As agulhas dos dias

por Gaëlle Istanbul | 2013.12.25 - 22:55

Gosto muito do Natal. Não do espírito, porque não é constante – dois dias, um dia, umas horas, uma hora, nem isso.

Sou receptiva às luzes, ao ambiente que se gera, ao convívio e à partilha, quando há. Cá em casa, os livros vêm embrulhados muitas vezes com uma pequena nota: Para todos. Não fosse eu pensar, como outrora, que quem lia um livro meu, adivinharia os meus pensamentos.

Geralmente cozinhamos o tempo, preparamos as refeições em conjunto e acendemos as velas. Por vezes, brincamos ou zangamo-nos, só um pouco. Nenhum de nós quereria perder a festa. Outras vezes lemos. Outras vezes, eles lêem e eu venho escrever e comentar para o computador, ávida, ávida de comunicar. Depois eu leio, ou escrevo, e os dois, como que acordados por um despertador invisível, arrancam-me os ponteiros do quadrante. Nem a agulha dos segundos parece querer sobrar.

Gosto do Natal porque a seguir vem o Ano Novo e eu sou sedenta de mudanças. Mesmo que o Ano Novo ainda venha trajado de velho, vestido com o mesmo capote ou com as botas de sempre, enlameadas da véspera.

Há qualquer coisa que se transforma, dita o marco, no calendário, e eu preciso das suas regenerações. Nem que para isso tenha de acelerar os acontecimentos, mudando a disposição dos móveis, alterando um hábito ou adulterando a utilidade de um objecto.

É a minha forma de mostrar ao tempo que estou estimulada para o que aí vem. De sussurar ao mais profundo eu ‘Não tenhas medo, a Vida continua em ti’.

Gaëlle Istanbul

Bergen, 2013

Gaëlle Istanbul (1972, Mulhouse, França) passou a sua infância em França e Portugal. Estudou comunicação social e cultural em Lisboa, mas foi com o seu filho que mais aprendeu. Graças às viagens e aos acontecimentos da sua vida tornou-se contadora de estórias, através da escrita, da fotografia e do vídeo. Co-edita a Bypass Editions (http://bypass.pt), aprende norueguês e sobe montanhas, para que não lhe falte o ar.

Pub