A Propósito de… um Prefácio (Palestra no Auditório Aquilino Ribeiro – Sernancelhe)

por PN | 2014.04.07 - 10:16

Nota Prévia: Esta comunicação foi feita em Sernancelhe, quando da presença do professor universitário brasileiro, Rodrigues Filho e a propósito de um prefácio de Carlos Malheiro Dias em “Jardim das Tormentas”, 1913.

 

(Mensagem do Sr. Engº Aquilino Ribeiro Machado: “Faço votos para que a passagem do Professor Rodrigues Filho pela Beira, se revista do sucesso que habitualmente acompanha os intelectuais do país irmão quando, com o seu saber e a sua cordialidade nos vêm ensinar a arte subtil da boa convivência e da inexcedível simpatia.”)

 

A primeira obra de Aquilino Ribeiro a ver prelo é Jardim das Tormentas, cuja 1ª ed. data de1913.

Desde Junho de 1908 que Aquilino vive o seu 1º exílio em Paris. A integração não é fácil e a desilusão, face ao mundo e vivência que encontra, sobrepõe-se-lhe.

É neste período que intenta escrever essas desanimadas impressões sob o título “Hilário Barrelas em Paris. O que viu e ouviu”.

O que não se concretiza, em virtude do gradual entrosamento na vida académica da Cidade das Luzes, que o reconcilia com as frustradas expectativas, et d’un coup, tão de acordo com a sua vitalidade, o põe a bulir.

Em 1909, traduz com Raul Pires “A Anarquia – fins e meios”, de Jean Grave.

Escreve para vários periódicos portugueses.

Com um curto intervalo para vir a Lisboa em 1910, saudar a República, que entretanto lhe retirara o libelo de proscrito e algumas viagens à Alemanha (1912 e 1913), vive em Paris durante seis anos.

Matricula-se na Faculdade de Letras da Universidade da Sorbona, onde estuda Filosofia e Sociologia.

Tem como companheiros conterrâneos, entre outros, os pintores Leal da Câmara e Manuel Jardim.

Conhece a jovem alemã Grete Tiedmann com quem casa em 1913.

É um frequentador, quase permanente, da Biblioteca de Sainte-Geneviève, detentora de um legado precioso de bibliografia portuguesa.

Neste espaço de estudo, reflexão e leitura escreve Jardim das Tormentas, publicado pela Livraria Aillaud, de Paris.

A maioria das obras de Aquilino Ribeiro é portadora, ora de prefácio, de reconhecidos vultos da época, ou dele próprio, em jeito de Dedicatória / Agradecimento ou Esclarecimento, ora de pos-fácio, ora até dos dois.

É o caso de Jardim das Tormentas, em cujo frontispício entalha o sentir:

À Grete

No meu trabalho sombra doce e tutelar

… De seguida, comportando um prefácio longo de quinze páginas, de Carlos Malheiro Dias, que começa, sem equívocos de destinatário:

Ao Sr. Aquilino Ribeiro… e se remata com estas palavras: As letras portuguesas possuem hoje mais um admirável artista, que se incorpora na dinastia dos grandes escritores. Eu me considero feliz, sr. Aquilino Ribeiro, de admirá-lo e de estimá-lo, pois são para mim inefáveis prazeres – e tão raros vão sendo –, o poder admirar e o saber estimar.

Lisboa, 1913. Carlos Malheiro Dias.

Neste prefácio, entre plurais considerações acerca do revolucionário que é Aquilino e o monárquico conservador que permanece o subscritor, o panegírico espraia-se até ao ponto de Carlos Malheiro Dias afirmar:

O Sr. Aquilino Ribeiro é, essencialmente, estruturalmente, um aristocrata. Para o afirmar com esta segurança não me é preciso consultar a sua árvore genealógica.

E, efectivamente, no sentido etimológico da palavra, Malheiro Dias é premonitório e estava redundantemente certo, pois mais que alguém, Aquilino Ribeiro representa o poder de uma elite intelectual e humana que poucos vultos coetâneos ofuscarão.

É ainda neste prefácio que Malheiro Dias dá o mote, que depois vai ser retomado e glosado por Câmara Reys, no jornal Luta, de 11 de Abril de 1914 – crítica essa em edição posterior acrescida à obra, na forma de pos-fácio.

