As coleiras de espinho doiradas

por PN | 2014.06.03 - 12:46

Um cão rafeiro e vadio, maltratado e escanzelado, da fome inchado e de carinhos alheio, deambulava campos fora à procura de abrigo e comida, quando ouviu fortes latidos vindos de um bosque cerrado.

Esperançado em encontrar canídeo complacente que com ele partilhasse enfastiado osso sobrante, ou, à míngua, latido amigo ou roçagar serdoso, no bosque se enfrondou.

Seguindo o som, correu trôpego, arfante e débil até chegar a uma vistosa quinta, rodeando altiva casa em granito azul de fino efeito e madeiras grossas e nodosas de castanho secular.

Quatro podengos poderosos, nédios e luzidios a guardavam nos quatro cantos, presos a

quatro estacões de ferro por quatro grossas correntes, uivando com a gravidade muito própria a seu mister.

Acercando-se do primeiro, a medo, perguntou-lhe: –“ Quem te engordou dess’arte e dessa forma te prendeu?”

–“Meu amo, dono e senhor, a quem sirvo lealmente. Nada me falta. Como quanto quero e quando quero bebo. E em troca apenas tenho que ladrar aos vagabundos como tu, que se acercam do nosso paraíso!”

Desconsolado com manifesta arrogância, voltou-lhe o dorso e chegou-se ao segundo podengo a quem temente perguntou: — “Quem te engordou d’essa arte e dessa forma te prendeu?”, ao que o outro irado volveu: –“ E quem és tu vira-lata para a mim te dirigires? Rapo osso, como carne, vivo em grande fartança. Sou grande e poderoso e é minha função escorraçar os pedintes da tua laia pintados!”

Desgostoso com a declarada hostilidade, afastou-se e receoso, aproximou-se do terceiro mastim a quem questionou: –“Quem te engordou d’essa arte e dessa forma te prendeu?”, ao que o outro, espumando embravecido lhe rosnou: –“Some-te piolhoso, saco de ossos, maltrapilho, nojo da raça! Como e bebo, bebo e como até ao fastio da fartura e mais não faço que rosnar aos mal-vindos como tu. E se te acercas mais um passo, podes crer, que sujo as fauces, mas te ferrarei nesse nojento pelame!”

Desesperançado com tal ferocidade, ia a afastar-se quando o quarto canídeo com um latido amigo o chamou: –“ Ei! Amigo, vem conversar comigo. Vem contar-me novas do mundo, vem ensinar-se como se vive livre. Vem tirar-me deste ancho tédio…”

Receoso de partida ou vilania cruel, abeirou-se temente e quedando-se fora do alcance de garra ou de mandíbula, perguntou: –“ Não estás feliz como os outros? Não estás como eles, gordo e bem tratado? Que te interessa pois o mundo? Que cuidas tu do meu viver, escorraçado, cansado, faminto, sovado e sequioso?

–“ Cuido que estás esquelético, mas livre. Cuido que és escorraçado, mas livre. Cuido que estás cansado, mas livre. Cuido que estás faminto, mas livre. Cuido que és sovado, mas livre. Cuido que estás sequioso, mas livre, e ainda não te vi de dorso arreado! Desaperta-me esta coleira de espinhos doirados e põe-a no teu pescoço. Liberta-me deste jugo e eu dou-te a minha fartura. Cedo-te a inutilidade feroz e o fastio implicante. Concedo-te este belo cadeado e a malga de carniça sempre cheia!”

O cão rafeiro sentiu a tentação emergir-lhe das entranhas, do estômago ulcerado e vazio. Olhou a gamela abastada, mirou a coleira espinhada e o cadeado ondulante. Chegou-se ao pé do outro e soltando-o respondeu-lhe: –“ Não quero a tua fartura à troca dessa grilheta. Não quero eu tal prisão por paga de malga cheia. Não te cegou a abundância em cativeiro… Anda companheiro, mais vale a barriga vazia em liberdade que a fartura dos escravos!

E juntos, latindo de alegria, abanando a cauda erguida, lestos pincharam do bosque, para dele sem mais se sumirem às claras do sol de todos.