Agon

por PN | 2014.08.07 - 22:47

 

Porque me lembras o que nunca esqueci? Desisto de me intrometer nesse charivari tresvairado. Decido gastar as palavras. No mutismo ganho ao tempo o que o tempo quer perder. Percebo que o silêncio te assusta. Recomeças a falar num caudal confuso de palavras com arestas. Ouço o som mas recuso o sentido. Sigo-te os dedos longos, musculados, com ossos sólidos. A dança que te silva os cabelos no ar. Ouço-te nos olhos as palavras grandes. Desperta a feira dos loucos. A laje de granito que esmaga e empurra a terra para dentro das costas. O presente é um poço onde se cai. Estás à minha frente com uma capa vermelha cheirando a rosmaninho de roca. No silêncio, o silêncio perdeu a razão. Tudo é precioso de mais. Até o medo. Principalmente o medo…

“Ya ahora que estoy frente a ti / parecemos y a ves, dos extraños: / leccíón que por fin aprendi. / Como cambian las cosas los años!” – o tempo de um tango antigo – porque não rasgo esta pele de angústia que me faz suar e prega insónias nas órbitas? Calou-se o tango e em seu lugar, a pianola doida, estrídula, concêntrica, repete a escala cínica do medo. Fere-me os nervos hirtos rés aos estampidos em que cedem, rasgando com cordas de aço fino. Cerro os olhos até a dor me engolir. Quero quebrar aquela matraca de feira que gira sem cessar a lengalenga pérfida.

Se ao menos “um vento suão” soprasse sementes de acácia…