O mote, ao cariz regionalista desta primicial obra do escritor, assim entoado, em 1913:

O escrito que traz à literatura portuguesa esses quatro contos que são “À Hora das Vésperas”, A Pele do Bombo”, “Tu não furtarás” e “O Remorso”, fica-lhe desde esta hora devendo um romance regional onde formigue, reanimada pela vida do seu talento, toda a comparsaria rústica da Beira (…)

De facto, meses após, já no ano seguinte, Câmara Reys escrevia, nessa linha primordialmente esquissada por Malheiro Dias:

Nos contos regionais, Aquilino Ribeiro ergue-se, por vezes, a um estranho lirismo de epopeia campestre (…)

e mais adiante repete:

Nos contos regionais escreve Aquilino Ribeiro as melhores e mais sentidas páginas. Dignifica sem disfarçar nem enfeitar, a grosseira animalidade dos humildes e engrandece, até às delicadezas do sentimento mais doloroso, os sofrimentos e as vagas emoções dos irracionais.

A seguir reitera:

A linguagem, a adjectivação, os diálogos, a evocação das imagens nas falas do povo, e a sua prosa, em que os termos regionais se ajustam tão pitorescamente (…)

E, enfim, alcança o cerne desta perspectiva, rematando:

Mas não erraremos talvez muito, supondo que as mais belas criações de Aquilino Ribeiro serão as obras em que ele faça viver, sofrer, trabalhar e rir a gente da sua aldeia beiroa, aninhada entre o Marão e a Estrela, lá onde a rudeza dos homens se quebra numa poética melancolia, evocando saudosamente as tradições remotas dos pastores errantes.

É deste pressuposto que faz escola, a partir do escrito deste opinion maker da época, o cunho regionalista que se vai colar a Aquilino, o qual, se algum fundamento poderá colher nalgumas obras iniciais do escritor (contextualizado na sua prolífica e variada produção de sete dezenas de títulos), persistiu, infundadamente, obliterando, por um qualquer comodismo fácil, o cunho universalista a que entretanto a sua profusa obra se guindara.

Mas isto é outra conversa, que nos afastaria, de forma inexorável, do intuito que ora aqui nos traz:

Que é o Prefácio de Terras do Demo, romance publicado em 1918, em Lisboa, onde Aquilino, ao tempo, exerce por três anos funções docentes no Liceu Camões.

É nessa obra, no decurso de quatro magnas páginas introdutórias, que Aquilino Ribeiro homenageia o prefaciador do primeiro título, manifestando o seu reconhecimento a Carlos Malheiro Dias, a quem começa por chamar de

Meu querido amigo e príncipe das letras,

para mais à frente referir:

Foi a sua mão forte e fidalga que me guiou ao proscénio das letras;

e se dar a este remate:

Digne-se o meu amigo aceitar esta obra como homenagem ao seu talento e tributo à sua amizade e estarei forro de minhas penas.

No espaço entre in e excipit, Aquilino dá, ainda, razão ao regionalismo que se lhe apega, escrevendo:

Estilizei, como não, pela necessidade de fugir à melopeia e à pouca extensão do dizer popular: mas o meu lexion é o deles; as minhas vozes ouvi-lhas; sou mais cronista que carpinteiro de romance; quereria até que este livro se embrulhasse num pedaço de serguilha em que eles se embrulhavam.

Mais à frente culminando:

A madre é na aldeia; ali está pura a língua. Por aqui se salva, se não por outros predicados, a arte regionalista.

Dêem-me licença para introduzir uma notícula: O que é a serguilha? Termo oriundo do castelhano jerguilla ,  era um tecido grosseiro feito de estopa e lã. Aquilino refere-o várias vezes. Por exemplo: Mas os olhos dela fitam-se na gente com languidez e, por baixo da serguilha, o seio ainda não mirrou de todo (…) in O Homem que Matou o Diabo (1930). Outro dos tecidos muito usados, era o burel, tecido grosseiro feito de lã escura, acastanhada. Por exemplo, in Malhadinhas: Barrelas vestia-se com a estopa e o linho dos seus Linhares e o burel apisoado das próprias ovelhas. E já agora, apisoado, porquê? Vocábulo oriundo de pisar mais o aumentativo ão, moinho onde se apertava e batia o tecido, para o fechar e tornar, assim, mais resistente e impermeável ao frio e à chuva. Ainda conheci o último pisoeiro de Barrelas, o ti Mário de Fráguas, que outrora foi frávegas ou frádegas, com o moinho à ponte, junto ao leito do Rio Paiva, das pintalgadas trutas…

Por este rio abaixo, não tardaremos nós em Aveiro, e por aqui, nado em Trancoso, na Ponte do Abade entrado e no Douro despejado, ali para os lados de Tabuaço, corre o Távora, dos escalos, das vogas, das eroses e das fardetas…

Voltemos ao assunto.

