Cheiras a maçãs maduras de Esmolfe…

por PN | 2014.05.18 - 21:42

Há na noite um silêncio acolhedor.

Uma sonata como a da tarde. De harpejos ora presos, ora soltos numa subida ágil, audaciosa até um cume onde paira na coda quase fúnebre para começar, enfim, a descer… ao fundo da terra com um allegretto – uma flor entre dois abismos – diria Liszt que amou Beethoven. Luz depois das trevas. Transcrição. Tónica. Renascer para a vida. De sustenido a bemóis quase virginais. Um decoro, um remate vigoroso com algo de grave enleado num agudo ecoante. Um ré bemol solto. Uma corrida para o abismo e um dó sustenido bemol a correr louco alucinado. Um sol sustenido em ronda infernal. Até à plangência num élan cantabile que se espraia no teu corpo em allegro sonata, presto e longo. Um sol sustenido maior remexendo desvairado e conclusivo. Quase uma resignação.

Onde tocar-te com genuína sonoridade? E sem te ofender… ?

Numa centripetação em cintilações fugazes. Ora soltos, ora cadenciados, sincopados, vivazes e amplos.

O som no teu corpo é impaciente. Resigno-me e revolto-me.

Gostaria de ouvir sonatas a teu lado. E ler-te Echevarría misturando o som de um piano com a cadência geométrica da frase e o cheiro do teu corpo.

Cheiras a maçãs maduras de Esmolfe. Sabias?