Carlos Queiroz – Breve Tratado de Não-Versificação: a forma do fazer

por PN | 2014.04.29 - 18:46

 

 

Palavras-chave: sinal, forma do fazer, jogo mental, essência, limpidez, crítica, reflexão, texto final

 

Resumo: Carlos Queiroz – Breve Tratado de Não-Versificação

Pelo texto conciso, se vai ao encontro breve, da explicação da forma do fazer, que se quer despojada e de poesia pura munida.

 

Carlos Queiroz

Breve Tratado de Não-Versificação: a forma do fazer

 

Parecia Carlos Queiroz premunir-se contra o fim próximo (1949), quando publica um ano antes da sua morte, a obra “Breve Tratado de Não-Versificação”.

Veloz, a vida do poeta, não pontua com tédio a míngua do tempo. E na prolixa produção, esconjura o pressentir da brevidade.

(…)

Vamos sem demora

Vamos sem viver.

Tudo é breve agora.

E pressa, depressa

— Pressa de morrer.(1)

 

 

E se na “Epístola aos Vindouros”, alerta imperioso de quem parte aos que ficam, se lê em paralelo com François Villon

 

                                   Frères humains qui après nous vivez

                                   N’ayez les coeurs contre nous endurcis

                                                           (…) (2)

 

um epitáfio, esteiado na reflexão sobre os tempos da novidade e do tumulto, da fria dialéctica e da certeza do nada, da suprema desordem e do mal pelo mal… aqui se remata, contrito e penitente, três vezes ao céu erguendo a súplica

 

(…)

Ó felizes vindouros

(…)

Orai por nós, orai por nós, orai por nós!

 

Esta presciência do que está no fim e aos que vêm intenta deixar sinal, não alerta e justifica só pela evocação da

 

Era trágica dos “ismos”

Irreconciliáveis

 

pela época atroz que Cronos lhe deu de vida.

Este pressentimento, dita-lhe urgente o texto quase final, epílogo que se quer ouvir antes da voz se emudecer na boca que ao barqueiro só o óbolo levará, em texto tecido a tratado, que se quer “obra de carácter científico que explore um assunto, uma matéria com vista à sua divulgação” (3), e se diz, adjectiva e qualifica de breve, por anteposição, assim se subjectivando, tanto sendo por durar ou ocupar pouco tempo, como por passar rapidamente, para além da pouca extensão ou tamanho que prefigurará, expresso em poucas palavras, até lacónico ou resumido,

 

Tudo é breve agora

 

e nos deixar, expressa e concisa a sua arte ou técnica de fazer versos, de escrever o canto, tantas vezes do silêncio, como também no-lo diz Guillevic, o poeta do instante e  do despojamento,

 

Le Chant

Peut-être silence.

 

Le silence peut exister

Pour qui chante,

 

Pour lui

Et pour tous,

 

Car il porte le chant

À travers les horizons. (4)

 

 

Há poetas que se debruçam sobre a forma do fazer, para lá do fazer que é a poesia.

Poetas que reflectem sobre o texto e discurso sobre o texto, sobre a prática da escrita.

E pela Poética entram na obra e tentam reconhecer aquilo que a faz e que é a sua linguagem, numa leitura-escrita da obra que, e neste caso, de Carlos Queiroz, quando nos está próxima pelo tempo e pela civilização, pode ao mesmo tempo ser objecto contemplado e sujeito revivido da crítica, sem contradição.

Neste pensamento sobre, imanente à própria e nela inscrito, o poeta tenta encontrar e dar resposta à sua escrita.

Inadequado seria decerto aqui referir o que em causa própria reiteraram Miguel Torga, Teixeira de Pascoaes, Alexandre O’Neill, David Mourão-Ferreira, Eugénio de Andrade, António Ramos Rosa, José Régio, Manuel Alegre, Vitorino Nemésio, Natália Correia e tantos outros.

De relevante se suscita a intenção comum de, para lá do fazer que é a Poesia, inscrever a explicação da forma do fazer, que é a Poética.

 

Já atrás nos referimos ao título da obra Breve Tratado de Não-Versificação.

Se constatou ser conciso tratado. Agora se precisa a negativa que recusa a versificação. Este “não” pontua energicamente esta intenção de Carlos Queiroz.

