Avena Gaia

por Paulo Neto | 2014.02.22 - 17:04

A solidão da palavra prostituta velha abusada consumida usada.

A palavra dada a empreiteiros do discurso como tijolos soltos arremessáveis à debilidade do objecto.

A palavra maculada perdida da fonte num caudal rosnento de gárrulas.

A palavra no desespero da averbalidade.

A palavra da massa fútil e desfulgurada.

A palavra in identificada com referente denegação antítese na boca alarve da manipulação.

A palavra-quadro onde arabesco e risco são tudo-nada metáfora de coisa nenhuma.

A palavra subjugada à matemática à sua gramática exacta pura distante.

A palavra tão atonal como a música electrónica onde laceração corre rebordo de vidro estilhaçado.

A palavra mutilada do sentido, fugida do étimo perdida num tempo acrónico que não aceita a decadência.

A palavra liberta para ser lasca esquírola osso branco ou ferida.

A palavra a tremer num silêncio que significa e por significar repudia e descarta o inusual.

A palavra oca numa mudez inominada.

A palavra desvitalizada raiz podre.

A palavra acessório emplumado no psitacismo do vazio com ecos ouvidos antes do dito.

A palavra escorraçada da parábola límpida alba outonal.

A palavra adverbiada adornada com verbos de teryleno letal.

A palavra anagrafada em sintaxes inconformadas à subreverência.

A palavra numa anáfora cacofónica onomatopeia surda de pejo.

A palavra possuída por uma aritmética implacável desdenhosa.

A palavra sem surpresa nua repelente comichão do a-dizer.

A palavra decrépita nem tempo nem espaço. Nada ou ruído de nada. Fragmento talvez de vento. Saudosa avena gaia.

 

Viseu, 20Fev2014.