A primeira vez (conto erótico)

por Rufino Fino Filho | 2014.06.22 - 00:34

A Maria Bolacha é minha vizinha. Um dos muitos namorados da sua vida, ofereceu-lhe uma cadelita, uma husky, branquita como a neve, de olhos de cor desigual (a gente olha e parece que é vesga!), e, aqui há uns tempos atrás, andou de amores com um rafeirito que, à falta de melhor, dorme aqui na garagem, num cesto de duas asas, abandonado no lixo e aproveitado já não me lembro bem para quê. Já o canito também é quase da mesma origem do cesto: trouxe-o, ainda bebé, da Serra de Esmolfe, e, era tão engraçado e gostou tanto da porcaria do cesto, que nos adoptou sem esforço, mas não sem que primeiro levasse uma barrela e uma carga de DDT que o livrassem da camada de pulgas hospedadas no pelo negro. A cachorra chama-se mesmo Branca e o meu saco de pulgas, Black. Estão para o outro, não é?

Ora, a Maria Bolacha, uma trintona, solteira e grande como o caraças e uma história de vida que dava um livro do tamanho do processo da Casa Pia, embirrou com as fosquices com que o meu inquilino mimoseava a lambisgoia vesga do Pólo Norte. Vai daí, para além de umas bocas dirigidas, sabe-se lá se com a intenção de serem ouvidas do lado de cá do muro que separa os dois quintais, e, do género

(- Só me faltava mais este cão vadio. Já havia cá poucos!…)

tomou ainda a precaução de manter a bichana fechada, enquanto durou a fase em que a natureza exigia que cumprisse os actos necessários à multiplicação das espécies. O Black acicatado nos seus instintos mais básicos, não descurava nenhuma ocasião de se pirar para os domínios alheios, e, tentar, apesar de ser um palmo mais baixo, cumprir uma função, tão natural como o nascer do dia. Por mais do que uma vez as tentativas iam dando para o torto: quando a coisa estava quase, quase – e eu do lado de cá espreitava pela sebe na tentativa de contabilizar uma vitória para o bicho – aparecia a Maria Bolacha e estragava tudo.

– Xô, que queres tu, pirralho? Põe-te a andar que isto é carne a mais para os teus dentes! – e acompanhava os gritos histéricos com amplos movimentos da vassoura, como se quisesse bater no cão e no dono.

O pobre do Black, já com o ar deprimido de quem teve à mão a sorte grande e a deixou fugir, começou a desmoralizar. De vez em quando, dava com ele deitado no tapete da entrada da cozinha com umas trombas de infeliz e, juro, que me parecia que uma lágrima lhe deslizava pelo canto do olho. O apetite – ele, que até salada de tomate come – era pouco. O raio do cão metia pena. A “minha” dizia de cada vez que o via naqueles modos:

– Já desparasitaste o cão? Ele não anda bem! Nem ladra ao padeiro, nem nada! Leva-o ao veterinário que o bicho está doente!

Era uma doença, era! Como eu o compreendia!

A verdade é que o desânimo estava a dar cabo da saúde, pelo menos mental, do meu guarda-noturno, e, sentia-me culpado por não ser capaz de lhe explicar que aquilo não era por ele ser cão ou por ser preto. Gostaria de lhe fazer entender que, com o tempo, teria muitas oportunidades de ser feliz.

Para mim, começou a ser uma situação intolerável quando, numa última tentativa e com a glória à vista, o Black sofreu no lombo o peso de uma cavaca. Era demais! A partir daí, o caso passou para a minha esfera pessoal. Jurei que o raio da Branca de Neve ia ter direito a um anão.

Nunca fui polícia ou sequer parecido com isso. Mas, nos filmes americanos, aprende-se muito.

Pacientemente, esperei uma oportunidade – como se estivesse a trabalhar para mim! – e, para melhor poder observar o campo adversário, mudei a cadeira da sesta, estacionada há anos no alpendre, para debaixo da oliveira mirrada que ainda resiste aos maus tratos e que está a dois metros do campo do inimigo. Sem binóculos, sem lentes de aumento, sem chapéu à detective e sem perseguições de automóvel, chegou o dia em que a MB – num momento qualquer da vigilância, por uma questão de rapidez de raciocínio, deixei de a chamar Maria Bolacha e passou a ser, MB – deu o passo em falso. Aprendemos, no cinema e na vida real, que os bandidos apenas são apanhados porque dão sempre um passo em falso. E o dela aconteceu pelos mesmos motivos porque castigava o Black e a Branca.

Estava eu a regar umas plantas pindéricas que a velha tem junto ao galinheiro

– Vai regar os vasos que o dia esteve quente e esta reguinha à noite torna-as mais viçosas!

quando ouvi parar um automóvel no caminho atrás e que dá para as matas do Zé Diogo. Não era coisa normal àquela hora e por descargo de consciência, não fossem por aí os janados no palmanço, cheguei-me ao portão.

A MB, mulher dada à vida e de vida dada, deixara passar pelo portão da entrada e subir rapidamente as escadas, o Nunes Carteiro. Carteiro é alcunha ganha com a profissão.

Ora, deduzi, à Sherlock Holmes:

– Às onze da noite, não há distribuição do correio! A encomenda para entrega àquela hora, só podia ser uma! Uma encomenda igual à que o meu desgraçado e destroçado Black queria entregar à ansiosa Branca e que aquela vaca tinha andado a impedir.

O Nunes Carteiro era novo por ali, que eu soubesse, e, comecei a tentar lembrar-me de quantos furtivos já vira entrar na casa vizinha.

Não tive tempo! Um ladrar dorido veio do cimo das escadas e um vulto branco mexia-se inquieto no patamar.

– Branquinha! – chamei baixinho. Bocho, bocho, bocho!

E não é que ela desce as escadas de rabo a dar a dar e veio saltitar para junto do muro onde eu estava, já acompanhado pelo Black, que ouvira, como eu, o choro da cadelita, posta fora de casa para que a dona pudesse desembrulhar a encomenda, que o Nunes lhe levara, com tanto sacrifício, àquela hora da noite!

Não me contive!

– Anima-te! Tens pelo menos 20 minutos!

Peguei-lhe pelas patitas da frente, passei-o para lá do muro, e, mais rápido do que leva contar, a menina estava disponível.

A questão da diferença de alturas foi facilmente ultrapassada: ela ficou no tapete de rede do fundo das escadas e ele no primeiro degrau! Foi limpinho! Com a Técnica do Tijolo transformada na Técnica do Degrau, o Black ganhou o céu em três tempos.

A Maria Bolacha também, suponho eu!