AS NOSSAS MEMÓRIAS

por Diana Silva | 2015.04.04 - 15:33

As nossas histórias não são os coletes que pensamos que sejam. Voltam sempre com uma mudança de escala, de cor, numa apreensão como o silêncio em volta da mesa quando a Avó abençoa o Pão e todos pousam os talheres. Ou a música do trinado da Gata, ao meu colo. O céu do inverno quando começa a formar fiapos de chuva. A cor da alma nos anos em que o outono nunca chega e quando finalmente nos chega ardemos em febre por correr horas perdidas no aconchego da terra molhada. Sinto o perfume das flores que abrem, num gesto longo, quando não está ninguém a ver. Lembro as palavras de amor -todas-, cada uma com uma certeza devastadora.

 

Perguntei-me uma vez o que mais temo. Os compositores temem a surdez, mas o Bee ouvia a própria música com o bater no sangue. O que temo, então? Perguntei-me e já o sabia ou não mo perguntaria a mim própria. É a perda da lucidez límpida do interior. Da memória. O meu maior medo é que um dia, inesperadamente, improvisadamente, a perderei. Nunca nos falámos directamente e , no entanto, a nossa intimidade é total. A minha relação com ela é tão intensa porque a ela me dedico todos os dias, durante todas as horas. É a luva que encontro no chão, o meu repto diário, que aceito.

 

Perguntei-me e já o sabia.