A sensualidade já só vale 1€

por Graça Canto Moniz | 2014.01.14 - 19:46

Creio não estar a dizer uma imbecilidade quando afirmo que nos anos 80 houve uma tendência cinéfila para o revivalismo do Barroco. Essa tendência – além de me ter trazido a mim ao mundo, a fã de cinema mais “barroca” da década – trouxe também a maravilhosa obra de Milos Forman, “Valmont” (1989), baseado no polémico romance de Choderlos de Laclos (1782). Para quem gosta do kitsch que Hollywood imprime em alguns adaptações literárias ao cinema, aconselho não o “Valmont” do Milos mas, antes, “Ligações Perigosas” (1988), do Stephen Frears. Quem é Milos Forman? É, entre outras coisas, o realizador do mega sucesso dos anos 70 “Voando sobre um ninho de cucos” e “Amadeus” (1984).

Apenas para lhe aguçar o apetite: o enredo diz respeito a dois antigos companheiros (de, digamos, cama-e-apenas-cama) seriamente adeptos de jogos sexuais. Ela? Viúva. Ele? Playboy. Tudo isto se passa no ambiente de libertinagem da aristocracia francesa do século XVIII. Os franceses, esse povo tão adepto do deboche – a começar pelo actual presidente, ao que consta. Aliás, até já li algures que a trama de Hollande vai dar origem a um filme cujo título será “O Presidente, a amante e a máfia”. Adiante.

A perversa Marquesa de Merteuil (a deslumbrante Annette Bening) e o galante Visconde de Valmont (Colin Firth) representam as palavras que caracterizem o filme do início ao fim: ócio, aparência e libertinagem. O “perigo” não consta no título do filme de Forman mas está lá, sente-se e quase se respira. Ali não há subtilezas nem lugar a retóricas orientadas por eufemismos: quando a Marquesa instrui Valmont é curta e grossa, “eu quero que tomes a virgindade dela”. Nada mais, nada menos.

Este é um filme que, infelizmente, tem sido desvalorizado e menosprezado. Comprei-o, imagine-se, no Jumbo de Viseu por apenas 1€. E não digo isto de ânimo leve… sobretudo tendo presente o caso grave de sensualidade de Colin Firth que, se as leitoras mais “barrocas” se recordam, a páginas tantas na sua carreira, aparece incrivelmente vestido com uma túnica branca molhada na interpretação da personagem de Jane Austen, Mr. Darcy, em “Orgulho e Preconceito“. Dizem-me que é a moda do low cost. Ou é da crise. Mas se a sétima arte não devia ser low cost (possibilidade?) a sensualidade jamais poderá ser (declaração!).

Graça Canto Moniz é filha do ano revolucionário de 1989 mas é, ela mesma, muito pouco dada a revoluções. Jurista e devoradora de livros, séries, filmes, paisagens e viagens.

Pub