A necessidade de cultura, cultiva-se…

por Amélia Santos | 2014.06.26 - 16:56

A propósito do excelente cartaz cultural que a vila de Sernancelhe oferece, mais uma vez, aos seus munícipes e a todos os que queiram deslocar-se lá, nos próximos dias 27, 28 e 29 deste mês de junho, ocorre-me falar da importância que tais iniciativas adquirem, sobretudo no interior, tantas vezes esquecido, e onde tão pouco acontece.

Sernancelhe continua, na senda do que já vinha acontecendo com o anterior executivo, a promover uma série de iniciativas culturais, que visam manter bem vivos os pressupostos do seu projeto para o concelho.

A aposta parece-me louvável. É sabido que a cultura não é geradora de lucros, mas o investimento que nela se faz, traz, a longo prazo, uma riqueza incalculável. Penso no público em geral, mas detenho-me particularmente nos mais novos, a quem ensinar a gostar de teatro, de música, de ler, de ver uma exposição e valorizar o património, deveria ser uma prioridade de todos os que têm responsabilidade nessa matéria. Congratulo-me, neste sentido, pelas iniciativas que o meu Município, o de Trancoso, tem levado a cabo e pelas ideias que tem já na calha, nomeadamente com a formação de uma academia de música…

Sabemos que ninguém nasce ensinado e que há coisas para as quais os mais novos estão naturalmente mais motivados, pela força da imagem e do movimento. Para o resto, deverão ser os intervenientes diretos ou indiretos na educação a desempenhar o seu papel. E os municípios podem e devem intervir neste processo, porque os gostos também se educam e, para gostar de teatro, há que ir ao teatro, uma, dez, vinte vezes e, eventualmente, ter a oportunidade de experimentar fazer teatro, participar, envolver-se, entrar dentro dos bastidores desta arte… Conheço bem a importância deste tipo de atividade, porque já fiz parte de um grupo de teatro amador em Trancoso, que incluía pessoas dos 10 aos 60 anos, onde o convívio intergeracional e com os textos de grandes autores; o treino da dicção, da colocação de voz, do à vontade em palco… apetrecha os participantes de técnicas e ferramentas e os dota de uma maturidade ímpar no seu desenvolvimento individual e social.

Falo de teatro, mas isto é válido para todas as artes. Por exemplo, ensinar e cultivar o gosto pela leitura, pela palavra, leva inevitavelmente a ouvir melhor, a ler mais e a refletir sobre o que se ouve ou lê. Existem uma infinidade de textos que podem servir bem essa causa, como o são as boas histórias, mas também a poesia.

A poesia é um tipo de texto que reivindica a voz, a música, o ritmo… Dizê-la em voz alta, ou não ter medo de a dizer em voz alta, pode fazer magias… Repetindo as palavras, deixando que elas façam ecos no nosso interior, distribuindo significados e sentidos, despertando emoções várias… E estas magias levam-nos a compreender metáforas. A decifrar enigmas. A descobrir mistérios. Fazem-nos brincar com as palavras, desvendando parentescos, aliterações, rimas…

A palavra quando é dita assim… daquela maneira…com a voz da emoção… marca, toca, sensibiliza. Um dia destes fui alvo de uma magia poética, mesmo numa viagem de automóvel: Uma poesia dita na rádio (TSF) por uma belíssima atriz, Teresa Lima, com a colaboração de Fernando Alves, que me fez ficar com pele de galinha ao dizerem, partilhadamente, o poema de Ruy Belo “Os pássaros nascem na ponta das árvores/ As árvores que eu vejo em vez de fruto dão pássaros (…)”

Olhei em volta, e não é que era mesmo verdade?

E percebi, tal como o poeta, que “Eu amo as árvores principalmente as que dão pássaros”

Licenciatura em Estudos Portugueses pela FLUL (1996) Pós Graduação em Museologia pela FLUP (2008) Mestrado em Ensino do Espanhol pela UBI (2011)

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