Chega de insultos!

por Gaëlle Istanbul | 2013.12.17 - 11:26

Chega de insultos! Não tolero mais. Nem eu, nem muitos de nós.

Façam o favor de não usarem a desculpa de que é cultural. Que herdamos esta nossa forma de ser da época feudal, habituados às vassalagens e à corveia e aos pagamentos da talha, das banalidades e da mão-morta, e mais, do dízimo. Que tivemos de nos submeter, de aguentar, de nos render, de aceitar.
Paremos de alimentar este ciclo vicioso de dependências. Ponhamos um fim ao vosso emprisonamento.

Tantos indivíduos engaiolados, um pelo peso do nome, outros pelo seu anonimato!

E a recorrente pergunta ‘É filh@ de quem?’ Como se o ser filh@ de alguém nos livrasse de sermos uns grandes estupores, ou o sermos filhos de ninguém determinasse o nosso futuro castrado.
Ah… é filho de fulano senhor tal! Ah, vejo que vem de muito boas famílias. E o outro, que não tem nome sonante, atirado para a condição do ‘aguenta-te’. Espera e não refiles.
Esta mania dos lobbies e das camaradagens. Caciquismos mascarados de fraternalismo.

Chega de insultos! Não tolero mais. Nem eu, nem muitos de nós.

Lembro-me do dia em que foram apresentar um projecto, os dois, muito timidamente, na esperança de serem bem acolhidos ou pelo menos ouvidos. Entraram, os dois de nome próprio na mão, um projecto minucioso, de grande dedicação e longas horas de trabalho suado. Eis que ressoou a pergunta, como um estrondo, um soco metido bem no meio da fronha, lá nos confins do cérebro. São filh@s de quem? Logo pensaram: outro engaiolado!

Chega de insultos! Não tolero mais, nem eu, nem muitos outros.
O reflexo do vosso espelho fere-nos cá dentro.
Chega de insultos! Não tolero mais. Nem eu, nem muitos de nós.
Há que premiar o mérito individual, sair desta espiral suicida de tratamento. Suicida porque aniquila a criatividade, esfola o livre pensamento. Há que dedicar tempo ao indivíduo. Há que querer saber o que pensa, o que sente, o que o faz bombear todas as artérias do seu corpo.
Há que libertar a mente de toda esta plasticidade cultural ferrugenta e demagógica. Despir o corpo de hipocrisias, mal vividas.

Chega de insultos!

Caso contrário a nossa árvore geneológica permanecerá irremediavelmente seca, se for negada a cada um dos seus indivíduos o acto de respirar, de actuar.

Gaëlle Istanbul
Bergen, 2013

Gaëlle Istanbul (1972, Mulhouse, França) passou a sua infância em França e Portugal. Estudou comunicação social e cultural em Lisboa, mas foi com o seu filho que mais aprendeu. Graças às viagens e aos acontecimentos da sua vida tornou-se contadora de estórias, através da escrita, da fotografia e do vídeo. Co-edita a Bypass Editions (http://bypass.pt), aprende norueguês e sobe montanhas, para que não lhe falte o ar.

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