre Aquilino e sua vida e dias a eito sobre a sua obra. Deram-me 30’. Talvez por vir de longe…

Em consequência, centrar-me-ei somente em 3 sincronias da sua vida, que vai de 1885 a 1963, não perfazendo os 78 anos.

A académica brasileira Nelly Novaes Coelho cita a seu propósito Ortega Y Gasset, na frase “Yo soy yo y mi circunstancia.” Aquilino foi um fruto do seu temperamento, da sua indómita noção de liberdade e do contexto epocal em que viveu.

Tentarei juntar as pontas pendentes dos seus 3 exílios.

O 1º exílio decorre de 1908 a 1914.

Neste contexto histórico-temporal, o que era o exílio? Não a “expulsão” que está na sua etimologia, mas antes uma saída intempestiva, forçada, coagida, de seu país para o estrangeiro, por motivos de carácter político.

Este 1º exílio decorre após o rebentamento de explosivos manipulados por Aquilino, Gonçalves Lopes e Belmonte de Lemos no quarto de sua hospedaria, sito à Rua do Carrião, em Lisboa. Os seus companheiros morrem no local, Aquilino é preso e conduzido à esquadra do Caminho Novo, onde fica detido incomunicável. Estamos a 17 de Novº de 1907. Aquilino acaba de fazer 22 anos e já integrava a Carbonária, braça armado da Maçonaria Lusitana. Da prisão se evade sozinho e com muita singular astúcia a 12 de Janº de 1908, refugiando-se numa mansarda de um prédio de amigos, sito a pouco mais de 150 metros do ministério de João Franco e muito próximo do local onde ocorrerá o regicídio, na Praça do Comércio, a 1 de Fevº de 1908, levado a cabo por Alfredo Costa e Manuel Buíça, compadre de Aquilino, que aniquilarão – pagando com a própria vida – o rei D. Carlos e seu filho, o príncipe Luís Filipe. Gera-se um período conturbadíssimo na vida política portuguesa. João Franco é afastado. D. Manuel reina por escasso período de tempo, antes de se exilar em Londres. Aquilino tem a cabeça a prémio e é considerado um perigoso subversivo. Disfarçado, toma o “ronceiro” para o Entroncamento e daí apanha o Sud para Paris, a 31 de Maio. Após uma aventureira viagem chega ao destino a 3 de Julho e é acolhido pela fraternidade internacional maçónica a quem vai recomendado. Vive em Montparnasse não distante da rua onde Lenine prepara a revolução russa de 1917. Fascinado pelo mundo que encontra, o pouco mais que adolescente há pouco saído das berças beiroas leva 200 mil réis no bolso pedidos por seu pai, o Padre Joaquim Francisco Rebelo, ao prestamista de Tabosa, o Sebastião, a juro de 7%. Deambula pela cidade da Luz, convive com artistas e boémios. Matricula-se na Sorbonne, em Sociologia. Em 1910, após a implantação da República, vai de fugida a Portugal, saudar a recém-nascida. Frequenta a Biblioteca de Sainte-Geneviève onde estuda, lê quanto pode e começa a escrever sua 1ª obra, “Jardim das Tormentas” que verá prelo em 1913. Entretanto, em 1911 conhece uma jovem colega, berlinense, filha de um banqueiro proeminente: Grete Maria Luísa Tiedmann. Em 1912 reside uns meses na Alemanha. Casa em 1913. Nasce seu 1º filho, a 26 de Fevº de 1914, Aníbal Aquilino Fritz Tiedmann Ribeiro.

A deflagração da Iª Grande Guerra trá-lo para Portugal onde chega a 26 de Setº. Inicia a escrita de “A Via Sinuosa” que publicará em 1918. Exerce a docência no Liceu Camões, em Lx.

