A viagem

por Patricia Maia Noronha | 2014.05.31 - 14:34

 

Iria rever as ruas quentes do trânsito, os cafés cheios de gente, lojas, montras coloridas. E, principalmente, a luz ofuscante do Tejo, a tocar em tudo. Talvez voltasse, até, a descer as escadarias rolantes que levam às entranhas do metro. Talvez subisse novamente pelos eléctricos amarelos, a chiar ruidosamente nas curvas apertadas de Lisboa.

A antecipação provoca ondas de calor no peito de Irene. A velha Irene que já nem se lembra bem de como é o mundo fora das paredes de granito, da terra molhada, das galinhas a picar o chão.

A última vez que saíra da aldeia era quase criança. Foi pouco depois do casamento. Adelino, o marido, tinha recebido uma proposta para trabalhar numa fábrica de carnes e foram os dois para a cidade, na expectativa de trocar a vida de caseiros rurais pela urbanização.

Na altura, a viagem meteu-lhe medo, lembra-se Irene. A cidade assustou-a. De braço dado ao fiel companheiro, Irene olhara tudo com uma humildade excessiva, como se estivesse rente ao chão.

“Bonita a cidade… Não é?” perguntara ele, a espantar o medo da mulher, apontado com o queixo para as pessoas cheias de pressa.

“Sim”, dizia Irene baixinho.

Se, por um lado, as luzes, a velocidade da metrópole, o burburinho das multidões lhe entoavam melodias sedutoras ao ouvido, por outro lado, sentia-se perdida naquele emaranhado de ruas onde não conhecia nada nem ninguém.

Nessa viagem, tinha-se sentido um ser menor, fazendo os possíveis para ninguém dar por ela. Olhava insistentemente as suas roupas escuras de fazenda e comparava-as às das mulheres sofisticadas da cidade. Irene tinha sentido uma vergonha que desconhecia, naquela viagem a Lisboa. Tinha desejado ter o cabelo mais arranjado, ter comprado um vestido bonito, ter uns sapatos elegantes em vez dumas socas sujas.

Fora uma semana difícil, aquela, entre o deslumbramento de lojas repletas de objectos maravilhosos e a certeza de que nunca teria dinheiro para os comprar. A única recordação em que Irene fez questão de investir algumas poupanças fora numa Virgem Maria fluorescente que brilhava no escuro. Aquela Virgem Maria ainda ali estava ao pé dela, sempre fiel durante todos aqueles anos, ouvindo as suas preces, apesar de ter perdido o brilho.

Quando Adelino concluiu que o emprego da capital trazia ainda mais suor que a vida do campo, decidindo voltar para a terra, Irene respirou fundo de alívio. Ansiava regressar à lavoura, passear os bois pelos caminhos estreitos de pedra. Acender a lareira da casa onde, com uma panela de ferro sobre as chamas, cozinhava sopas, cozidos, guisados. Ansiava encher o peito com os cheiros da terra.

Mas, ao apanhar a camioneta, enquanto a cidade ficava cada vez mais para trás, prometeu a si própria voltar um dia. E prometeu que, dessa vez, iria preparada para se entregar à cidade.

Sim, tinha sido há muito tempo essa viagem. O seu homem tinha morrido há quantos anos? Quinze, vinte? Ou seria mais? A verdade é que Irene já não se lembra da sua própria idade. Faz um esforço quase físico para se lembrar de tudo isso. Um esforço tal que uma nova ruga surge sobre os olhos. Lembra-se bem, isso sim, da morte dele. Do chão a fugir-lhe dos pés. Dos sinos impiedosos a anunciar o fim. O cortejo de gente entre a missa e o cemitério. A voz solene do padre

 

Ainda que tenha de andar por vales tenebrosos, não temerei nenhum mal, porque Vós estais comigo

 

e depois as vozes em uníssono:

 

E habitarei na casa do SenhorPara todo o sempre.

 

enquanto o ruído da pá selava com bocados de chão o início de uma viagem irreversível.

O chão de Irene era agora o tecto de Adelino. Apesar disso, Irene repetia dentro da sua cabeça que a alma dele não estava ali enterrada mas sim a caminho de uma vida eterna no céu. Da paz perpétua onde ela um dia o iria reencontrar.

Tão fraca é a memória que há muito tinha esquecido a promessa de regressar a Lisboa. Mas chegara a altura de a cumprir. E estava contente. Amanhã iria de camioneta até à vila mais próxima. Ia ser a única passageira nessa viagem, já que naquela aldeia por detrás dos montes só restavam duas pessoas: a própria Irene e Pedro, o pastor. Depois, da vila mais próxima, seguiria até à grande cidade.

