A Pastelaria Horta de Viseu. Verdade e símbolo

por Alberto Correia | 2013.12.13 - 10:26

Honrando a saudosa memória do Senhor Eng. Aquilino Ribeiro Machado e evocando também a sua amável generosidade permito-me trazer à luz o pequeno, saboroso e nostálgico texto que escreveu, pesaroso, quando soube da notícia do fechamento da Pastelaria Horta, mítico lugar da Rua Formosa de Viseu onde, com seu pai fora visita, e que dos amigos do pai e da salutar convivência de todos ficara herdeiro.

Chegou-me a notícia de que a Pastelaria Horta da Rua Formosa, em Viseu, fechou portas. Penaliza-me que uma das referências mais marcantes da cidade onde, à hora sacramental do chá, apareciam todos os amigos que me ficaram de meu pai, haja cessado de vender o pão de S. Bento, as nozes de ovos, a bola de presunto, as empadas de vitela, mais o pão leve, tudo miminhos refinados da casa e que também de lá se tenham ausentado os rostos mimosos das herdeiras do Dão que na época das vindimas ali vinham espiar os rapazes. Ficava paredes-meias com a loja do Sr. Mário de Mattos Pirolito, à porta do qual se formava uma tertúlia rumorosa e politicamente diversificada. Em tempo de férias, quando descíamos da aldeia era em torno daqueles dois sítios que passávamos sem desfastio uma boa parte da tarde. A minha memória está povoada dessas evocações e por via disso o desaparecimento de um dos últimos abencerragens duma época venturosa me deixou de sobremaneira contristado. De resto toda aquela zona de Viseu entrou em necrose, fagocitada pelos mastodônticos centros comerciais que em hora menos avisada deixaram construir. Desvitalizou-se a Rua Formosa, entrou em agonia a mesteiral Rua Direita, desapareceu a Praça, fugiu a gente. A vida por vezes é assim, é triste.
Quando recebi o texto, em Junho de 2012, a Pastelaria Horta intentava ressurgir e os herdeiros de um tempo outro que o texto comovidamente lembra, pretendiam reservar ali algum traço da passagem de Aquilino e teve tempo ainda, o Senhor Engenheiro, de aprovar a frase do pai que celebra a cidade e eu lhe apresentei e que no muro branco se guarda, oferecida à leitura, e que eu fiz, com aprovação dos meus companheiros da Direcção do CEAR, inscrever no bronze da estátua que agora mora em frente.
Lição para quantos desdenharam.do lugar escolhido para a estátua do Escritor beirão, lição para quantos desconfiança tiveram do imenso amor que pai e filho reservavam a esta cidade, lição para quantos não entenderam o fervor de quem tanto se empenhou no levantar da memória que pousa sobre o chão de uma rua que permanecerá como verdade e símbolo.