A propósito de leitores e escritores!

por Ana Albuquerque | 2016.11.21 - 22:21

George Steiner, num dos seus múltiplos ensaios, afirma que quem leu A Metamorfose de Kafka e foi capaz de se olhar ao espelho sem se sentir incomodado sabe ler no sentido técnico do termo, mas permanece analfabeto.

Nesta afirmação estão implícitas duas atitudes de leitura: uma que envolve riscos, porque nos torna vulneráveis; outra, tecnicamente correta, mas incipiente pela ausência de efeitos. O leitor de um texto literário, no seu encontro com o texto e com o autor, não volta a ser inocentemente o mesmo.

A verdadeira leitura é a que propicia o aprofundamento do “eu”. Há livros que nos penetram de tal forma que nos impõem mudanças, recapitulações ou, como diria Vergílio Ferreira, “aparições de nós a nós próprios”. Alguns dão-nos tantos safanões que precisamos de tempo para nos refazermos do susto ou do deslumbramento. O leitor não é ignorado pelo autor, mesmo quando este busca a autocatarse ou escreve sob impulsos de ordem confessional. O autor não ignora o leitor, antes o procura. A publicação da obra, as notas, os prefácios, todos os elementos paratextuais configuram esta busca, este diálogo in absentia.

No plano da teorização literária, nem sempre se atribuiu uma função de relevo ao leitor. O biografismo romântico e o historicismo positivista privilegiaram o autor empírico; o formalismo hiperbolizou a mensagem; o estruturalismo polarizou a atenção no uso do código linguístico. Só com o desenvolvimento da chamada “estética da receção” se valorizou o papel do leitor. De acordo com esta estética, a historicidade de quem lê não pode nem deve ser anulada ou desqualificada. O texto só se constrói na sua fruição por um sujeito. O texto precisa do leitor para se concretizar.

Então, o caminho deve ser o da síntese constituída pela tríade autor, texto, leitor. Um texto literário é uma realidade poligonal, criada, consciente ou inconscientemente, por um autor que é preciso defender. O autor, de um modo ou de outro, está inscrito no seu texto que, ao ser analisado e interpretado por um leitor, se enriquece. Contudo, não ignoramos que, como objeto de arte, nunca está completamente decifrado, nunca está totalmente esclarecido.

Tendo consciência das dificuldades do ato de produção e de receção do texto literário, pelas potencialidades que comporta, faz sentido que interroguemos a origem dos termos autor e escritor, dois conceitos que, embora parecendo semelhantes na forma, são distintos no conteúdo. Do latim auctor é aquele que está na origem de algo, aquele que “faz produzir e crescer”. Não é simplesmente um escritor, derivado de scribo, que significa “escrever, traçar carateres”.

Quando, hoje, falamos de escritores estaremos a falar em que termos?