O próprio assim o clarifica:

 

Daí, a natural distinção entre poetas e versificadores: aqueles, são os mestres de si próprios; estes, os involuntários e estéreis discípulos daqueles” (5)

 

O corpo do texto que se abre com três chamadas, a Holderlin, Eminescu e Pascoaes, só de poetas e de versos nos fala, e até da dificuldade da poesia em adequar o verbo à mensagem. E tal informe de frontispício é já de alerta.

Seguem-se-lhe 70 textos de extensão variável, mas todos de alento breve, que vão do mais longo de doze, ao mais curto, de quatro versos.

Destaca-se a ausência de título dos textos, que rompe radical com regra comum ao poeta. Aqui, numera-os.

Os números são mais frios. Mais impessoais. São mais exactos. Os números são mais racionais. E assim se perfilam os 70 textos, quase anelantes e em cadeia que a todos prende como se um dar de mãos evocasse, de número em número, a modo de alpoldras de riacho, ligando as margens sem pontes e permitindo o passar do caminhante, o poisar do leitor e o adejar do sistema que implícito se exprime, na sua essencialidade se confirmando, como condição do poeta e a finalidade da escrita, como poesia que corre ao encontro do sujeito, e como este a sente, e sentindo-a a corporiza.

 

No primeiro texto a poesia é água purificada que brota da fonte e no chão se escoa. Vital seiva que do núcleo da terra trás ao homem o alimento incessante, que ao chão vai voltar no cíclico derrame da existência. Da terra e para a terra, como o Homem.

E daí para diante se compulsa a longa história da palavra, se prediz o mistério profundo da missão do poeta de auscultar a vida doente, se percebe que o voo lírico empece a língua de amadurecer, se afirma que o poeta é o pescador de essências que vira costas às pérolas, que voam no ar os temas, que pulsam as ideias originais que tantas estão por dizer, se exalta a força do canto, se diz ser a poesia tonta e a filosofia fria, que a inspiração no escuro espera e a poesia é ave esquisita, e o Português só não é pequeno nas Torres de Belém, além de ser tempo do coito com a Musa, e da harmonia que a mão que risca colhe, sendo vertigem a poesia e a visão para lá do objecto, à procura do leitor, e das almas ilhas assombradas, pairando no equívoco da vida, o poeta cujos versos luzem como pirilampos, longe do lugar comum, o verso gineceu da flor rasgada, a criação da obra-prima, no futuro que a mão colhe, feito de som de cor e de aroma, Sistema que a ave rouba, harpa de mil cordas e quatro dedos para tanger, na solidão do criador, onde perdura a verosímil lembrança, a teia tecida pelo poeta-engenheiro e a ponte em pilar de vidro assente, a rima que já não era poesia, o soluço lírico, o anjo das trevas que passa veloz, a efémera existência, a suprema síntese, o ser imaturo que saiu ritmado, glória e cruz do poeta, a poesia fabricada com versos certos e a rima no seu lugar colocada, o canto, o vício, a existência, os monstros da solidão, a hora da criação, a saudade dos deuses, a verdura do cântico liberto, a inalterabilidade da forma, o poeta peculiar e único no seu estilo, a voz que se cala face à vulgaridade, o cheiro do mistério, o conselho a quem canta, o orgulho de ser canto, a maré brava do texto, o canto puro, os versos que o poeta leu, e o momento em que o poeta fala para as almas, a insatisfeita perfeição, a poesia fria e pensada, o poeta e a mentira, a flora da fantasia, o poeta morto e esquecido, a epopeia maravilhosa, a graça e a ironia, e para se epilogar, nos deixa com os versos cintilando…

 

…e nesta fulgência se conclui o septegésimo texto, assim se encerrando as páginas deste breve “tratado poético, de uma estética da poesia” onde se pretendem “aprofundar os mistérios da inspiração tenteando as condições óptimas da expressão verbal” feita por este “pensador que pensa com as palavras”, o “poeta homem mental, ponderado”, que na vocação da síntese busca o equilíbrio e a perfeição, de modo condensado e preciso, para “crivar a comoção na expressão cristalina”, com “objectividade, limpidez a ver o mundo, preciso e clarividente”.

Assim no-lo diz, também, Vitorino Nemésio, com indisfarçável emotividade.

