Carago! Já daqui não saio!

por Rufino Fino Filho | 2014.02.21 - 17:24

O Neves trabalhava no escritório de advocacia do único causídico que arriscara abrir a porta em Castendo. Entrara ao trabalho de imediato e como parte do negócio de arrendamento do andar térreo, que o Dr. Inácio negociara com a minha comadre Cremilde, dona do espaço por morte da madrinha, que a criara desde miúda, quando os pais morreram com a pneumónica. O Neves, meu parente afastado por parte de um antepassado qualquer, aprendeu a escrever à máquina (uma Remington, pesada p´ra burro) e ali embrenhara nas manhas da advocacia e na história de metade dos habitantes de Castendo e arredores. Pelas suas mãos passaram histórias de roubos e facadas, tiros e sacholadas, traições matrimoniais e divórcios, estupros e acordos de casamentos forçados, compras e vendas de todo o género, vigarices e ciganadas de gente de “bem”, enfim, tudo o que o ser humano é capaz de inventar para se colocar na mão desses gabirus do alheio, os advogados. Não havia podre que não conhecesse mas sempre soubera respeitar o sigilo, esse milagre no seio da advocacia, e, único instrumento capaz de fazer com que o cidadão comum respeite tal profissão.
Casou bem, atendendo às disponibilidades do mulherio nos anos 70. A Tica, era filha de uns feirantes de Molelos que frequentaram a Feira de Castendo, mais de 40 anos. Conhecê-la, amá-la e ir com ela até Vale de Lençóis, foi um ápice. Nos primeiros anos, fez três filhos de seguida, honrando a boa tradição portuguesa, mas já então em desuso.
Agora, na casa dos 60 e picos, com algumas mazelas a roerem-lhe os ossos e com o vinho a mirrar-lhe a pele, está a meio caminho da reforma. Não sem antes, contudo, preparar para o ofício de escriturária, a Rute, filha (e que filha!) do Manelzinho de Pindo, que, não tendo terminado o curso de Direito (por manifesta burrice e gosto pela noite), encontrou no escritório do velho Dr. Inácio, uma forma de dar continuidade ao sonho de ser Doutora. Melhor, de lhe chamarem Doutora!
Com paciência de santo, o Neves, lá foi ensinando o bêábá da arte, do arquivo, da numeração sequencial dos processos, da escrita jurídica, dos espaços, dos parágrafos, das margens nos ofícios, das notificações, dos registos, da gestão da agenda do patrão, da cobrança das consultas, etc. No entanto, o entusiasmo pela vontade de marchar para a reforma, começou a não justificar toda a atenção que dedicava á moça. A proximidade da beldade – muito dada a encostos superficiais e a roçar as mamocas sempre que se cruzavam no corredor, ou distraidamente, as apoiá-las nos ombros do Neves quando espreitava o expediente no computador – começou a mexer com a libido do Neves que voltou aos sonhos dos 20 anos. Seria uma questão de oportunidade, pensava. A miúda não lhe saía do pensamento.
Um dia, chuvoso e nublado, já na escuridão invernal das seis da tarde, ao sair, diz:
Você quer boleia?
Claro -respondeu ela- com este tempo ainda mais agradeço – diz, entrando no carro.
Chegando no edifício onde ela morava, parou o carro e, com ar sorrateiro, atira:
Pronto! Chegámos! Você fica e eu vou embora! – e mira-a de lado, a sorrir. Com o sorriso dos coiros, dos velhos viciados e viciosos.
Ela, olha-o de frente faz uma boquinha lasciva e atira:
Está frio. Não quer entrar e tomar um cafezinho? Ou outra coisa qualquer? – e prolongou o qualquééérr?.
Não, obrigado, tenho que ir para Casa.
Alterou aquela espécie sorriso e um ar de infelicidade invadiu-lhe o rosto.
Imagine! O Sr. Neves foi tão gentil comigo, vamos entrar só um pouquinho. Vá lá!
E lá subiu, atendendo ao pedido da colega.
Ao chegarem no apartamento, o café prometido, transformou-se, qual milagre, num whisky, depois noutro e mais outro, até que a coragem se multiplicou no Neves e como, quem não quer a coisa, diz-lhe ao ouvido, deixando passar a língua pela orelha da garota:
Carago! Já daqui não saía!
Dengosamente, serviu-o de mais uma bebida e saiu da sala. Pouco depois, voltava, de camisa de dormir, transparente e perfumada. Foi o fim do mundo! O Neves vingou-se de tantos anos de desejos incontidos, da chata da mulher, dos berros dos putos, do cabrão do Dr. Inácio, dos amigos invejosos e, milagrosamente, começou a descer na escala etária: 50, 40, 30, 30, 30…e por ali ficou até perder a noção do tempo e do cansaço. Adormeceu com um sorriso beatífico na cara já rugosa, de sexagenário.
O céu tinha caído, literalmente, em cima do Neves.
Por Volta das 4:00 horas da manhã, acordou, moído mas satisfeito e sem a noção exacta do lugar onde estava. O candeeiro do tecto não era propriamente reconhecido por ele. Depois lembrou-se de tudo.
Chiiii, que sorte a minha! Foi melhor que o euromilhões!
Lentamente, lá se foi virando, esticou a mão, pegou no relógio e levou o maior susto da sua vida. 4 Horas! Porra! E agora! Como iria arranjar uma desculpa para entrar tão tarde em casa? A noitada valia bem o berreiro da Tica, mas tinha de engendrar uma desculpa qualquer. Nem por sombras se poderia saber que, agora, depois de velho, tinha um ninho de leite e mel á sua espera em casa da coleguinha.
Aí, sentou-se na cama e mais calmo, foi pensando enquanto se vestia.
Arranjas-me um lápis?
Ela entregou-lhe o lápis. Pegou nele, colocou-o atrás da orelha e foi para casa, guiando devagar. Ainda levava no corpo o diabo da Rute.
A mulher, louca de raiva esperava-o sentada na cama. Antes que começasse a música, o Neves faz um ar de cão perdido e começa:
Tenho algo para te dizer… Quando saí do trabalho dei boleia à minha colega de trabalho. Depois já á porta do prédio onde ela mora, convidou-me para subir e ofereceu-me um wisky, em seguida, ela foi para o banho e voltou com uma camisola transparente e muito linda, e, olha, acabamos na cama e fizemos sexo toda a noite. Depois, adormeci e acordei agora há pouco…
A mulher com uma raiva incontrolável, deu um berro e sentenciou:
Seu mentiroso sem vergonha!!! Estiveste na tasca do Menicha a jogar sueca com os teus amigos de merda!! Nem sabes mentir, ATÉ TE ESQUECESTE DO LÁPIS AÍ, ATRÁS DA ORELHA, seu Aldrabão!