As interferências da morte

por António Soares | 2014.10.02 - 08:35

Já havia citado algumas mensagens “post mortem” – os epitáfios – e a curiosa quantidade de vezes que se escolhe o humor para o que podemos considerar serem as primeiras palavras depois de falecer. [ http://www.ruadireita.pt/largo-do-pelourinho/as-interferencias-na-morte-1546.html ]. Há igualmente relatos curiosos sobre as últimas palavras em vida embora, ao contrário dos epitáfios, onde a mensagem é previamente preparada, nem sempre se possa depreender que o humor foi produzido propositadamente.

Joseph Frank Keaton (1895-1966), mais conhecido por Buster Keaton foi mais do que um comediante, foi um estudioso da comédia.

Se a história o velou na sombra do seu contemporâneo Charlie Chaplin, a genialidade de Keaton para o humor parece ter permanecido até ao momento da sua morte. Conta-se que com Keaton no leito da morte, terá decorrido o seguinte diálogo entre os presentes: “- Estará morto?”

“- Toca-lhe nos pés a ver se estão frios, todos os mortos têm os pés frios”.

Perante esta afirmação, Keaton terá reagido:

“- A Joana D’arc não”. E finou!

Uma observação pertinente, visto Joana D’Arc ter sido condenada à morte na fogueira.

J.M. Barrie (1860 – 1937), escritor nascido na Escócia, autor de “Peter Pan”, terá entrado no sono eterno com um último “Não consigo dormir”. Segundos depois conseguiu e nunca mais acordou.

O rezingão Winston Churchill (1874-1965) não surpreendeu ninguém quando afirmou: “Estou chateado com tudo isso”. Fosse o que fosse que estivesse a chatear Churchill, não o chateou por muito tempo. Logo de seguida Churchill teve uma trombose cerebral, entrou em coma e morreu nove dias depois.

De Robert “Budd” Dwyer (1939-1987) sabemos precisamente quais foram as últimas palavras porque foram filmadas.

Dwyer foi um político norte-americano, da Pensilvânia, acusado de receber 300 mil dólares em subornos. A 22 de Janeiro de 1987, na véspera de ser anunciada a sentença, Dwyer convocou uma conferência de imprensa para esclarecer o caso. A determinada altura Dwyer parou de discursar, entregou três envelopes, e de um outro envelope tirou um revólver. Quando os presentes se tentaram aproximar para o demover, Dwyer pronunciou as suas últimas palavras antes de colocar o revólver na boca e disparar: “Afastem-se, isto pode magoar alguém”.

George Bernard Shaw (1856 – 1950) ter-se-á despedido da vida afirmando que “Morrer é fácil, fazer comédia é difícil”, mas Voltaire pode ter sido a prova viva – ou morta – de que o bom humor pode estar presente na aproximação à morte.

A história é simples, mas as palavras não terão sido as últimas.

Durante a extrema-unção, e seguindo a liturgia normal para a ocasião, um sacerdote de nome Gaultier terá perguntado a Voltaire se renunciava ao Demo por forma a entrar no Reino de Deus, ao que Voltair terá afirmado: “- Agora, meu bom homem, não é hora para fazer inimigos”.

 

Nota(s):

1. O facto de Voltaire ter escrito uma carta depois deste encontro leva a crer que estas não terão sido as suas últimas palavras.

  1. Embora a situação narrada arranque sorrisos, vistas as filmagens percebe-se perfeitamente que não houve qualquer intenção da parte de Dwyer em criar qualquer tipo de humor. Este texto foi escrito com todo o respeito pela memória de Dwyer e de todos os citados, e pelo momento delicado que é a morte
  2. De várias frases célebres que poderiam ser citadas, estas são algumas das que merecem mais consideração pela credibilidade das fontes onde foram recolhidas.