Aquilino Ribeiro e a mística do castanheiro

por Alberto Correia | 2014.07.02 - 11:18

Da singular entrevista dada por Aquilino Ribeiro a Igrejas Caeiro quando o Mestre dobrava já os setenta anos, quando talhava ainda, a golpes da metafórica enxada do ofício, um fundo chão de lameira de onde, em madura seara se colheria saboroso pão, da rara entrevista que mais não é que amena conversa em sombra de tarde, retiro, como texto de antologia, a sua resposta a uma iniciática questão.

– De onde é natural?…

Aquilino suspende-se um instante. A resposta não lhe sai directa. Quem conheceria a pequena aldeia serrana onde nasceu, se de imediato a nomeasse? Quem conheceria o Carregal, esse efabulado território que reúne em afectos a Lomba de Baixo e a Lomba de Cima da sua efabulada história de menino contada nos “Cinco Réis de Gente”?

Quem saberia dos impressivos ciprestes que ali defendem a porta do Campo Santo, a deslado da igreja onde o sino “Barradas” governa com seu toque, parece, o toque dos sinos das igrejas vizinhas? Quem se lembraria da extraordinária graça dessa rabita atrevida, a Maria Lóia, o “teixo ruivo” do primeiro enamoramento de Amadeu (Aquilino)? Quem teria perguntado pelos costados indecifráveis do brasão de armas dos Sanhudos, na fundura do pátio da casa onde nasceu?

Aquilino, depois de um instante, situa o lugar do seu berço junto ao Távora, rio de lenda, rio que impôs a genealogia de uma das mais infelizes famílias do reino, rio que foi guia para os canteiros que assinaram com siglas tantas das igrejinhas das margens, rio cujas águas empurraram, Douro abaixo, aventurosos comboios de rabelos pesados das pipas de vinho.

Os ouvintes da entrevista a este rio conheceriam. E Aquilino responde:

– Bem… Eu nasci perto do Távora, no concelho de Sernancelhe, acrescenta ele para situar melhor. Que Sernancelhe, sim, era terra de pergaminhos, foi castelo de Mumadona, teve foral antes que a nação fosse nascida, foi território maltês e ancoradouro divino nas penedias da Lapa.

A partir de agora já podia falar da sua terra, a aldeolazita pacata, pobre, em que havia um convento noutros tempos, como em todas as aldeias que eram

– Aldeias notáveis… Interrompe o entrevistador.

– Não. Notáveis não

Que para ser notável não era bastante a presença de um convento, aliás, de um mosteiro ora despovoado de suas monjas, por mais belo que seja o seu claustro de um intimismo comovente, nem a morada fidalga de alguém que não quis ou não pôde deixar memória para além do delido brasão e do pórtico desventrado da morada de família.

Mas é agora que Aquilino celebra a sua aldeia. Que ergue bandeira. E tira da gaveta velhos papéis que desdobra. À cabeça o retrato da aldeia, desgastado do tempo. Mas está lá tudo.

Era uma terra de castanheiros. E lá vamos guiados ao encontro do berço.

Eu nasci no meio dos castanheiros, na zona dos castanheiros. Sabe que o castanheiro é uma árvore bonita, uma árvore da força e da beleza…

– Frondosa… A árvore mágica não parece ser estranha ao entrevistador!…

– Mais que frondosa. Um castanheiro é uma cidade. É uma cidade para os pássaros. Há o peto real, há a poupa, há o melro, que fazem o ninho nos castanheiros…

Aquilino parece ter descido à sua infância. Era uma vez… e conta para a neta que sentou nos joelhos memórias que a ela já são estranhas. Está comovido e a neta sorri.

Quem seria capaz de responder assim a semelhante questão, responder com esta inocência de alma à simples indagação da terra onde nasceu?!

– É um pequeno mundo… Parece que o entrevistador tem também um coração de menino!…

– Absolutamente. É um perfeito mundo. E depois as pastoras que vêm, com os seus tamanquinhos, britar o ouriço, com os britadores especiais, com a sua capuchinha para apanhar as castanhas, todas as manhãs, quando vem um bafo de vento. Tem muita graça. E quando elas se começam a rir?!… A castanha é uma coisa muito bonita!…

A voz do entrevistador suspendeu a bíblica narração desse edénico tempo de sexto dia quando ainda o Barzabu brincava com os coelhinhos mansos no caminho das Povoínhas, quando a égua Inácia pastava descuidosa nas ervagens à beira de um dos quatro rios sem temor dos lobos que tinham a montanha por conta, quando Eva, a Maria Lóia, lhe confiava a rolinha nova que pela primeira vez descera do ninho e ela acolhera.

Um tempo de paraíso ficava outra vez guardado no coração de Aquilino. No seu Codessal de menino, na mística sombra de um castanheiro.