AQUILINO RIBEIRO E O PADRE BALDOMERO CIRIZA – III

por Alberto Correia | 2015.06.11 - 23:16

 

Com este texto se encerra o pequeno acto de desvendar um fragmento da vida desse missionário “mariano”, o padre Baldomero Ciriza que mais de uma vez terá atravessado o território do Distrito de Viseu em apostólica missão, sendo conhecida a sua presença no Santuário da Lapa aquando das tradicionais novenas e costumeiras peregrinações de Junho e Agosto do ano de 1900. Mérito de Aquilino que gerou esta curiosidade ao referir-se, ainda que em termos de romance, a uma real faceta da acção do frade claretiano, mérito de um dos seus mestres, o padre Francisco Pinto Ferreira, que deixou relato circunstanciado de tal presença em publicação periódica à qual dava colaboração frequente. Pena que não tenha referido se o seu convite terá sido dirigido à Casa Mãe dos missionários em Portugal, na Aldeia da Ponte ou concretizado através de medianeiros da Ordem que estabeleceram Colégio no vizinho e velho Convento da Fraga onde dormitam as cinzas do frade Viterbo que Aquilino elegeu também como mestre dos seus conhecimentos sobre os alicerces da Beira.

Referimos já que os missionários espanhóis, provenientes de Ciudad Rodrigo, obedientes aos ditames da Ordem criada por S. António Maria Claret, vieram instalar-se na Aldeia da Ponte (Sabugal), nas vastas edificações que haviam nascido como Colégio posteriormente entregue aos Irmãos Hospitaleiros de S. João de Deus (1892) que, por não poderem cumprir ali seus fins se deslocam par o Telhal, cedendo tais espaços aos frades espanhóis em 1898 com o beneplácito dos Bispos da Guarda, particularmente de D. Manuel Vieira de Matos que a partir de 1905 ali estabelece sucursal do Seminário.

Esta primeira estadia dos ditos “padres marianos” em Portugal que se prolonga de 1898 a 1910, apesar de terem sido bem recebidos pela população raiana não foi de todo pacífica, sobretudo nos últimos anos ainda que, de acordo com a legislação do governo monárquico (Dec. de 18 de Abril de 1901) tenham sido aprovados os Estatutos da “Associação do Colégio da Aldeia da Ponte”, designativo institucional que lhes conferia existência jurídica, a que tal diploma obrigava, e que lhes permitia ministrar ensino primário e secundário e realizar actos de vário apostolado e assistência.

Acusados de desvios da sua missão primeira por insidiosas campanhas da imprensa, particularmente os inúmeros textos do jornal “O Século” nos anos de 1909 e 1910, acabam por ser expulsos do reino por determinação expressa do Governo monárquico contida na Portaria de 12 de Setembro de 1910, a menos de um mês da instauração do regime republicano.

A autoridade administrativa intervém e procede ao arrolamento dos bens imóveis e móveis (lista redigida pelo padre Baldomero Ciriza que reclama a seu favor os bens móveis), não sem alguns tumultos da população.

Mais tarde o governo espanhol, mediante pedido dos padres marianos, reclama do Governo Português, junto do Tribunal Arbitral de Haia, a favor daqueles, a posse de tais bens, mas o referido Tribunal não dará provimento às reclamações (4 de Setembro de 1920) e em 19 de Abril de 1921, de acordo com os ditames da lei o Colégio, a capela, diversas dependências e outros bens acabam por ser registados a favor da Fazenda Nacional.

A ordem de expulsão alargou-se às restantes casas que os padres marianos possuíam em Portugal: Fraga (Sátão), Izelda (Bragança), Campo Maior e Travessa das Mercês (Lisboa).

NOTA: Serviram de apoio à redacção da presente crónica os importantes textos de Manuel Peres Sanches e Esteves Carreirinha publicados em www.aldeiadaponte.com e o artigo Os Frades da Aldeia da Ponte publicado na “Ilustração Portuguesa”, 2.ª Série, N-º 242, de 10 de Outubro de 1910, p. 447-454.

Informação circunstanciada acerca da presença dos padres claretianos em Portugal pode ser colhida na importante obra de José Augusto Correia de Oliveira, C.M. F., Missionarios Claretianos em Portugal (1898 -2004), Vila Nova de Gaia, Carvalhos, 2005, com suas 668 páginas e ilustração.