Na capital vão conturbados os tempos e as políticas. Breve ditadura de Pimenta de Castro. Manuel de Arriaga renuncia à presidência da Republica e Bernardino Machado – que vai ser sogro de Aquilino pelo seu 2º casamento – é eleito para o cargo. Em 1916 a Alemanha declara guerra a Portugal. A mulher, Grete é alemã. Aníbal Aquilino, o filho é francês, de origem lusa-alemã.

Em 1917 dá-se o golpe militar de Sidónio Pais. Bernº Machado é destituído e exilado. No ano seguinte ocorre o atentado que vitima este militar. Canto e Castro é nomeado pres. da República.

Até 1926, a vida de Aquilino flui com muito envolvimento político mas sem grandes consequências. Em 1919 publica “Terras do Demo” e entra para a BN, a convite de Raul Proença.

Em 1920 sai “Filhas da Babilónia” e no ano seguinte concretiza o seu sonho de Paris e, com António Sérgio, Jaime Cortesão e o seu prefaciador, Câmara Reis, aparece a revista “Seara Nova”. Este ano é também o ano da “noite sangrenta”, dá-se a revolta militar de Lisboa e o assassínio de António Granjo, Machado Santos e Carlos da Maia. Publicam-se os contos “Valeroso Milagre” e “Traição”.

1922 é literariamente profícuo. Sai “Estrada de Santiago” que traz já nesta 1ª ed. o esquisso de “O Malhadinhas”, sai “Recreação Periódica”, “O Cavaleiro de Oliveira” e “Anatole France”.

Em 1924 publica o “Romance da Raposa” dedicado a seu filho Aníbal. Em 1925 colabora na elaboração do “Guia de Portugal”. Teixeira Gomes renuncia à presidência e é pela 2ª vez eleito Bernardino Ribeiro.

Em 1926 publica uma das suas mais curiosas obras, “Andam Faunos pelos Bosques” que lhe traz o rótulo de anticlerical. Dá-se o golpe militar chefiado por Gomes da Costa, a 28 de Maio, que institui a ditadura e abre a via da fascização do país. É o ano da criação da Censura que vigorará durante 48 anos.

1927 é um ano terrível para Aquilino. A 3 de Fevereiro no Porto e a 7 em Lisboa dá-se o golpe militar contra a ditadura. Aquilino toma parte nele. Desencadeia-se uma repressão ferocíssima. Centenas de militares, de políticos, de intelectuais exilam-se em Espanha e França. Aquilino é novamente perseguido pelas forças policiais. Foge para Soutosa. Daqui para Paris. É o seu 2º exílio que decorrerá de 1927 a 28. Sua mulher e seu filho ficam em Soutosa. Grete adoece gravemente com tuberculose. Aquilino regressa clandestinamente a tempo de a ver antes de se finar.

O ano de 1928 traz a criação provisória da UN. Portugal está ao rubro. Dá-se a Revolta do Batalhão de Caçadores 7. Há movimentos insurreccionais em vários pontos do país. Governa Vicente de Freitas, António de Oliveira Salazar é nomeado ministro das Finanças e Carmona é proclamado presidente da República. Aquilino tenta o levantamento do Regimento de Pinhel que parte de comboio para Lisboa a juntar-se aos sublevados. De tal avisadas, as forças militares do Centro sabotam a linha férrea para provocar o descarrilamento das carruagens, em Contenças, Mangualde. Aquilino e o seu amigo e conterrâneo do Freixinho, o médico António Gomes Mota são detidos no acto de obrigar o chefe da estação, sob ameaça de uma browning 6.35, a recolocar os rails. Interrogados pelo tenente Cavaleiro, do RIV são conduzidos ao presídio do Fontelo, antigo paço episcopal e hoje sede da vitivinícola do Dão, de onde se evadem rocambolescamente a 15 de Agº, dia da Nª Sª da Lapa, que Aquilino, um agnóstico, considerava sua “madrinha”.

