Castigo

por Vitor Santos | 2016.11.28 - 18:07

 

 

 

O Vítor era o miúdo mais traquina da Zona da Sé, não havia dia nenhum que não se metesse em sarilhos! A tia Lili, uma senhora já com uma certa idade, era quem tomava conta dele enquanto os pais estavam a trabalhar.

Para variar, o Vítor tinha pregado uma partida feia à tia Lili e ela pô-lo de castigo… sentado numa cadeira, no meio da cozinha, lá estava o Vítor sem autorização para se mexer ou falar! Mas ninguém o podia impedir de pensar, usar a sua imaginação e inventar uma história para contar, logo mais à noitinha ao pai ou à mãe, quando estes lhe perguntassem o que tinha feito durante o dia?!

 

Hoje está um lindo dia para dar um passeio no campo, vou ver se encontro algum amigo lá fora para brincar. Então, à medida que se embrenhava no campo não via nenhum amigo para brincar mas olhava admirado para as árvores, como eram grandes e sombrias pensava…

Foi então que algo lhe chamou deveras a atenção, ficava longe, no topo do monte, parecia uma bola vermelha suspensa no ar e brilhava como uma pedra preciosa.

Mas que coisa seria aquela, pensava o Vítor, enquanto se aproximava um pouco mais… uma maçã! Sim parecia uma bela maçã redonda e grande como ele nunca vira antes.

Estava decidido, ele queria aquela maçã. Não importava como ia consegui-la, estava disposto a tudo para alcançar os seus intentos. Se fosse mesmo necessário o Vítor estava decidido a escalar o monte. Sim, era isso mesmo, ia escalar o monte. Quando ia já a meio do caminho, um pedaço de pedra onde se sustentava quebrou e ele caiu. Magoou-se um pouco, mas não queria desistir e então pensou para si:

– “Não prestei atenção onde pus os pés… Desta vez vou subir com mais cuidado!”

Decidido, resolveu subir outra vez. E nesse momento, quando nada o faria prever, começou a cair uma chuva muito forte seguida de trovões. Mas o Vítor não tinha medo da trovoada e muito menos da chuva. Estava quase a conseguir quando, de repente, se ouviu um enorme relâmpago e um raio muito brilhante caiu sobre o monte, mesmo junto a ele. O Vítor apanhou o maior susto da sua vida e, de novo, caiu da pequena montanha.

Estava quase a desistir, mas eis que a chuva pára de cair e o Vítor imagina o quão deliciosa e suculenta deve ser aquela bela maçã vermelha e mais uma vez se decide a escalar o monte. Quando ele já tinha subido um bom pedaço, um monte de pedras começou a rolar montanha abaixo. Ele deu um pulo para sair da frente da avalanche de pedras e não se magoar novamente.

Depois de analisar a situação com cuidado decidiu que o melhor, seria subir com uma corda e assim fez. Mas o Vítor não estava com sorte e no meio da subida, a corda partiu-se e ele caiu uma vez mais…

O Vítor começou a achar que aquilo já eram obstáculos a mais e se calhar não conseguia subir ao cimo do monte porque a maçã devia ser mágica e não queria ser colhida.

Pensou e repensou e decidiu que só lhe restava mais uma hipótese: construir uma escada para subir ao monte. E se bem pensou, melhor o fez…

Depois de terminar a escada, ele subiu e sorrindo comentou:

– “Com a escada parece tudo mais fácil, acho que desta vez consigo!” E finalmente chegou ao cume do monte. Muito contente, olhou a maçã e exclamou:

– “Valeu a pena o trabalho que tive. Depois de tantas dificuldades, pareces ainda mais bonita!” E colheu a fruta.

Vitorioso, ele desceu e foi para casa. Enquanto isso pensava no que a tia Lili lhe dissera:

– “Vitinho os obstáculos existirão sempre na vida das pessoas. Lutar e tentar vencê-los é o verdadeiro desafio”.

Talvez se ele lhe oferecer a maçã que custou tanto a colher ela o deixe ir para a rua jogar à bola. E sorriu.

 

 

 

 

Vitor Santos nasceu em Viseu no ano de 1967. Concluiu o Curso de Comunicação Social no IPV. Conta com várias colaborações na Imprensa Regional. Foi diretor do Jornal O Derby.

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