As vantagens da gripe

por Graça Canto Moniz | 2014.01.07 - 20:55

Estar de molho tem as suas vantagens. Não é, de todo, uma maçada para uma pessoa que devora livros, filmes e séries: lê-se mais do que em dias normais e é uma óptima oportunidade para deitar o olho a filmes que estão em stand by. É engraçado: às vezes dou por mim a pensar que estou numa corrida literária ou cinéfila contra o tempo sempre que chego à conclusão de que vou morrer sem ler todos os bons livros e sem ver os grandes filmes. Escolher um livro ou um filme é um exercício, por vezes, angustiante. Adiante. Eis a cura para a gripe: dois dias de cama, uma caixa de lenços na mesinha de cabeceira, uma caneca de chá na mão, Sir Pelham Greenville Wodehouse (1881-1975) na outra, muita paciência e fé nos efeitos da medicina ocidental sobre os vírus, essas criaturinhas toscas.

Wodehouse era um disciplinadíssimo profissional da escrita, ao contrário daqueles que gostam de caçar elefantes, seduzir sobrinhas, fundar movimentos da cultura, viciados em anfetaminas e elogiadores de Estaline. Alexandre Soares da Silva explica-o logo no prefácio de Época de acasalamento (Raposa matreira, 2007): Wodehouse acordava às 7 da matina e tinha como objectivo escrever duas mil palavras por dia, sete dias por semana. Quando fez 100 anos entendeu que seria cordial reduzir a meta para as mil palavras por dia. Escreveu perto de 100 livros. Mas há mais em Wodehouse além do profissionalismo. Há excentricidade, traumas familiares, demónios pessoais e sexualidade, digamos, bizarra.

Talvez as personagens mais conhecidas de Sir Pelham sejam Wooster e Jeeves, o gentleman e o seu butler (sendo que Jeeves é bem mais do que um simples mordomo, é “um cavalheiro ao serviço de cavalheiros”), incrivelmente representadas numa série bestial da década de 90 em que Hugh Laurie (sim sim, o Dr. House nem sempre foi aquele carrancudo cinzento) é Bertie Wooster e Stephen Fry (entre outras coisas o realizador de “Bright Young Things”) é Jeeves. Mas creio que o ponto cruxis de Wodehouse, além da fabulosa trama e do carisma das personagens, é a linguagem e, essa, vive e respira na versão escrita e impressa das suas palavras. Todo esse palavreado cria um mundo idílico que segundo Evelyn Waugh «can never stale» e, por isso, qualquer adaptação de Wodehouse corre perigo: o tom de voz é tão importante como a trama e, nas histórias em torno de Jeeves, confidente de Wooster, é a sua narrativa espirituosamente criativa que transforma o trivial em sublime.

Este foi um autor que marcou uma geração. Talvez não portuguesa, mas o próprio Stephen Fry confessa que a grande marca de Wodehouse é o ensinamento sobre o lado bom da natureza humana, «it is enough to be benign, to be gentle, to be funny, to be kind» e isso, senhor leitor, é um legado para a Humanidade, transversal a todas as gerações.

Graça Canto Moniz é filha do ano revolucionário de 1989 mas é, ela mesma, muito pouco dada a revoluções. Jurista e devoradora de livros, séries, filmes, paisagens e viagens.

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