CARREGAL, EM TEMPO DE MEMÓRIA

por Alberto Correia | 2015.05.28 - 13:44

 

(Texto para ser lido junto à casa em que nasceu Aquilino Ribeiro)

Hoje é dia de desfolhar rosas, mesmo as místicas rosas que dizemos em palavras, não sobre a fria pedra de uma arca tumular, antes sobre a soleira gasta de uma casa que foi berço do Homem que nos trouxe até aqui.

Hoje é dia de desfolhar rosas sobre este chão que pisamos porque Aquilino Ribeiro que aqui teve nome e nasceu, não morre mais. Não morre mais, se nós quisermos, não porque o tenhamos alcandorado ao Panteão, antes porque temos de lhe manter viva a memória, porque temos de o manter vivo em nosso coração, na nossa voz, num certo jeito de estar, porque devemos seguir bandeiras que ele desfraldou, as cores delas e os lemas lá escritos, esse jeito de ser livre que aqui aprendeu quando menino e nele se revelou um dom maior, a rijeza de carácter que aprendeu com os serranos seus irmãos, a fidelidade a um ideal que escolheu como caminho, a honra que era a marca maior dos seus avós e, por fim, essa incapacidade de jamais trair um seu igual.

É bom estar aqui nesta romagem, neste chão, ao pé da casa, ao pé do berço.

E far-nos-á bem, porventura, evocar os suaves e poéticos relatos do escritor sobre o ar desta morada que nem sempre, em sua escrita, é efabulada.

Talvez vindo aqui, e ao olhá-la, se torne mais límpido, mais fiel o entendimento do homem que a vida, a obra, a memória, depois tornou universal.

Por ora basta ver esse jeito chão de falar da sua terra, da casa onde nasceu.

E recordo, em três palavras, os três momentos em que deste lugar Aquilino nos falou.

!958. Entrevista dada a Igrejas Caeiro. Quando este lhe pergunta onde nasceu, Aquilino dá esta impossível e belíssima resposta:

Eu nasci debaixo dos castanheiros… e deste modo celebrava a sua terra, o Carregal, moldurada então de soutos, dessas árvores do pão e de beleza que ele celebra, em jeito de ode, como metáfora de toda a natureza.

Em O Livro de Marianinha, que ao jeito de herança deixa à primeira neta, descreve com intensidade poética a atmosfera envolvente da casa onde nasceu:

A casa em que nasci, Marianinha,

Está voltada a su-sueste

E tem à frente um cipreste…

Tê-mo-la em frente. As paredes onde bate o mesmo sol. O cipreste que ainda abriga pássaros e tremula ao vento. Herança para guardar.

Cinco Réis de Gente. Ali a temos, a casa, no pequeno romance que é um mavioso olhar sobre a infância, esse tempo marcante que já lhe alicerçara o carácter, já lhe tecera o destino que ele adivinhava ao longe quando o seu olhar pela primeira vez, consciente e racional, se alargara sobre o simbólico portal dos Sanhudos, escancarado ao fundo do pátio, já então de portas quebradas, nessa visão premonitória.

Com esta visão ficamos, este eterno olhar de menino que, homem, hoje celebramos.

* * *

Como morávamos perto da igreja e a torre era alta, as quatro badaladas repercutiam pela casa tão estrondosas e zumbentes que nem que o sino estivesse escarrapachado por cima de nós. Dam…dam, e as vespas de bronze, a chamar para a aula, com a sua tremolação espasmódica, sacudindo a atmosfera, abafavam os ruídos todos. Minha mãe puxava-me para a bacia de esmalte, por vezes qualquer alguidar, ao tempo que dizia:

 – Debruça-te!

Com a cova da mão cheia e despachada, como se manobrasse um balde, chapava-me água fria pelo rosto. Eu, mugindo, fugia com a cabeça, boca e olhos fechados. Mas ela, implacavelmente, repetia o lavacro tantas vezes quantas eram precisas para me varrer da pele a sombra de uma sombra. Depois, à ponta de rodilha e com vigor esfregava-me os ouvidos, desensurrava-me o pescoço, usando de alguma brandura a limpar-me a capela dos olhos. Finalmente, com o cabelo colado na testa, alvo como um lírio, empurrava-me:

– Está a pedir barrela. Vá, vá muito direitinho, e faça lá visitas à senhora professora.

 A tiracolo a bolsa em que afundira o Monteverde e a tabuada, eu despedia pátio fora, pós-catrapós.

Aquilino Ribeiro in Cinco Réis de Gente