Parte para o 3º exílio que vai de 1928 a 1931. Em Paris, Aquilino assume destacada posição no núcleo duro dos exilados portugueses. Torna-se membro da Liga da Defesa da República, percorre os campos de batalha da Flandres e, em Junho de 1928, na Mairie de Mont Rouge, desposa a filha do PR exilado Bernardino Machado, Jerónima Dantas Machado que será sua atentíssima companheira até ao fim de seus dias e que lhe dá, em 1930, o seu 2º filho, Aquilino R. Machado, saudoso amigo, que viria a ser o 1º presidente da autarquia lisboeta após o 25 de Abril.

Aquilino publica “O Homem que Matou o Diabo” e, para viver, colabora em jornais e revistas. É o ano da criação da PVDE que se tornaria na PIDE. Surge também e com cariz definitivo a UN.

Em 1931, Aquilino vai-se aproximando de Portugal, vive em Vigo onde priva com Miguel de Unamuno e em Tui. Publica “Batalha sem Fim”, ao mesmo tempo que são presos centenas de oposicionistas, se dão revoltas na Madeira e nos Açores e são deportados para as colónias 800 opositores ao regime.

1932 traz-nos Oliveira Salazar como chefe do governo, lugar que não deixará nos próximos 40 anos. Aquilino está acoitado e clandestino em Abravezes, na periferia de Viseu, numa casa emprestada por amigos. Publica “As Três Mulheres de Sansão”.

Na Europa alastra o fascismo, com a ascensão de Hitler na Alemanha, Mussolini na Itália e de Franco em Espanha. Estamos em 1933 e Aquilino, amnistiado, recebe o Prémio Literário Malheiro Dias e publica “Maria Benigna”. Reside em Lisboa com a esposa e filhos. Em 1934 publica o diário “É a Guerra” e os cadernos dum viajante, “Alemanha Ensanguentada”.

Aquilino ganha notoriedade e granjeia o respeito literário internacional. Mantém a sua lisura vivencial, a sua total autonomia de correntes estético-literárias, a sua existência frugal e, fundamentalmente, a sua postura invergável de opositor ao regime vigente, oposto aos princípios da liberdade que lhe era tão querida. Por isso, nas presidenciais de 1948/49 apoia a campanha do general Norton de Matos. Em 1958 apoia a do general Humberto Delgado e, já muito próximo de seu fim, em 1959, após a publicação e apreensão de “Quando os Lobos Uivam”, onde a Justiça vê o seu retrato pintado, é detido, saindo em liberdade mediante o pagamento de uma caução vultuosa de 60 contos, quantia que não tem e lhe é paga pela solidariedade de seus amigos e admiradores. No ano seguinte é candidato a Prémio Nobel da Literatura e é amnistiado em Novº, face à vileza do processo e à onda de indignação internacional levantada.

Neste inteirim publica 7 dezenas de títulos nos mais diversos registos, desde o conto, à novela, ao romance, à literatura infantil, tradução, teatro, história, hagiografia, etc., etc., etc… Colabora em dezenas de jornais e de revistas nacionais e estrangeiras, cria e dirige a revista “Camiliana”…

A sua obra, entrelaçada com o rigor de sua vida, torna-se um exemplo de coesão, coerência artística e de constância desde as suas primícias, com uma cidadania libertária e fraterna, interventiva e lutadora, até às 12h30 do dia 27 de Maio de 1963, quando falece no Hospital da CUF, em Lisboa. Quase meio século depois, a 19 de Setº de 2007, os seus restos mortais são trasladados para o Panteão Nacional. É-lhe enfim consignada a devida homenagem.

É extraordinário o percurso de vida daquele humilde menino nascido às 13h00 do dia de S. Aquilino, a 13 de Setembro de 1885 na aldeia do Carregal, em Sernancelhe e tornado numa das maiores figuras literárias portuguesas do século XX, com uma obra que não deixa de suscitar, ano após ano, um reganho inusitado de interesse, ao contrário de tantos escritores completamente anacronizados.

  • comunicação proferida nas Caldas da Rainha, a 14 de Novembro de 2015