Até aqui tudo bem…

por Rui Macário | 2014.04.06 - 14:16

Há uma velha história (anedótica) que relata as palavras de um homem que cai do topo de um edifício e que, ao passar por cada um dos andares vai referindo: “Até aqui tudo bem…”. Das duas uma, ou achamos que a loucura é o elemento dominante e o optimismo exagerado, ou encaramos a situação por um prisma de esperança numa eventual salvação antes do impacto final.

Como tudo na vida, são os dois extremos do encarar os dias que se retratam na anedota. Portugal, depois de destruir tudo o que havia conseguido de válido e justo ao nível do seu crescimento, eliminando sequer a possibilidade de pensar em consumo interno (privado), em prol de exportações sabe-se lá de quê (exportar é menos simples que construir de raiz estruturas para produzir nos mercados de destino, também há disso claro), volta a afirmar que o futuro contará inevitavelmente com o dito consumo interno (privado). Até aqui tudo bem.

Os empregos que não existem e jamais tornarão a ser estáveis – salvo para uns poucos – dificilmente sustentarão esse consumo. Importem-se estrangeiros, como as comunidades de holandeses que sem se misturar em demasia com as nacionais vão adquirindo parcelas de território nos concelhos do Distrito de Viseu. Até aqui tudo bem.

O Turismo, que final é exportação (agora apercebem-se disso os políticos), procura desesperadamente quem pernoite e consuma vinhos e refeições gourmet. Viajar ou não pelas ex-SCUT é indiferente já que nunca darão para pagar o seu custo PPP. Mas que venham os outros que cá estaremos para lhes abrir as portas. Até aqui tudo bem.

Para o ano haverá menos impostos que foi sendo aforrado com o que pagar a propaganda. Até aqui tudo bem.

À Sagres que menos querem no estrangeiro a cada mês que passa e depende assim mais do consumo interno (privado), valham os festivais, a bola e os estudantes nas Queimas. Até aqui tudo bem.

Mas e, por exemplo no interior do país, onde o IPV se esqueceu de ser Universidade e a Universidade se esquece de não ser da Covilhã, quantas mais Queimas se os alunos diminuem; quantos mais estrangeiros a beber Sagres se o vinho é que importa; e quantos mais hotéis, pousadas e afins, se se pretende que os residentes trabalhem a baixo custo para os estrangeiros que nos visitem? Até aqui tudo bem, não fora o facto de se ter eliminado a capacidade económica em prol de uma anexação forçada a “coisas” que nada têm a ver com a dignidade de cada um dos de nós. Comunidades vivas? Os portugueses estão a ficar velhos, mais vale não perder tempo com o manter do que existe e passar logo para a fase seguinte, em que o choque seja só nosso por nos vermos sem o que fazer. Mas que os outros tenham. Isso é importante.

Welcome to the Beiras. Wilkommen…

Licenciado em Arte e Património (UCP-Porto) e Pós-Graduado em Arte Contemporânea (UCP-Porto), sendo actualmente Investigador do Centro de Investigação em Ciência e Tecnologia das Artes (CITAR) e doutorando em Estudos do Património (UCP-Porto), Desde 2008 é um dos responsáveis pela Projecto Património, tendo assumido funções de coordenação/co-coordenação de vários dos projectos pela mesma assumidos (de que se destacam o Ano Internacional Viseense, a VISEUPÉDIA, o VISTACURTA – Festival de Curtas de Viseu, e o Museu do Falso). Colaborou em, ou integrou projectos de várias entidades a operar no sector cultural (entre outras: Museu do Carro Eléctrico, Museu Grão Vasco, Diocese de Viseu, Arquivo Distrital de Viseu).

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