«Amor e trevas»

por Amélia Santos | 2014.01.14 - 19:36

Acabei de ler por estes dias Uma história de amor e trevas, de Amos Oz, escritor israelita, vencedor de inúmeros prémios e galardões. Este poderoso livro preencheu alguns dos meus dias e devolveu-me mais um pouco de vida, de esperança, de futuro e de argumentos para superar a dor, para lidar com os fracassos, para vencer adversidades e para ajudar a compreender a existência humana.

É uma ficção cheia de realidade. Aviva memórias de uma família, ao mesmo tempo que nos faz sentir parte integrante dela e das suas tensões, dos seus segredos e da sua história. É um romance que se lê com a curiosidade com que se ouve um bom contador de histórias reais, vividas e relatadas na primeira pessoa. Também tem a força de um pedagogo que nos vai apresentando os factos, escrutinados pela sua audaz inteligência e perspicácia, e nos conduz ao nosso próprio caminho – ao encontro mais íntimo com as nossas fraquezas, mistérios inconfessáveis, com os sonhos e com as sombras.

Até o meu amor pelos livros, enquanto objeto físico e presença sensível, encontrou neste livro acolhimento, quando Amos Oz nos revela que o seu pai “tinha uma relação física com os livros. Gostava de lhes tocar, de os apalpar, acariciar, cheirar. Era louco por livros, incapaz de se conter de não lhes tocar, mesmo que não lhe pertencessem”. Porque, quem ama os livros entende e partilha esta relação quase sensual, sedutora e de possessão que com eles se estabelece. E não consegue substitui-los sem mágoa por fotocópias ou pelos mais eficientes ecrãs de computador ou modernas ferramentas informáticas… E também não tem especial apetência para os emprestar, porque existe uma complexa relação de pertença, de apropriação, que nos impulsiona a sublinhá-los, a escrever à margem, a riscar e que os torna ainda mais nossos e pessoais…

Amos Oz confessa-nos, e repete-o mais que uma vez, que “quando era criança, queria crescer e ser um livro. Não um escritor, mas um livro” e justifica: “podiam-se matar pessoas como formigas. Escritores também. Mas os livros, mesmo que os destruíssem sistematicamente, restaria sempre algum exemplar perdido em alguma prateleira, no fundo de alguma estante esquecida de uma biblioteca longínqua (…)” É impossível ficar indiferente a este pueril, mas sentido, desejo. Por um lado, porque Amos Oz desde cedo começou a conviver com a morte de pessoas próximas e com a sua eminência e incompreensível inevitabilidade, mas também porque nasceu rodeado de livros e precocemente entreviu o poderosíssimo saber que deles advinha, arma de combate e tantas vezes meio de defesa e de sobrevivência.

Uma história de amor e trevas, não é apenas uma, mas muitas histórias. Atreve-se a ser um pouco a história de cada um de nós, das nossas famílias, das nossas agruras e dos nossos sucessos. É uma história que provoca com tanta espontaneidade o riso, como as lágrimas de comoção. É uma história sobre um homem e sobre todos os homens. É uma reflexão sobre o povo judeu, mas também sobre todos os povos do mundo. É uma história que enobrece a simplicidade e a singeleza da vida, revelando-nos que de um pequeno espaço confinado a trinta metros quadrados, que foi a casa onde nasceu e cresceu em Jerusalém, se pode abarcar o mundo inteiro e vir a “pertencer à eternidade”. Que da experiência advinda do trabalho braçal num kibutz (comunidades coletivas voluntárias que tiveram enorme importância na formação do Estado judeu) se pode atingir o mais elevado patamar da reflexão filosófica e humana. É exemplo vivo de que a partir de exíguos bens materiais se conseguem incalculáveis resultados espirituais.

E, como se tudo isto já não fosse tanto, oferece-nos, ainda, este autor brilhantes enumerações. Poéticas. Visuais. Ritmadas. Evocativas. Musicais. Reclamam o uso da voz, como se de um poema se tratasse. São elas próprias sonoras, aliterações, onomatopeias, palavras evocadoras de pequenos mundos mágicos que povoam a imaginação de quem as lê ou as pronuncia, e com elas, e por elas, nos perdemos voluntariamente, tal como o próprio Amos nos diz a certa altura, aludindo às histórias que ouviu na sua infância: andava ” às voltas em florestas virtuais, florestas de palavras, cabanas de palavras, prados de palavras (…). O que contava eram as palavras”.

Deixemo-nos, então, inebriar pelo puro perfume poético das palavras de Amos Oz, com este brilhante romance feito de muitas trevas, que vão sendo vencidas pela poção mágica do amor…

Licenciatura em Estudos Portugueses pela FLUL (1996) Pós Graduação em Museologia pela FLUP (2008) Mestrado em Ensino do Espanhol pela UBI (2011)

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