 

II

 

Mas afinal, quem é Carlos Malheiro Dias?

Nasceu no Porto a 13 de Agosto de 1875, uma década antes de Aquilino.

Fez seus estudos no Colégio da Roseira, em Lamego, como Aquilino, iniciou o curso de Direito na Universidade de Coimbra e licenciou-se em Letras na Universidade de Lisboa.

Sendo filho de pai português e de mãe brasileira, permita-se-me  aqui um aparte:

Senhor Pofessor José Maria, foi em sua atenção e por singela homenagem que fui ressuscitar este vulto, tão português quanto eu, e tão brasileiro quanto o meu estimado amigo, e deste modo, à colação, chamar as culturas destes dois tão comuns povos…

Carlos Malheiro Dias dividirá pelos dois países a sua produção literário/jornalística, desde o romance naturalista “A Mulata” (1896), a polémica história da prostituta do Rio de Janeiro,  Honorina, de tão consentâneo nome, e de Edmundo, (o parente mais próximo de imundo), o literato nevrótico, saído de “uma corja de nevrotados”, no fundo, nefelibatas pares de Edmundo e como ele adoradores de Musset. Esta obra é tão violentamente  hostilizada pela crítica brasileira, quão duramente Malheiro Dias hostilizou o povo, a magistratura, o exército, a imprensa, a literatura e os literatos que fustiga, tais como Olavo Bilac e Luís Murat, por exemplo.

Foi tão mau o acolhimento deste romance, que o seu autor, durante muito tempo, o retirou da sua bibliografia.

Mas é também neste país que publica em 1921 a grandiosa “História da Colonização Portuguesa no Brasil”, que colheu, desta feita, favores e aplausos unânimes da intelectualidade local.

Foi este homem monarca convicto, ao invés de Aquilino, um republicano de primeira água.

Privou, inclusive, intimamente com o Rei D. Carlos, que foi morto, entre outros, por um compadre de Aquilino, Manuel dos Reis Buiça, seu correligionário na Carbonária desde 1907, movimento constituído por grupos subterrâneos, era a designada tropa de choque da revolução,

Porém, tais divergências de opinião, não o impediram, pouco após a Proclamação da República, de prefaciar a referida obra, baseado num fundamento supra partidário exemplaríssimo, o de considerar, com ampla visão, Aquilino de “primogénito do futuro”, ciente da altíssima genialidade literária que despontava, e à qual, este esteta quis dar o seu aval de Corifeu das letras da primeira década do século XX, quando então pontificava.

Exila-se no Brasil como Aquilino se exilou em França, por motivos absolutamente antagónicos.

Em 28 de Maio de 1926, o fascismo é-lhe propício e o Estado Novo chama-o em 1935 para ocupar o alto e delicado cargo de embaixador de Portugal em Madrid, que a já débil saúde lhe impede de assumir.

O mesmo Estado Novo que persegue Aquilino, declarado opositor ao regime de Salazar, o que não obsta ao convite dos seus pares, para neste ano de 35, ser eleito sócio correspondente da Academia de Ciências de Lisboa e publicar a sua 19ª obra, “Quando ao Gavião Cai a Pena”, escrita na sua casa da Cruz Quebrada, concluída em Outubro desse ano, na Casa de Soutosa e dedicada ao seu velho amigo dos Alhais, António Maria Monteiro – cujo  descendente mais notável foi o Dr. Álvaro Monteiro, colega e amigo de meu avô e que ainda tive o gosto de conhecer – a  quem acarinha, trazendo às suas páginas, também, o país irmão, e por isso, que mais não fosse, aqui cito:

Há obra de vinte para vinte e cinco anos deslumbrava V. a minha imaginação juvenil com anedotas das cinco partidas e fábulas do país tupi em que os bichos falavam mais discreta e amenamente do que em Esopo. Regressara pouco antes da Amazónia e tudo o que vira e ouvira descrevia com um sainete e uma arte que fariam a glória de um homem de letras. Da terra assombrosa trouxera essa veia inesgotável e até o jeito despachado, com um tudo-nada de brusquidão do caboclo, que ainda conserva com a barba branca. Através da floresta milenar, à beira do “rio mais considerável da terra”, infinito, mais infinito, devia ter sonhado e do sonho entranhar-se-lhe na alma o idealismo puro de que é cavaleiro.

