Aida

por Sofia Amaro | 2013.12.07 - 15:02

No anonimato do lugar, num canto de um café, aglomeram-se tempos, histórias inequívocas de um espaço impreciso na raia geográfica. Neste limite situam-se duas supostas fronteiras e um cenário de guerra que se excede aqui num quadro histriónico. Estes mesmos actores estão agora sentados numa mesa de café em Flagey. São dois homens que soletram negócios em árabe, talvez vindos desse contérmino limitado por shelters, de um território de ninguém, a Palestina, e um casal de israelitas, laicos, sefarditas, asquenazitas, não sei ao certo. Eles precisam o mundo, eles brincam com o filho. São cenários possíveis nesta mesa de café belga, sob a flâmula do tempo, sem o vazio de um espaço. E as horas discorrem sem argumentos, sem exaltações e querelas, num espaço agora destituído de linguagem e de tempo. A paz que se balbucia na primeira palavra, seja ela em hebreu, dzhid, aramaico, iídiche ou em árabe palestino, dialecto levantino. Todas as línguas possíveis neste lugar de impossíveis. A criança que deixa cair um brinquedo, o senhor do lado que o apanha a sorrir e lhe afaga o cabelo, num gesto que vai para lá da política, dessa esfera irremediável dos homens. Um domínio de forças que prevalece para além daquilo que nos é igual, a pele, a carne, o rosto que nos sobressalta na epifania humana.

Estou próxima desse solo de compleição sagrada, condenado ao arame farpado e construído à revelia dos direitos humanos. A infrene cartografia do Médio Oriente.

Dias antes tinha estado a debater, juntamente com palestinianos e israelitas, nomeadamente com llan Pappé, historiador e activista israelita, autor do livro The Ethnic Cleansing of Palestine, o destino da intifada. Estive entre refugiados, a única e parecendo ser a última condição destes jovens que cresceram sob a mira de uma arma e, provavelmente, habitando em retalhos de ser, num desses campos como Aida. Eles são as novas vozes da diáspora, nascidos após a ocupação, porque dois terços dos palestinianos, sete milhões num total de dez milhões, são hoje refugiados. Os mais pobres ficaram nos abrigos, os outros recolhem os vestígios, e continuam a lembrar que os mortos são para serem relembrados, que um mártir nesta causa será sempre o último grito. Os rostos desenham-se em círculos visíveis por esse mundo afora. Eles exumam os seus mortos, descobrem a trincheira provocada por uma ocupação selvática, e os outros, os judeus, reescrevem uma nova historia. São poucos como Illen, ele próprio sujeito à perseguição, acossado pelos seus patrícios. Estes são os filhos de palavras escritas numa mentira ardilosa, inconsequente, que remete a fronteira para um esquecimento absoluto. São estas faces, estes homens e mulheres, que fazem parte de uma memória coletiva, da minha récita numa mesa de café, do meu dia-a-dia, e que me conduziram a esta causa por vezes perdida na manchete dos nossos acontecimentos.

Lembro aqui que sagrados são os tempos de verdade, sagrados são os tempos sem shelters, sem colonatos, sem jovens desertores, porque sabem que o alvo é uma criança palestiniana. Sagradas são as terras sem fronteiras, sem medos, sem muros de betão. Sagrado o tempo que observei este teatro, aqui, sem ser de guerra. Resta atravessarmos juntos os muros da Cisjordânia, sem escribas, sem milagre, e olharmos para lá das montanhas da Judeia.

Sofia Amaro nasceu em Mirandela, Trás-os-Montes. Licenciada em Filosofia, pela Universidade Nova de Lisboa, traça o seu percurso académico na área das Relações Internacionais e envereda por um mestrado em Pedagogia na Universidade de Liége, Bélgica, país onde reside. Tem várias obras transversais à escrita, desde o cinema de animação, como argumentista e guionista do filme A Estrela de Gaspar para a Animanostra /RTP, à banda desenhada para a Pública (suplemento do Jornal Público) e Beraca em co-autoria com Pedro Brito, assim como outras publicações. A última como jornalista na revista belga La Revue Nouvelle. Tem uma relação umbilical com o teatro, dedicando-se várias vezes à leitura de autores como David Lescot ou como autora da peça A Cartografia do Medo. Recentemente publicou O Umbigo de Deus laureado com duas menções honrosas, o Prémio Literário Manuel Teixeira Gomes e o Prémio literário Alves Redol, e em breve termina um novo romance. Como um pêndulo continua a escrever sobre os indícios humanos, a natureza e a relação entre as esferas como um derradeiro sinal de metamorfose.

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