“ A língua é um instrumento feito pelo povo rude, destinado às democracias…”, Aquilino

por PN | 2014.04.15 - 20:57

 

 

“ A língua é um instrumento feito pelo povo rude, destinado às democracias…”

(…)

“Eu sou um artista rude.” – Aquilino Ribeiro dixit

 

 

I

         Um contexto epocal é fundamental para a compreensão, à distância, dos fenómenos, dos conceitos, das ideias.

Na Lisboa de 1913, Carlos Malheiro Dias, um romântico, monárquico e conservador, que se propusera, por gosto, amizade e consideração, a prefaciar a primeira obra de Aquilino, Jardim das Tormentas, escreve quase em conclusão de um excerto de 14 páginas:

(…) O escritor que traz à literatura portuguesa esses quatro contos que são À Hora de Vésperas, A Pele do Bombo, Tu não furtarás e O Remorso, fica-lhe desde esta hora devendo um romance regional onde formigue, reanimado pela vida do seu talento, toda a comparsaria rústica de Beira (…).

         Aquando da edição de Filhas de Babilónia (1920), Aquilino lavra dedicatória a seu amigo João de Barros (também director da revista Atlântida onde Aquilino colabora), e anexa em posfácio crítica publicada em A Luta, de 11 de Abril de 1914, da autoria do seu correligionário Câmara Reys, que em três excertos sublinha, a propósito de Jardim das Tormentas:

(…) Nos contos regionais Aquilino Ribeiro ergue-se, por vezes, a um estranho lirismo de epopeia campestre (…);

         (…) Nos contos regionais escreveu Aquilino Ribeiro as melhores e mais sentidas páginas (…);

         (…) A linguagem, a adjectivação, os diálogos, a evocação das imagens nas falas do povo, e a sua prosa, em que os termos regionais se ajustam tão pitorescamente à maneira desarticulada e breve dos períodos – evocam, com uma soberba simplicidade, as figuras dos seus contos e dão, em cada linha, uma surpresa de ritmo ou de cor (…)

         Entendemos crucial debruçarmo-nos um pouco sobre a génese desta obra, pela importância que transporta para o futuro.

         No livro de evocação, Abóboras no Telhado (1955), escreve Aquilino:

Saiu este livro, feixe de pequenas novelas, em Paris, prefaciado por Malheiro Dias que o inculcara e apadrinhara junto dos editores. (…) Estavam de moda os Jardins em literatura: Jardin des Suplices, Jardin d’Épicure, Jardim da minha avó torta, e recebeu este flagelado nome, tão ao sabor do temperamento português, a julgar pela História Trágico-Marítima. Em despeito do título, desta Maria vai com as outras, se a estreia tinha alguma coisa de recomendável estava na originalidade. Sempre me esforcei em não me parecer com os demais, não trazer gravata de que visse segunda do mesmo padrão, de não pensar como o geral, sobretudo de não escrever como os infinitos. (…) Eu antes de mais nada. Eu, ainda que tivesse de viver e morrer singularmente a rufar um arrebentado tambor. E o segredo da minha perpétua rebeldia está nisso. (,,,)

         E diz, em Aquilino Ribeiro – A Obra e o Homem, coordenação de Manuel Mendes, Arcádia, (1960):

(…) O meu primeiro livro, contos, teve por título Jardim das Tormentas. Com isto evocava Mirbeau que admiro ainda. O principiante, à procura de um título, acaba muitas vezes por escolher um que não é senão o pobre eco, ou a má adaptação do título de uma obra célebre. (…) Podia-se, facilmente, assinalar neste livro, além da influência de Anatole France e um pouco de Barrès, a de Tolstoi e dos portugueses Fialho e Eça. Neste “jardim” circulam com efeito, os vagabundos e os sonhadores que se encontram em todos os meus romances, mas ao lado desta gente, que professa um desprezo plausível pelo Mundo, há aqueles mais numerosos, que trincam avidamente a maçã da vida. Esses são projecções do meu eu. (…)

         Ainda a este propósito refere Taborda de Vasconcelos, em Aquilino Ribeiro, (1965):

         (…) Rapsódia executada por um amador e embora escrito em Paris (…) Jardim das Tormentas não foi uma entrega aos demónios citadinos: foi um livro de protesto e rectificação, tão certo manifestar os gostos e as influências antes sofridas pelo autor (…) e ainda um forte temperamento individualista, emoldurado em anarquismo, cuja contensão lutadora encarna um prodigioso friso de tipos populares. (…)

 

II

Numa breve sinopse, e buscando o contexto, indicaríamos alguns factos relevantes deste início do século XX:

Em 1901 sai O Livro de Cesário Verde (2ª ed. aumentada) e está Picasso no seu Período Azul. Freud publica a Psicopatologia da Vida Quotidiana.