Adiante acrescenta:

Presumo que V. teve ainda uma influência apreciável na evolução do meu sentir político. Havendo nascido com alma republicana, é natural que a sua dedada se imprimisse na cera branda que eu era. Por esta alameda fui parar três vezes ao exílio, mas não me choro. Não é por vício de conformidade que hei de dar contas a Deus.

Malheiro Dias é um naturalista ortodoxo. Seguiu fielmente o Émile Zola, de Nana e do Germinal. Segue depois o Paul Bourget, de Um Divórcio, O Discípulo, Um Coração de Mullher… e isso, temporalmente, datou-o e foi-lhe fatal na pertinência actual.

Aquilino, por sua vez e a seu jeito, não segue escola alguma, e di-lo deste lapidar modo:

De pena na mão procuro ser independente, original, inteiriço como um bárbaro.

Ou, como refere a Manuel Mendes, em 1960:

A minha obra sou eu próprio!

Quanto a estilos, é também claro:

Em matéria de estilo continuo partidário dessa viciosa e desconcertante velharia: dizer do modo mais correcto, simples, ático, ameno e pessoal o que tenho a dizer.

Malheiro Dias escreveu A Mulata (1896), Filho das Ervas (1900), Os Teles de Albergaria (1901), Paixão de Maria do Céu (1902), O Grande Cagliostro (1905), A Vencida (1907), As Inimigas (1913) e coordena a já citada História da Colonização Portuguesa do Brasil (1921).

No Portugal dos derradeiros anos da Monarquia, é um caso seriíssimo de sucesso.

Foi ainda director da Ilustração Portugueza, onde Aquilino colaborou.

No Brasil, durante o exílio, fundou e dirigiu a célebre revista carioca O Cruzeiro. Sendo eu miúdo, esta revista era assinada em casa de meus avoengos oriundos do grande porto de Santos, essa enorme porta do Brasil. Recordo-me de abrir correndo a revista para ler o cartoon, O amigo da onça. Alguém se lembra deste paradigma do humorado cinismo?

Há episódios que são do êxito de Malheiro Dias bem marcantes:

Aquando da dramatização da obra O Grande Cagliostro, em 1905, D. Carlos que assistia à estreia, condecora-o com a Comenda de Santiago que tira, em amplo gesto, do seu próprio peito.

Em jeito romântico-trágico, quando falece, a 19 de Outubro de 1941, aos 66 anos de idade, será com ela sepultado, dando cumprimento a um prévio anseio.

Por seu lado, Aquilino, em 1906, de parceria com José Ferreira da Silva e impulsionado por outro revolucionário, Alfredo Costa, escreve um romance em fascículos semanais, a 30 réis a peça, cujo protagonista é D. Carlos, e o enredo, seus ilícitos amores com A Filha do Jardineiro, acrescento eu, bela jovem de quinze anos filha de um criado da Tapada das Necessidades, uma clandestina obra, à mão distribuída pelo Bairro Alto, Alcântara, Alfama, Mouraria, onde o copioso e curioso povo circulava, de preferência ao Terreiro do Paço, onde o sinistro João Franco era mais soberano que o rei, decerto pagando com o Aljube, a quem, por distracção lhe tentasse mercar o opúsculo…

Começámos a propósito de um prefácio…

Este longo rol de factos avulsos não visa descobrir o que não existiu.

As afinidades electivas entre estes dois homens, tão diferentes de ideário, têm na comum honradez o seu ponto mais tangencial, seguido das letras que cultivaram com denodo, do jornalismo que praticaram como missão, dos plurais exílios que sofreram por convicção a causas integralmente contrárias, da admiração e do respeito que um pelo outro souberam nutrir, gerado pela devoção à mesma arte: a da escrita.

Hoje, quase um século volvido sobre muitos dos eventos aqui aflorados, o “sobrevivente do passado” que Malheiro chamava a si próprio, e o “primogénito do futuro” que via em Aquilino, encontraram-se aqui, em Sernancelhe.

O tempo, dilucidador de quase todas as vicissitudes e intricados destinos, enleou as suas heras na obra do monárquico naturalista. Aqueles que são dados à botânica sabem que a hera arruína mais que sustenta, as pedras do muro a que se lia.

