A PROPÓSITO DE “UMA CONVERSA COM DEUS”

por Alberto Correia | 2015.03.22 - 21:39

 

Reflexão quaresmal

Foi por acaso (se acasos há!) que reabri hoje uma velha Revista (Expresso, 14/DEZ/13) e li, não o havia feito ainda, um sugestivo texto de José Tolentino de Mendonça de título “Uma Conversa com Deus”, uma conversa ficcionada onde, a certa altura, o interlocutor faz a seguinte pergunta a Deus: – Onde é que mora?

Resposta de Deus:- Moro onde me deixam.

E vem então ao jeito de fábula, a seguinte história: Houve um homem que um dia pediu a Deus Gostava que viesses a minha casa e a quem Deus respondeu Está bem, amanhã irei a tua casa.

Foi o homem para casa, arrumou de seu jeito os móveis dos salões, dispôs as cadeiras, acendeu todas as luzes e logo de manhãzinha postou-se nas escadas esperando que Deus chegasse.

Não tardou que apercebesse um mendigo ou um peregrino no regresso de Compostela, cansado da viagem, carecendo de um banho, de uma malga de caldo, de um leito talvez.

Dá-me abrigo, disse o peregrino.

Não posso. Estou à espera de Deus, respondeu o homem. E o peregrino demandou porta vizinha.

Era meia manhã e um rapazito pobre do bairro estendeu o bracito pela janela aberta para apanhar uma maçã das que enchiam sobre a mesa o porte de uma taça.

É só uma, disse o rapazinho quando o homem se levanta para travar-lhe o braço.

Não pode ser. Estas maçãs são para Deus que está por aí a chegar.

Hora sexta, talvez, e chega um seu irmão de sangue que morava numa terra vizinha, um irmão que ele estimava, costumava ele dizer. (Alguns me disseram, mais tarde, que não era verdade).

Algo acontecera e o irmão precisava de ficar essa noite em sua casa.

Não podes ficar. Estou à espera de Deus. E o irmão retirou-se, magoado.

A noite chegou sem que o homem se tivesse apercebido da aproximação do seu Deus. E, já recolhido, indignado porventura, clama:

– Como é que me prometeste e não cumpriste. Porque é que me disseste que me visitavas?

E Deus, talvez triste, lhe respondeu:

– Por três vezes, hoje, tentei visitar-te e todas as vezes me disseste que não.

* * *

Tem esta narração o jeito de parábola e, ao lê-la lembrei-me de uma história que comigo aconteceu, história longa que está ainda longe, parece, de o fim dela se ver. Trago-a aqui porque nela leio, no comportamento de alguns de seus actores, a hipocrisia que habitava o coração do homem da anterior parábola.

Quase podia começar assim: – Eu tinha um “amigo” de longa, longa data que, por tão próximo me sentir, me passou a chamar “irmão”.

E irmão eu lhe chamei, que irmão não tinha. O único irmão que eu tive morrera pequenino, eu ainda não tinha nascido, chamava-se Franclim, morro de saudades dele, que falta me faz nesta hora o seu ombro de irmão.

O tal irmão que assim se confessava, esse irmão que eu também assim chamava de todo crendo na raiz deste conceito, houve um dia, me traiu e agora penso que não era verdade o que ele dizia quando se dizia meu irmão.

Este “amigo” que até se disse meu “irmão”, num dia de sexta-feira santa,  que assim pode ser chamado, dirigiu-se ao tribunal, quis ser recebido por “Pilatos”, o juiz, a quem entregou um rolo com quase mil laudas, todas escritas como acusação.

Passou os olhos o juiz sobre o texto demorado:

Que mal, afinal, lhe fez o seu “irmão”? Não sei se perguntou assim.

E o tal “irmão” e os demais que ele levou clamaram simplesmente:

Crucifica-o!…

Por estranho que pareça todos se diziam, quase todos, crentes em Deus. Alguns diziam-se mais crentes na humanidade!

Só que no coração de todos eles morava, de raiz, tal qual no homem da história, a mais vil hipocrisia.

[NOTA: os meus verdadeiros amigos sabem exactamente de quem falo).