Bárbara

por Graça Canto Moniz | 2014.01.22 - 23:06

Ontem, finalmente, arrastei o esqueleto até ao cineclube de Viseu. Como pessoa de profundas contradições que, desde já, me assumo, sou sócia há dois anos e esta foi a primeira vez que assisti a uma exibição no IPJ (“Jardins Efémeros” não incluídos). Em minha defesa pergunto: o que seria da vida sem uma contradiçãozinha menor aqui e ali? Recordo a música: “a pior raça é a de quem vive atrás da coerência/vê na verdade matemática e no céu ciência/ser tão pouco agora como já se era antes/é fruto da coerência em certos bons estudantes”, traulitava há uns anos atrás o João Coração.

Triste é, isso sim, a imposição despótica da coerência: dá cabo de emoções, destrói sentimentos, apaga sorrisos, etc… Foi isso que vi. Passo a explicar. Assisti a “Bárbara” (2012), de Christian Petzold. Este é um filme sobre a antiga Alemanha realizado por um dos melhores cineastas da moderna Alemanha. Na atmosfera sufocante da Alemanha de Leste dos anos 80, Petzold conta uma história de amor. Melhor, de aceitação. Haverá diferenças? Fica a dúvida.

Bárbara é talvez a criação feminina mais extraordinária e complexa que tenho visto no cinema. Desempenhada pela elegante Nina Hoss, é a amante de um alemão ocidental e médica atirada para a província por razões nunca bem esclarecidas; é uma mulher distante, reservada, aparentemente fria, que carrega no rosto uma aura de mistério e sensibilidade, que vai erguendo barreiras sociais como uma espécie de técnica de sobrevivência. Bárbara questiona-se sobre as possibilidades de liberdade numa prisão constantemente experimentando uma tensão angustiante entre confiança e dúvida, resistência e resignação, sentimentos que apenas superficialmente apreendemos. Bárbara é uma dissidente que, modestamente mas com uma raiva obstinadíssima, enfrenta um sistema opressivo e claustrofóbico. Por isto, em certas partes, o filme é um estudo sobre a solidão. Claramente, para Petzold, as histórias da Alemanha de Leste são pessoais e individuais.

Planos longos e um ritmo aparentemente lento da narrativa ajudam a criar um subtil clima de paranoia e intrigas. O desfecho do filme é surpreendente e arrebatador mas deixa algumas pontas soltas: haverá redenção? De Bárbara? Face a quem? Com ou sem implicações ideológicas? E o amor, meu Deus, que fará Bárbara do amor? Liberta-se. Com ele, através dele, graças a ele.

O leitor terá visto “A vida dos outros” (2006), de Florian Henckel von Donnersmarck, ou “4 meses, 3 semanas e 2 dias” (2007) de Christian Mungiu? Se não viu aconselho-os vivamente por uma razão: são antídotos para todos os (ainda) crentes no Socialismo, esse canastro da História.

Graça Canto Moniz é filha do ano revolucionário de 1989 mas é, ela mesma, muito pouco dada a revoluções. Jurista e devoradora de livros, séries, filmes, paisagens e viagens.

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