No prefácio de Terras do Demo, escrevia ainda Aquilino:

O artista da Paixão de Maria do Céu, o jornalista que, cá e lá, guarda em sua altura a honra das letras portuguesas, é dos primeiros que admiro. À consagração que o Brasil acaba de lhe prestar, eu junto, pois, este ramo de maias, colhidas na Serra, às mãos fartas, que lhe levem aldemenos aroma e cor que não sejam fáceis de copiar por florista ou tintureiro.

E porém, M.D. anacronizou-se…

Hoje e aqui, sempre na Terra Mãe homenageando Aquilino Ribeiro, prestemos mais este tributo à sua memória lembrando aquela que Aquilino apodou de mão forte e fidalga, que de pena decidida, lançou a argamassa perene, esteio do limiar de carreira de um escritor hoje intemporal, cada vez mais actual, e até sujeito a um reganho, todos os dias crescente (e estarmos aqui bem o prova), de interesse e de procura, por parte do leitor comum, do crítico hábil e do académico sábio.

Em memória de Carlos Malheiro Dias, façamos aquilo que de melhor se tributa a um homem de letras: revisitemos, já amanhã, se possível, um dos títulos da sua obra!

Concluo, divulgando o teor de uma carta escrita por Malheiro Dias a Aquilino Ribeiro, gentilmente cedida para esta ocasião por seu filho, Engº Aquilino Ribeiro Machado, neto de Bernardino Machado, que foi o 3º e 8º Presidente da República eleito, de 1915 a 1917 e de 1925 a 1926, sendo destituído pela Revolução Militar de 28 de Maio deste ano, que levará à instauração do Estado Novo, tão auspicioso soprador de ventos a Malheiro Dias e vendavais a Bernardino Machado, que conduz ao exílio, em Paris, onde Aquilino (também exilado) trava conhecimento com aquela que virá a ser sua segunda esposa: Jerónima Dantas Machado…

(e não se admirem destas urdiduras bizarras do destino, entretecidas em certas vidas humanas, pois até as maiores películas de ficção e as mais enoveladas teias dos romances, afinal, não são mais do que inspiradas no viver de certos homens…!).

Reza assim, a dita carta:

Querido e Glorioso Amigo

Devolvo-lhe o meu pobre prefácio de feiticeiro. Quizesse poder refazel’o, mas seria vaidosa e inútil pretenção tentar afinal’o pela alta belleza de sua forma.

Um forte e já saudoso abraço do seu

Mto. Admirador e Mto. Amigo

Carlos Malheiro Dias

7. 3. 923

Nota final:

Afigura-se-me intrigante esta data de 1923, ano posterior ao surgimento de Estrada de Santiago que comporta a novela O Malhadinhas; é ano da publicação da Conferência sobre Anatole France; e ano do crescente prestígio de Aquilino, porém, uma década volvida sobre a 1ª edição de Jardim das Tormentas.

Que pobre prefácio de feiticeiro será este, afinal?

Já depois de ter alinhavado estas palavras ora lidas, vali-me do exemplar privilégio de ser aturado pela sempre amável paciência e sapiência do maior repositório de memórias de AR: seu filho engº Aquilino Ribeiro Machado. E escrevi-lhe solicitando esclarecimento sobre as datas. Lesto me respondeu no dia 06 de Julho, pelas 23H50:

Prezado Paulo Neto

A data do bilhete do M.D. reportava-se a uma nova edição do Jardim das Tormentas, que, na ocasião, meu pai estava a preparar. O prefácio, que o M.D. não se considerava em condições de alterar, era obviamente o que ele tinha escrito para a 1ª edição de 1913.

Um abraço do seu:

Aquilino

Termino chamando a Vª atenção para este hipotexto que é um Prefácio. No fundo, começa sempre por ser um paradoxo temporal, porque nunca é escrito previamente, o pré factum, e seguidamente, se analisado em pormenor, na vastidão inúsita e nem sempre visível que comporta, além do preciosíssimo adjuvante que se revela para o conhecimento da vida destes actantes, da época vivida e das relações entretecidas, quase se transforma numa outra urdidura que flui paralelamente à teia da ficção, o hipertexto em causa.

É tudo. Ou antes, é o princípio de tudo…

Da minha parte, a todos os presentes, o meu muito obrigado por terem vindo e terem tido a paciência de me ouvir.

Paulo Neto. Sernancelhe, 08/07/09.