Ainda acerca do centenário do nascimento de Vergílio Ferreira

por PN | 2016.02.10 - 22:34

Por desrazões argonáuticas, este discurso do presidente da Câmara de Gouveia, Luís Tadeu, proferido no salão nobre dos Paços do Concelho aquando da celebração do centenário do nascimento do Escritor, só agora nos chegou às mãos.

Nunca é tarde para revelar palavras com sentido e sentidas.

Aqui vo-las deixo:

 

 

“Celebrar o centenário do nascimento de Vergílio Ferreira, autor nascido em Melo, aldeia do nosso Concelho, é celebrar um dos maiores criadores da palavra e do pensamento em língua portuguesa. Assim, desde o primeiro momento que o Município de Gouveia se colocou, por dever e direito, no lugar cimeiro das homenagens que, por todo o país, têm vindo a ser programadas em honra do grande escritor. Deste modo elaboramos um extenso programa comemorativo do seu centenário, o qual se iniciou precisamente na data em que Vergílio Ferreira nasceu, em Melo, às três horas da tarde de uma sexta-feira, fez ontem cem anos.

Foi, aliás, deste concelho que Vergílio Ferreira partiu, um dia, aos dez anos de idade, para se transformar num escritor universal, lido e estudado, em Portugal e no estrangeiro, por um elevado número de leitores e académicos. A sua voz formou-a, porém, no diálogo com a montanha e a paisagem que envolve a sua aldeia natal, montanha cujo apelo escutou desde muito cedo:

Lentamente, ao apelo surdo da montanha, sinto estremecerem no fundo remoto do meu esquecimento, forças distintas com a fecundidade de um campo regado. (…) Agora que o sol se esconde, toda a serra avulta a meus olhos, deslumbrados.” (Diário Inédito: 88)

Só a montanha me fala ainda, mas não sei bem o quê. Fito-a intensamente, como se instintivamente a incitasse a explicar-se. Há um diálogo interrompido entre nós desde quando?” (Alegria Breve: 176)

Nesse diálogo privado com a montanha, Vergílio Ferreira deu corpo a uma voz universal que celebra a vida e o homem. A vida que, como a estrela do conto protagonizado pelo pequeno Pedro, brilha em cada um de nós, com maior ou menor intensidade. Ou agora com as palavras do autor de Aparição que colocámos numa das paredes da Biblioteca de Gouveia que guarda os seus livros e objetos pessoais da escrita:

Há uma voz obscura no homem, mas essa voz é a sua. Há um apelo ao máximo, mas vem do máximo que ele é. Há o limite impossível, mas é do excesso que é o próprio homem.” (Espaço do Invisível 1: 12)

Porque a noite do mundo, que está antes e depois da “alegria breve” da nossa existência, não deve ter razão. Porque há uma estrela que nos marcou, humilde “ou espetacular, feita da oculta discrição ou aberta à publicidade, alta e brilhante ou sem brilho nenhum” (Conta-Corrente 5: 249). Assim, “todo o nosso esforço deve ser o de a identificar e fazer dela o sinal do nosso percurso.” (ibidem).

Ora, a estrela que marcou Vergílio Ferreira na infância é também a nossa estrela – a que opera a “simbiose entre o Homem e a natureza, entre Gouveia e a Serra da Estrela.” Dessa ligação com o “espírito da sua terra” nasceu uma grandiosa obra literária que criou, para sempre e como sabemos, uma fascinante osmose com a sua serra da Estrela natal:

Nasci em Melo, na serra da Estrela, a meia distância entre a Guarda e Viseu. E a sensibilidade que tenho aprendi-a ali. Mas é possível que essa sensibilidade fosse não um efeito mas uma causa, que eu tenha criado a aldeia e não ela a mim. De todo o modo houve um ponto em que os dois elementos se cruzaram e é-me assim difícil separar um do outro. Fiz-me com esse ambiente mas não sei se através dele e ele foi assim o lugar ideal para me entender com a emoção nos meus livros.” (Conta-Corrente 5: 576)

Por isso é com um orgulho e gratidão idênticos ao de outras cidades europeias que homenageiam os seus grandes escritores que Gouveia celebra hoje o caminho da escrita de Vergílio Ferreira que se iniciou, em 28 de janeiro de 1916, numa aldeia do nosso Concelho e que fez dela o centro do seu mundo imaginário.