 

Para Carlos Queiroz, a poesia é encarada não como um fazer lúdico, um entretenimento entediado, um jogo tecido a palavras, mas sim como um “jogo mental”, vital, em busca de uma exigência do foro intelectual:

                                   A emoção escorregava

                                   Ao longo da fantasia;

                                   A imagem que esperava

                                   No seu cantinho, sorria;

                                   Uma rima cavalgava

                                   O dorso de uma vogal…

                                   — Era um jogo mental,

                                   Já não era poesia. (6)

 

A que se acresce outro exemplo, pela “prisão” da poesia à filosofia, revelador do fulcral papel do pensamento na poética de Carlos Queiroz:

 

                                   Coisa tonta é a poesia

                                   E fria a filosofia,

                                   Se uma à outra não estão presas

                                   Como as irmãs-siamesas. (7)

 

Mas o pensamento, só por si, é insuficiente. E o sentimento a ele aliado dá-lhe a ascendência, a autenticidade da criação, a manifestação do EU e a fria ausência de emoção, assumida na conexão entre expressão, intelecto e emotividade autenticamente sentida, na busca do texto vivo, e do texto revelado:

                                   Esta poesia não tem asas,

                                   Nem frémito, ou latejo que revele

                                   Circulação sanguínea.

                                   Põe-se-lhe um dedo em cima

                                   E está fria, está fria…

                                   — Foi somente pensada.(8)

 

Recusa o poeta a facilidade e a inutilidade de ver com os olhos, e preconiza a busca da essência que está dentro do não-observável. Aí encontrando, ardente, o núcleo, como em Guillevic:

 

Le noyau de braise (9)

 

Porém, se para se alcançar este núcleo do ardor, que só está no meta-observável, se carece de ir à essência, depara-se o poeta com a dificuldade em penetrar as coisas:

 

                                   Ver só com os olhos

                                   É fácil e vão:

                                   Por dentro das coisas

                                   É que as coisas são. (10)

 

ou, dito de outro modo:

 

                                   O pescador de essências

                                   Não quer saber de pérolas:

                                   Prefere aquele mistério

                                   Que está por baixo delas. (11)

 

Mas compete ainda mais ao poeta. Dotado da capacidade de captar o significado mais profundo da vida, cumpre-lhe revelá-lo de forma “clara e quente”, curando-a de males que a corrompem:

                                   Quando a vida está doente,

                                   A missão do poeta é auscultá-la

                                   E – com fala clara e quente –

                                   Dar a quem sofre o que sente

                                   A ilusão de curá-la. (12)

 

… deitando mãos à limpidez, à afectividade e à clareza para a exequibilidade da proposta, que se exige eivada da matura conjugação entre o sentir e o pensar:

 

 

                                   Desproporcionado…

                                   O pior não é isso. O pior

                                   É ser imaturo,

                                   É ser imaturo o que saiu ritmado.

                                   E tudo (a ideia, o movimento, a cor)

                                   Ficar num claro-escuro

                                    Desfocado.

                                   Mas, sobretudo – que horror,

                                   Um imaturo sentimento à flor

                                   De um soneto rimado. (13)

 

Em Carlos Queiroz, o repúdio da facilidade é taxativo. A escrita é uma farinha que a mão muito amassa na masseira. O tempo não exige pressa. Joeirar com sobriedade e contenção, conduzem à pureza, depurada, despojada, e quase epigrafada:

                                   Que trajectória complicada

                                   Faz a água nas vísceras do monte,

                                   Até sair purificada

                                   Da fonte

                                   E escoar-se no chão,

                                   Como se não

                                   Valesse nada!

 

                                   Assim é a poesia

                                   Que mereça esse nome e a luz do dia. (14)

 

 

Ademais se percebe uma profunda consciência e preocupação em buscar a palavra pura, aquela que tem um significado original e não a sua sucedânea recoberta do musgo temporal e da marca da água que sobre ela corre, como ao seixo, imprimindo o rolamento polidor das arestas vivas das primícias:

 

                                    Cada palavra possui

                                   Uma longa, longa história.

                                   Todas nos dizem: — Eu fui…

                                   Ter-sido que se dilui

                                   Nos meandros da memória. (15)

 

O que se complementa com o “mistério tão profundo” do idioma:

 

                                   Cada idioma contém

                                   Um mistério tão profundo

                                   Que apenas (oh, raro bem!)

