Canción de Dom Rocinante, el caballo fantástico de Dom Alonso Quijano

por PN | 2014.06.15 - 14:21

 

 

 

 

Castela de sol ardente e gretado solo ardido

Será loucura ruminar em água fria e verde pasto?

Doloroso afago d’esporim sentido

Sol que faz heróis e estiola o duro casco…

 

Ah rocinante, ginete de cavaleiro andante

Surdo ao zurrar bronco do asno companheiro

Atento às cortesias deste doudo demandante

Matuto neste embalo d’osso em chouto levadeiro

 

Alonso Quijano não leias mais; de frente Aldonza Lorenzo mira

E naquele moinho mais branco cerca-a tal gigante

E corre após, com ela engrinaldada, a Dom Gaifeiros acudir à ira

Sombreando-me… que a canícula m’adormece arfante

 

Estóico sou eu, ai quão estóico!

Alonso o generoso é só bom e Dom, Nosso Senhor

Louco nos libertará jamais peitando o gesto heróico

Além há uma cruz… mira la cruz Alonso… que fulgor…

 

O Calvário deste sonho visionário cessará

Deste encanto que em lamento se ordena extravagante

E afrontoso do desastre que ao desastre enfrentará

Tanta mágoa qual demanda em liberdade busca impante

 

Ah rocinante, ginete de cavaleiro andante

No exílio a erva será verde, a terra morna e eu livre enfim

De lamber mil ferimentos e codilhar farfante

Recolhido tu na torre escura dos cavaleiros-poetas-delfim

 

E aí o tomará Aldonza, a las cinco de la tarde, em seus braços de Dulcineia

(Pietá que exalta a las cinco de la tarde o lamento quixotesco cessante

Do homem livre, a las cinco de la tarde, da alma livre, do livre ilimitado, da ardente veia…)

Ah rocinante, a las cinco de la tarde, ginete de cavaleiro andante

 

Chocalha-me tal e tanta lataria deste vivo ideal

Que transporto em tanta dor

Meu Senhor Nosso Senhor

 

“não repare vossa mercê em ninharias, senhor Dom Quixote, nem aperte tanto a cravelha que estoira a corda! Representam-se para aí todos os dias comédias recheadas de absurdos e baboseiras e ninguém lhes vai à mão. Pelo contrário, fartam-se de receber aplausos, vento em popa!”

 

Sancho tolo, Santo pança que nunca leste um livro, nem a Tormes foste vivo

E és conselheiro dos que afrontam o rei

Oh que corte tão leal sem grei!

 

Dom Quixote e Sancho Pança, Rocinante e bronco Asno andante

Trupe luminosa ao sol cegante de Castela

Bolinando, nos olhos ocos dos bufões de vento em popa, a vela!