“ASSOBIAR COM UM FIO DE ERVA NA BOCA”

por Alberto Correia | 2014.10.23 - 12:45

 

José Tolentino de Mendonça numa lúcida e amena crónica já há algum tempo publicada na Revista do Expresso (06 de Abril de 2013) fazia uma curiosa análise d’ ”esta desertificação da vida interior” que acaba por deixar de dar sentido aos nossos dias enredados nesta inquieta e esgotante azáfama de senhorearmos o tempo como se ele fosse eternidade. Humilde, estendia-nos depois uma mão-cheia de exemplares pequenos nadas, isso que, no seu entender, é verdadeiramente o tempero, “O sal da vida” (título da crónica), porventura esse evangélico grão de mostarda que se torna, se de tal consciência se tomar, o único fragmento da felicidade tão buscada.

E no espontâneo e aleatório registo que fazia, lembrava, da sua infância talvez, o ledo entretém de “assobiar com um fio de erva na boca”.

E lá estou eu a lembrar-me das primaveras antigas, das margens dos ribeiros e das ervagens que cresciam à beira dos caminhos, da fita verde cortada na haste de uma erva ou de uma cana de centeio, de colocá-la na boca como pastor de Neolítico ou de a entalar, de certo jeito, as mãos quase mãos postas, rente aos polegares, eu e os companheiros (meu Deus, que é feito deles?), manhãs ou tardes de Maio, estrada fora a assobiar.

Lembro-me, nostálgico (porque não?) e feliz (porque sim) das primaveras antigas, dos campos de meu pai onde eu sempre achei que era o paraíso. E é por isso que me dói a aldeia abandonada, e é por isso que eu regresso sempre que me dói, não sei o quê dentro de mim.

Ao fim da tarde as abelhas regressam ao seu lar. Ao fim da tarde ainda se ouvem os grilos a cantar. Ao fim da tarde, se é o mês de Maio, apetece-me cortar a folha de uma haste de centeio e de me pôr a “assobiar com um fio de erva na boca”. Mas já não há centeio nos campos de meu pai. Nem na aldeia.