A noite de Kafka

por PN | 2014.01.12 - 23:54

A noite.

E a voz da Callas, a operar Ponchielli.

Passo os olhos cansados por Luiz Pacheco, LLansol e Musil.

Indignados.

Por estarem juntos.

Não me fixo.

Nem me quêdo.

(E fico fulo quando o computador se me recusa os sinais.)

O som daquela voz já morta desfoca-me.

Ouvir os mortos neste mimar de dores alheias e dramas de faz-de-conta.

Como todas as ficções das nossas vidas, afinal.

Desconsolo?

Ou gozo do desconcerto.

Atraso a cama onde a insónia me assegura atalaia certa.

Como morangos com alarve suavidade.

A polpa.

Rosa, ou rosada.

Satisfaço aos sentidos.

A audição, a visão, o gosto, o tacto, nestas teclas tão sovadas e o cheiro de mim.

A Casta Diva, da Norma.

Agora.

Um chouto de artes altas num atapetado pinhal.

De caruma que cheira (ainda) à resina.

É um lamento tresvairado que rasga o ar parado.

Os bravôs e as palmas das gravações ao vivo são piores que a tosse seca In mia mano alfin tu sei.

O Luiz faz um minete à Irene que ele sabe vir de f…. com o Fernando.

“Um fedor e sabor a esporra meus conhecidos.” / “(um broche por tabela ao F., afinal)”.

“este é o jardim que a ausência permite”, acresceria G.

“Törless há muito tempo que se recostara novamente. A respiração quente de Beineberg ficava presa nos casacos e aquecia o canto. E como sempre que se excitava, Beineberg deixava em Törless uma impressão penosa.”

, remata Robert que joga à sueca com Kafka, Joyce e Proust.

No glamoroso quarto deste.

O ardor de olhar.

Meus olhos têm mais de cem anos.

E meus ouvidos os sons dos mortos.

Só eu estou a fingir que vivo.

E se não fossem os morangos já não tinha certeza de nada.

Vien diletto, è in ciel la luna.

Gorjeios de estorninho.

Gostava de uma donna a gemer assim, tão afinada.

Ponto (a)final boa noite.