Bibelots da Memória

por António Soares | 2015.09.17 - 20:29

 

Os bibelots que decoram os espaços onde nos demoramos conferem-lhe uma identidade moldada à nossa personalidade.

Os objectos permanecem imóveis no tempo inexorável. Sorvem-nos o estado de alma e fazem-no seu: as asas verdes de um papagaio esculpido no pau-preto, a decorar o escritório, parecem fluorescentes em dias mais risonhos; o quadro da casa abandonada à beira do lago parece matar o outono em dias ásperos.

Quando partimos, os bibelots guardam-nos no espaço. Os gatos de madeira leve e fracturada, descansados por cima da lareira, ainda olham na mesma direcção; as canetas e o papel engelhado, abandonados e cobertos de pó, esperam novos rascunhos; uma jarra partida nunca chegou a ser recuperada.

Os espaços degradam-se no tempo que lhes rouba a cor e o aspecto. A identidade permanece.

Também a nós o tempo pode roubar a cor ou o aspecto, degradar ossos, músculos e pele, mas a personalidade permanece.

Sejamos, pois, um espaço onde as nossas melhores acções sejam os bibelots que nos recordam nas memórias, muito depois de termos partido.