         Em 1902 Gide publica L’Immoraliste. Morre Zola.

Em 1903 morre Gauguin e os Irmãos Wright fazem seu primeiro voo.

Em 1904 Junqueiro publica Oração à Luz.

Em 1905 António Patrício publica Oceano e surge a obra de Freud, Três Ensaios sobre a Sexualidade. Einstein cria a Teoria da Relatividade.

Em 1906 Teixeira de Pascoaes publica Vida Etérea. O país vive sob a ditadura de João Franco. Morrem Ibsen e Cézanne.

Em 1907 Bergson publica L’Évolution Créatrice e Picasso pinta Les Demoiselles d’Avignon.

         Em 1908 dá-se o Regicídio. Yeats publica Collected Works, surge o Cubismo, com Picasso e Braque. Mahler compõe Canção da Terra.

         Em 1909 surgem em Portugal os primeiros ecos do Futurismo nos Jornal de Notícias e Diário dos Açores, por publicação do Manifesto de Marinetti. Em Londres, Ezra Pound liga-se aos Imagistas.

Em 1910 surge a Revista A Águia (Álvaro Pinto, L. Coimbra, J. Cortesão, Pascoaes); Malhoa pinta O Fado; a 5 de Outubro proclama-se a República. Rilke publica Os Cadernos de Malte Laurids Brigge. Surge o Der Sturm, porta-voz do expressionismo alemão. Morre Tolstoi e Kandinsky pinta a primeira aguarela não figurativa.

Em 1911 Pascoaes publica Marânus, o Nobel St. John-Perse escreve Éloges.

         Em 1912 a Renascença Portuguesa dá voz ao Saudosismo. Amadeo de Souza-Cardoso expõe em Paris. Schönberg inova com a música serial.

Em 1913 Raul Leal publica A Liberdade Transcendente, Mário de Sá-Carneiro, Dispersão e A Confissão de Lúcio. Almada faz a sua 1ª exposição. Proust inicia a publicação de À la recherche du temps perdu. Apollinaire escreve Alcools e Stravinski compõe A Sagração da Primavera. Tatlin propõe o Construtivismo; Malevitch o Suprematismo.

Porém, não obstante tanta mutação, não é despiciendo ter em consideração Joel Serrão quando escreve esta realidade (Temas Oitocentistas, II, Lisboa, 1963):

A verdade é que, de 1875 a 1919, não obstante a transformação técnica industrial, a revolução dos transportes, o crescimento demográfico, especialmente citadino; apesar do processamento efectivo daquilo a que será legítimo chamar a nossa pequena revolução industrial, a maior parte do País permaneceu, entretanto, essencialmente agrário e camponês, ou seja incrustado ainda num tempo remoto.

 

Citando Taborda de Vasconcelos, Aquilino Ribeiro, Editorial Presença, 1965:

(…) de um modo geral, duas tendências dominam a vida intelectual portuguesa dos princípios do século. De um lado, a espiritualista e anti-mecanicista, heterodoxa mas anticlerical, influenciada por Tolstoi e os anarquistas russos, e cujas principais figuras alinham com Pascoais (1877) e Jaime Cortesão (1884), a par de Guerra Junqueiro, Raul Brandão e António Correia de Oliveira. (…)

         Do outro, situa-se a seu turno, uma corrente positivista, que se manifesta pelo naturalismo, remotamente conforme aos princípios de Darwin (…) e na qual vem a surpreender-se, com Aquilino Ribeiro, um talento que antes nunca se havia nela verificado (…)

         Tendência de feição realista, dando livre curso à apologia do amor falho de preconceitos e a um paganismo pressuposto ao tratamento quase sensual da natureza, deleitada exibição de quem ama ardentemente a vida em todos os seus aspectos e caprichos, por influência já da tradição anticlerical francesa, na linha recta de Voltaire, Pierre Louys e Anatole France, a que entre nós se acolheram Malheiro Dias e Aquilino Ribeiro, sofre, em breve, o influxo e o natural refrigério duma outra corrente, ainda sem preocupações religiosas mas que procura descobrir e acentuar o que há de belo na vida (…).