                                   À flor da poesia vem

                                   E se detém um segundo. (16)

 

Obra afora, o lirismo é-nos dito relegado para a sombra do palco, à boca da cena se iluminando, gradualmente, a crítica e a reflexão, que contempla também, como ressalva, a adequação perfeitamente exacta do termo à emoção, numa forma de escrita tão laborada como aquela que Miguel Torga assim define:

 

Cada verso de tal modo acabado que esgote no seu rigor todas as alternativas da expressão. A vivência a comunicar formulada de uma vez para sempre, numa linguagem ao mesmo tempo tributária e original, transparente e críptica, que diga esperança quando nomeia o desespero e nimbe os esplendores do profano de um halo sagrado. Ora semelhante milagre apenas se consegue, se se consegue, mediante um trabalho aceso de muitas horas, muitos dias, muitos anos – o ferro cada vez mais incandescente e o forjador aureolado das chispas que saltam da bigorna. (17)

 

E o próprio Carlos Queiroz assim nomeia:

 

Se não é fácil lutar corpo a corpo com uma língua, até a dominar e transformá-la em estilo, mais difícil é lutar com uma corrente lírica nacional tão formalmente – e desde tão longe – estruturada, como é a nossa. (18)

 

David Mourão-Ferreira, na sua labuta do abrir das portas da poesia de Carlos Queiroz, refere-o

 

Dobrado compromisso que a sua lírica manifesta (…) entre romantismo e classicismo, entre classicismo e modernidade.(19)

 

 

À laia de conclusão, e apesar da íntegra subscrição do poeta avisando que não vale clarificar!(20), se pontue, e arriscamos com as melhores intenções…(21), que Carlos Queiroz caldeia e assume o triplo compromisso:

Clássico na sobriedade e medida justa iluminadas com a clareza,

Romântico enquanto ser diferente e criador inspirado, comungando do transcendente a comunicação,

e Moderno é na constância à ideia de captar a experiência através da forma (22) e, que mais não seja e muito será, na manifestação da consciência do fazer poético, sub e sobrejacente à meditação que sobre ele faz, que vai descobrindo e dizendo, na síntese da sua função:

 

                                  

                                    Em cada hora lateja

                                   Um sentimento diverso

                                   E uma ideia original

                                   Faz esforços por nascer.

                                   Imaginamos que a vida

                                   Foi voltada do avesso,

                                   Mas pouco foi descoberto

                                   E está tanto por dizer! (23)

 

 

 

…………………………………………………………………………………

NOTAS:

 

  1.           C. Queiroz, “Canção Depressa”, Epístola aos Vindouros e Outros Poemas, Lx, Ed. Ática, 1989
  2.            François Villon, Balada dos Enforcados          
  3.            Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, Acad. Ciências de Lx e Ed. Verbo, 2001
  4.            Eugène Guillevic, Art Poètique, Éditions Gallimard, 1989.
  5.            Carlos Queiroz, « Camilo Pessanha », Presença, nº 20. Abril-Maio de 1929.
  6.            C. Queiroz, “48”, Desaparecido. Breve Tratado da Não-Versificação, Lx., Ed. Ática, 1984
  7.            Carlos Queiroz, “49”, BTNV.
  8.            Carlos Queiroz, “49”, BTNV.
  9.            Eugène Guillevic, Terraqué, Gallimard, 1945.
  10.            Carlos Queiroz, “52”, BTNV.
  11.            Carlos Queiroz, “53”, BTNV.
  12.            Carlos Queiroz, “54”, BTNV.
  13.            Carlos Queiroz, “55”, BTNV.
  14.            Carlos Queiroz, “58”, BTNV.
  15.            Carlos Queiroz, “59”, BTNV.
  16.            Carlos Queiroz, “61”, BTNV.
  17.            Miguel Torga, Antologia Poética, Coimbra.
  18.            C. Queiroz, “Crítica: F. Pessoa, Obras Completas”, Diário Popular, 03/12/1942, p.5.
  19.            DM-Ferreira, “Prefácio”, Desaparecido. Breve Tratado da Não-Versificação, Lx, Ática, 84
  20.           (20 e 21)   Fernando Pessoa, Obras em Prosa, Rio de Janeiro, Ed. Nova Aguilar, 1982.

22.             Debicki, A., Historia de la poesia española del siglo XX, Madrid, Gredos, 97

23.            Carlos Queiroz, “51”, BTNV.