Apenas ela e Pedro naquele lugarejo. Nunca teria imaginado, se lhe tivessem perguntado anos atrás, que a aldeia onde a matança do porco reunia dezenas de famílias em festa, onde as vindimas eram pretexto para longas noites de baile sob as estrelas, onde crianças de todas as idades corriam o campo em busca de pirilampos, seria um dia habitada apenas por ela e outro velho sem idade.

Agora, aquela terra parecia um lugar amaldiçoado. “Só pode estar amaldiçoada, para todos terem fugido”, murmura Irene para si mesma. Talvez se tivesse tido filhos… Mas as três gravidezes que teve foram interrompidas involuntariamente. Das três vezes carpiu os filhos nunca nascidos, enquanto Adelino a consolava:

– Temo-nos um ao outro e à nossa família… temos o campo, os animais. Estamos bem assim. É a vontade Dele e, portanto, a nossa também.

Podia ser a vontade Dele, mas a de Irene era outra. E depois, a família, os compadres da aldeia, todos, um por um,tinham-se ido. Enterrados, desaparecidos, emigrados. A sua única irmã, mais nova que Irene, e a sua única esperança de ver sobrinhos a crescer, tinha sido como um eclipse. Fugindo da lavoura, entranhou-se na cidade, de onde enviava notícias escassas que, pouco tempo depois, se tornaram inexistentes. Restaram o campo e os animais.

A ausência de sons humanos tornou-se tão omnipresente que por vezes, Irene, ouve o vento chamar o seu nome entre o milho crescido. E há dias em que constrói diálogos com compadres que já morreram. É a eles que conta os seus segredos e deles que ouve as únicas piadas. Outras vezes assiste, com sobressalto, à passagem de sombras humanas e familiares. Mas percebe, depois, que são sombras de vinhas ou árvores a crescerem descontroladamente, sem as tesouras da poda.

Irene prepara cuidadosamente a viagem à metrópole. Para o seu regresso a Lisboa, decide despir as vestes pretas com que cobriu o corpo desde a morte de Adelino. Iria usar o vestido de seda roxa com flores estampadas que tinha usado na última festa da aldeia e que ainda lhe servia, se encolhesse um pouco a barriga. Sabia que ele aprovaria.

No espelho gasto da divisão que serve de casa de banho, Irene aperta a cabeça entre as duas mãos e puxa o cabelo branco para trás confirmando, vaidosa, que fica mais bonita. Agora, que tudo está preparado para o caminho, inclusive um farnel de broa e fumeiro, Irene aquece água na lareira para um banho.

A panela ferve ao lume e Irene sente um olhar sobre si. É o Pedro-pastor. O Pedro-pastor às vezes dorme em casa da Irene. O Pedro-pastor às vezes dorme com a Irene. Juntam-se quando calha, para se aquecerem por dentro.

Irene não tinha contado a Pedro que ia embora. Temia a reacção do velho. Pedro sempre fora uma espécie de lobo. Do padre à bruxa da terra, todos o viam como um ser diabólico. Talvez por Pedro conviver mais com a montanha e os bichos do que com as pessoas. Não punha os pés na missa e havia até quem jurasse tê-lo visto a amar as suas ovelhas como os homens amam as mulheres.

Irene nunca acreditara em nada disso. Gostava do silêncio de Pedro e do seu cheiro a lã e ervas. Mas Pedro era imprevisível. Tal e qual a tempestade, podia aparecer sereno como o Sol e de repente soltar relâmpagos de raiva. Um dia, matou o próprio cão com a caçadeira, e chorou convulsivamente quando o enterrou. Nunca explicou a ninguém porque o tinha matado. Foi desde aí que todos o começaram a evitar.

Por isso, Irene tinha sempre alguma cautela e decidira manter aquilo da viagem em segredo. Mas agora que Pedro observava pasmado o seu banho e as roupas quase novas que tinha posto em cima do banco, teria de explicar. “Há festa?”, perguntou o pastor numa voz inaudível. “Não…” respondeu Irene. E depois contou ao que ia.

Surpreendeu-se a si própria com o motivo da viagem. No entusiasmo dos preparativos, quase tinha esquecido que iria ao funeral da irmã. Durante anos, pedira a Deus para ver novamente alguém da sua família. Mas, na prece, esquecera-se de pedir para reencontrar a sua gente com vida.

Que se pode corrigir agora? A verdade é que ela, Irene, ainda está viva. Despediu-se com carinho de Pedro e a promessa de um breve regresso, terminou o seu banho e adormeceu, pedindo perdão a Deus pela alegria com que, de manhã, faria aquela viagem.

 

Edicao outubro 2011

Portuguesa, natural de Lisboa. Sou jornalista e também gosto de escrever ficção. O meu livro de contos "Brilho Vermelho" foi vencedor da menção honrosa do prémio Alves Redol 2009. Tenho vindo a publicar esses e outros contos em revistas eletrónicas de Portugal e do Brasil.

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