A PROPÓSITO DE “A VIAGEM DO ELEFANTE POR VISEU DÃO LAFÕES”

por Alberto Correia | 2015.08.21 - 09:22

A PROPÓSITO DE “A VIAGEM DO ELEFANTE POR VISEU DÃO LAFÕES”

(Edição da Comunidade Intermunicipal Dão Lafões, 2014)

 

Sempre chegamos ao sítio aonde nos esperam

                                                                            José Saramago, in A Viagem do Elefante.

Mas que estranho livro é este que nos pousa nas mãos e não largamos até ao desdobrar da última página, questionando porventura porque não vamos mais longe, que aconteceu para que a viagem, porque de viagem narrada se conta, fique por ali?!

Verdadeiramente trata-se de crónicas de viagem, de uma viagem que aconteceu algures, no tempo e hoje se reconta, uma e outra vez, e a viagem é sempre nova como acontecia nos serões antigos com os contadores da aventurosa saga da Nau Catrineta ou das poéticas narrações de Aldininha ou da Bela Infanta.

“A Viagem do Elefante”, título do conto homónimo de José Saramago, despertou nos responsáveis da ACERT – Tondela, seduzidos pela leitura, despertados pela sua práxis de fazer teatro, para eles lição e vida, a vontade de levar por diante esse arrojado, esse prodigioso projecto de reinventar a viagem que Saramago já reinventara com a sua fecundíssima imaginação, o seu talento poético, uma suprema ironia de mistura conferindo-lhe densidade, a viagem do elefante indiano que D. João III, rei de Portugal, oferece a seu primo, o Arquiduque Maximiano II de Áustria, no ano de 1551, quando este se encontrava em Valladolid.

Salomão, nome inventado, segue a sua rota que ao longo de penosos meses o irá conduzir a Viena onde o Arquiduque e a cidade o esperam. Da viagem não ficou registo mas o texto de Saramago permite-nos seguir o passo cadenciado do paquiderme conduzido pelo cornaca, a junta dos pacientes bois que lhe transportam o penso e a dorna da água, a fileira dos soldados da guarda, permite-nos surpreender os olhares de espanto das gentes das aldeias e das vilas que o cortejo atravessa, as vozes de quem irá adiante a anunciar como que prenúncios de um findar de mundo, os latidos dos cães das quintarolas vizinhas que depois se calam, espantados também, ao reparar na indiferente mansidão daquele bicho que tomam por irmão.

O Trigo Limpo teatro ACERT realiza a adaptação dramatúrgica do texto de José Saramago, inventa uma prodigiosa encenação, consigna uma surpreendente criação musical, apresenta uma sugestiva escultura de cena e, com os seus actores, os seus músicos e outros músicos convidados e, no seu sábio e generoso jeito de fazer que é também eminentemente pedagógico, arregimenta, nos lugares onde a Viagem do Elefante se houver de contar, esses “actores” de circunstância transfigurados pelo desafio aceite e respondido.

O livro “A Viagem do Elefante por Viseu Dão Lafões” é a crónica destes pressentidos actos preparatórios da viagem cuja travessia corre os catorze municípios que integram a Comunidade Intermunicipal Dão Lafões. Mas é sobretudo o reconto, diria poético, quase efabulado, do que aconteceu em cada um dos pousos em que a história se contou.

Os autores do texto, Sara Figueiredo Costa e Ricardo Viel, desenham com uma mestria singular uma escrita límpida, cativante, impressiva, lição de exemplar labor jornalístico que nos dá, com eficácia, a descrição da rua ou da praça onde a história do Elefante se haverá de contar, nos dá conta dessa epopeia que é o transporte da pesada maquinaria de cena, ao ar livre, os ensaios, particularmente os dos membros da comunidade participante, e depois esse desenrolar do conto que perpassa como magia deixando rastos que tarde se apagarão na memória e no coração de quantos assistiram e participaram.

De longe trouxeram também, às páginas do livro, sugestivas paisagens físicas e humanas da realidade circundante, memórias de ofícios em desgaste, sabores de manjares, conversas, afectos, ao encanto da prosa se associando a fotografia de Carlos Teles e Ricardo Chaves e ainda a ilustração de Zétavares.

Conseguem no entanto, os autores, como os criadores do espectáculo, traduzir o verdadeiro sentido da viagem do elefante, tal como pensado pelo autor do conto, metáfora da vida de cada um dos homens, “a viagem como trânsito sob as intempéries”, no dizer de Fernando Gómez Aguilera, que irremediavelmente chega sempre ao fim condensada nesse instante em afecto e memória como acontecia em cada noite com os espectadores da viagem. E a propósito desta questão dos afectos, que de amor se trata, praz-me acrescentar que Saramago quis chamar conto à sua história e não romance, porque nele faltavam os ingredientes amorosos, as intrigas. Mas a ACERT fez desta Viagem do Elefante um verdadeiro romance, porque só o amor colocado em cada acto, acto de criação, em cada gesto de aconchego e embalo e as lágrimas que porventura correram dos olhos de muitos que se despediam do elefante, quando o deixavam ao fim da viagem, só um amor assim é capaz de gerar transfiguração.

Mas esta foi também lição dos autores do texto e dos fotógrafos.