“Aqui despi meu vestido de exílio/E sacudi de meus passos a poeira do desencontro”

por Amélia Santos | 2015.02.17 - 15:15

 O mote para a reconstrução de si mesmo, de ti mesmo e de mim mesma…

Há uns anitos, nem sei bem quantos, para minha grande surpresa, fazia capa da revista do público de fim-de-semana uma cara que me era familiar – um professor de cultura clássica da Faculdade de Letras de Lisboa, onde estudei. O professor chama-se Frederico Lourenço, um homem bonito que não passava desapercebido numa faculdade onde os seus alunos eram maioritariamente mulheres. O título que acompanhava a fotografia de Frederico Lourenço nessa revista (que me desapareceu, desafortunadamente, tendo eu estabelecido guardá-la como preciosidade – sarcasmos estranhos da vida…) falava num dos últimos livros que  publicara, para minha admiração, porque nem sabia sequer que existiam outros.

Li a entrevista que ele concedera ao dito jornal e fiquei ainda mais curiosa com essa personagem, que agora me surgia envolta num mistério diferente, como se tivesse levantado o véu e desmistificado voluntariamente uma parte de si, mas instigando a bisbilhotice saudável de quem quer saber mais e mais… Afinal, Frederico Lourenço também revelava ali, sem complexos de nenhuma ordem, que era homossexual (detentor de uma «divina inclinação», como ele diz), para grande assombro e desilusão do público feminino…

Fiquei com tanta curiosidade de o ler que comprei ao acaso um dos seus livros, e só depois percebi que era o segundo de uma trilogia. Asneira. Nunca a história se recompôs na minha cabeça, por ter começado pelo segundo… Mas isso não me inibiu de querer prosseguir na senda de Frederico Lourenço. Pelo contrário, quando tive oportunidade, comprei todos os livros dele que estavam à venda e ainda a sua belíssima e aplaudida tradução da Odisseia, diretamente do grego para português, trabalho que pela primeira vez acontecia, porque todas as outras traduções de que dispúnhamos no mercado eram feitas a partir do francês.

Devorei todos os seus livros de rompante. Alguns biográficos ou com insinuações e sugestões biográficas… O que é certo, é que, no fim destas leituras, eu senti-me inevitavelmente mais rica e muito próxima da personalidade e das emoções do seu autor. Estranhamente, parecia um amigo, um amigo que comigo partilhou as suas fraquezas, o seu sofrimento, o seu desespero e a grandeza discreta que daí emergiu. Um amigo da literatura que também muito me ajudou a compreender o mundo, aconselhando e incitando à luta, sem de tal facto, provavelmente, se dar conta…

Perdoem os meus amigos, porque estarão cansados de ouvir as minhas histórias repetidamente monótonas, mas não consigo deixar de partilhar com quem gosto as coisas bonitas que me vão acontecendo na vida… E reconhecer Frederico Lourenço nas suas páginas impressas foi uma emoção. Fez-me crescer interiormente e desencadeou em mim a vontade de mais saber e melhor conhecer a música de que fala, de revisitar a cultura grega e a literatura, em particular a nossa Sophia de Melo Breyner. Porque, terão sido uns versos da Sophia, segundo F. Lourenço, que lhe mudaram a vida:

 “Aqui despi meu vestido de exílio/E sacudi de meus passos a poeira do desencontro”

Pois essa é a magia da literatura!

Frederico Lourenço é um homem brilhante e humilde. E só os homens brilhantes e grandes conseguem conciliar em perfeita harmonia inteligência, cultura e singeleza.

 

(Foto DR)

Licenciatura em Estudos Portugueses pela FLUL (1996) Pós Graduação em Museologia pela FLUP (2008) Mestrado em Ensino do Espanhol pela UBI (2011)

Pub