         Ora do contacto mais ou menos proveitoso com o naturalismo; da tentativa de reabilitação do amor carnal, erótico e impulsivo, vadeando numa atmosfera de que Bergson é uma das expressões (em Jardim das Tormentas, pp.66/67, escreve o autor: Em verdade éramos gulosos de Bergson como as operárias de modas do petit café crème aux croissants (…) E Bergson aproveitou-me; graças a ele, pude meter no bolso o optimismo filosófico de salão que deslumbra, e descobrir uma metáfora galante que tinha o poder de me exaltar.); do amoralismo que os escritores desta época pela primeira vez trouxeram à literatura e dos ingredientes esteticizantes (…) mormente do culto anatoliano do estilo (…) bem pode dizer-se que, tomando o pulso às coordenadas ondulatórias do seu tempo, Aquilino Ribeiro fez delas uma síntese pessoalíssima e autónoma. Autónoma pela temática primitiva, ele que insiste em ridicularizar o homem inibido em face do partido a tirar da mulher; autónoma pela exaltação da rudeza dos instintos em liberdade; e autónoma ainda pelo curioso entrecruzamento das várias tendências que o seu romanesco explorava: o cepticismo de tradição queirosiana, o primitivismo regionalista de têmpera muito ibérica – por isso contrastando com a tibieza irónica de Anatole – e um grande poder de evocadora emoção, sempre atento ao seu próprio ritmo de circunlóquio narrativo.

III

         Apesar de tudo, nada impede o mundo de fremir com a vertiginosa mudança, no limiar da 1ª Grande Guerra. É neste contexto epocal sucinto que surge a obra Jardim das Tormentas.

Aquilino Ribeiro não adere a escolas. É um leitor compulsivo. Ávido de tudo, cultiva com mais agrado autores sete e oitocentistas. De Espanha deleita-se com Cervantes. Aprecia o nosso Camilo. De França, privilegia Anatole France.

A sua independência é por ele assim referida:

Nunca soube o que era servidão aos preconceitos, ao poder, às classes, nem mesmo ao gosto do público, afirma Aquilino.

Volvidos os anos e à luz da distância e da erudição, Seabra Pereira enquadra Aquilina num neo-romantismo vitalista, escrevendo em Aldeia – Tensões Fecundas – para uma recolocação de Aquilino (Colóquio Letras, Maio-Agosto de 1990):

Ora, com esta pragmática da soberania do eu – entendida ao invés do egotismo depressivo e do insulamento estiticista no Decadentismo finissecular, do aristocratismo contemplativo e iniciático no Simbolismo, do ensimesmamento nostálgico comum ao visionarismo gnóstico do Neo-Romantismo saudosista e à reacção tradicional do Neo-Romantismo lusitanista –, tocamos um parênteses muito notório entre a obra de Aquilino e aquele Neo-Realismo vitalista com que a venho confrontando (…)

Se esta rotulação nos parece irrelevante para o âmbito deste ensaio, tem o mérito e a luz da sua leitura ter sido feita 77 anos após a publicação de Jardim das Tormentas, com a clareza inequívoca da abrangência epocal focada em todas as suas possíveis confluentes e refluentes estéticas.

Contudo, em 1913, à luz difusa de todas as emergências, Jardim das Tormentas colhe, de forma simplista, o apodo de regionalista, esteiado na designação dada por Malheiro Dias e Câmara Reys, de forma pouco mais que episódica.

Porém o regionalismo não é uma estética, antes sendo uma tendência, consistindo, grosso modo, na caracterização dos costumes, dos tipos humanos, das paisagens de determinada região, mas se à época foi baia aceite – tenhamos presente que em 1920 sai o posfácio referido de Câmara Reys, que o reclama três vezes, e sai decerto porque Aquilino, ou os editores com a sua aquiescência, decidiram pela sua inclusão – ainda não decerto enquadrado pela grandeza da obra no provir, tão pouco entrevista numa perspectiva redutora, por mera oposição ao universalismo cujo estatuto, mais tarde, merecidamente conquistou, o candidato ao Prémio Nobel de 1960.

E é este regionalismo de carácter redutor que se impõe, com algum beneplácito facilitista, e como rótulo que bem se memoriza e melhor se cola nas tertúlias de botequim, para designar, anos a fio, indiferenciadamente, tomando o todo pela parte, a portentosa produção de Aquilino.

