AS CANÇÕES NUNCA SE ABATEM

por Armando Ferreira | 2013.12.15 - 07:18

 

Liberdade” de Sérgio Godinho

 
Numa entrevista recente, afirmaste que as tuas canções mais antigas e que julgarias datadas, continuam atuais. Pois continuam Sérgio. Quando alguns de nós julgávamos que as tuas canções estariam já guardadas na gaveta das nossas memórias mais ou menos revolucionárias, eis que elas, mais uma vez, saltam para a atualidade. É claro que hoje, ó Sérgio, já não “vivemos tantos anos a falar pela calada”, mas já há muita gente a afirmar que “só se pode querer tudo quando não se teve nada” . E há tanta gente a perder tudo e a voltar ao nada, pá. E as coisas voltam a ser urgentes, porque não podemos voltar a esperar tantos anos. É isso Sérgio. Ando às voltas com as tuas palavras e também eu as sinto cada vez mais atuais, porque “só há liberdade a sério quando houver a paz, o pão, habitação, saúde, educação”. Pois é Sérgio, as coisas não estão a correr nada bem. Quanto à paz, safamo-nos, por agora. Mas o pão, Sérgio?! É só estar atento ao número crescente dos que, todos os dias, batem à porta das organizações sociais a pedir isso mesmo, pão. E da habitação nem é bom falar, ó Sérgio. São milhares os que estão a perder os seus sonhos e projetos de vida. E, ó Sérgio, para onde vai a saúde e a educação? Corta aqui, paga uma provinha de professores ali. Conheces os sistemas liberais americanos de saúde e de educação? Claro que conheces, Sérgio. E sabes tão bem como eu que tudo aquilo é uma monstruosidade que é premente denunciar. Morre-se nas urgências se não se tiver seguro e levam-se uns tiros quando se está a ensinar e a aprender.
Sonhámos, ó Sérgio, com a liberdade a sério, mas qualquer coisa falhou pelo caminho. E é por isso que as tuas canções continuam a ser atuais. Porque as boas canções nunca se abatem, renascem quando são necessárias. Nem que seja pela calada, porque das rádios e televisões estamos falados (a propósito, há quantos anos não apareces nas televisões?).
Então, Sérgio, cantarolemos mais uma vez:
“(…)Só há liberdade a sério quando houver
A paz, o pão
habitação
saúde, educação
Só há liberdade a sério quando houver
Liberdade de mudar e decidir(…)”

Audições recomendadas:
Liberdade – Sérgio Godinho; Os Vampiros – José Afonso; FMI – José Mário Branco