Porém, à amplitude da obra dada ao prelo, às variedades que se ampliam, da ficção ao ensaio, da história ao teatro, etc., regionalizar de uma assentada esta universalidade genial, é deslustre que o Mestre refuta já na 1ª edição, de 1926, da obra Andam Faunos pelos Bosques, ao escrever no seu prefácio:

(…) Vou descer à urbs, depondo a pena que a crítica suficiente classificou de regionalista. Em verdade, se regionalista é ter descrito outra coisa que não Lisboa, não reclamo melhor diploma. Porém, se ser regionalista é dar o meio e a comparsaria na sua modalidade léxica, descer o escritor, despersonalizando-se, à reprodução e não interpretação, só me convém o título para duas ou três centenas de páginas de meia dúzia de livros que escrevi. (…)

         E não será, talvez, mero fruto do acaso que, após publicar Andam Faunos pelos Bosques, e na sequência do nefasto ano de 1927, que lhe traz a morte da primeira esposa e o segundo exílio em Paris, medeiam seis anos até ao surgimento de O Homem que Matou o Diabo, um renovador romance integrador de diferentes registos e, em 1931, dá ao prelo A Batalha sem Fim, que decididamente se afasta da serra beiroa para se ir espraiar pelo Litoral da Estremadura, e do homem rude da terra avara, dos lapêdos infindos, passa ao homem crédulo e supersticioso, nauta de um mar impiedoso.

E daqui, para além da transposição autobiográfica da novela Aninhas, de As Três Mulheres de Sansão, começa a trabalhar em novos rumos da sua obra, que em Maria Benigna (1933) dá corpo a nova inflexão do seu romance, tentando equacionar-se com a ficção e a crítica psicologista suscitadas pela Presença,

         Para de seguida, em É a Guerra e Alemanha ensanguentada, passar de um destemido diário testemunhal da 1ª Grande Guerra, à iniciação dos cadernos de um viajante, com absoluta recusa de subordinação à apologia dos Aliados, e assim, cada vez mais se distanciar das duas ou três centenas de páginas, por ele próprio aceites como justificativas da ‘calçadeira’ regionalista.

E depois de repetida incursão (a segunda) na literatura infanto-juvenil e na biografia histórica e hagiográfica, com tempo para revisitação dos clássicos (A Retirada dos Dez Mil, 1938), entrar no novo romance urbano onde visa retratar a média burguesia lisboeta dos anos 20, com Mónica, publicado em 1939.

São volvidas mais de duas décadas e meia sobre Jardim das Tormentas, a obra primicial…

E sem peias, em 1945, revisita o Colégio da Lapa de sua meninice, com O Livro do Menino Deus; e em Lápides Partidas, projecta a Lisboa do crepúsculo da monarquia e seu alter-ego Libório Barradas. Em 1946, Aldeia, Terra, Gente e Bichos deixa emergir a figura paternal, no Padre Domingos de Jesus, que já surgira no Pe. Ambrósio, de A Via Sinuosa, em 1918. Em 1948, Cinco Réis de Gente, com os anos da primeira infância e o Colégio da Lapa…, Aquilino já nada tem a provar e, se nunca foi discípulo de terceiros, é agora autónomo Corifeu, como Pretónio lançador de moda, ou a ela tão alheio, que despreza e repudia modismos e demais ismos.

 

IV

A minha obra sou eu próprio, afirma em 1960, na convicção inquestionável do trabalho realizado.

E se há conceituados académicos legitimamente empenhados em encontrar em obras de Aquilino uma quase criptografia na ‘linguagem altamente codificada’, com amplos e plurais recursos transgressores, nos planos sintáctico, morfológico, lexical, estilístico… só podemos congratular-nos com o exaustivo estudo, que decerto seria óptimo corpus para matérias de sintaxe e semântica do português, fonologia e fonética, etc.

Contudo, se o próprio escritor escreve seu propósito no prefácio de Terras do Demo:

descer a arte sobre a bronca, fragrante e sincera Serra, e, em certa medida, activar o desquite entre a nossa língua e essa literatura desnacionalizada, franciscante, de que se atulha a praça…

 

esse desquite, essa depuração, não é feita por dialectos (inexistentes numa região), mas no entendimento de que a verdadeira língua viva foi o povo que a fez…

Se nesse prefácio, o escritor refere ainda:

um renascimento literário tem de volver às origens, aos clássicos e ao povo, e o primeiro passo – é um a questão de vontade – dou-o eu aqui.

 

Esse retorno às origens, mais que à região, é volver à identidade mais fecunda e profunda da língua, e se é no povo que se busca essa raiz, é por o saber descontaminado dos modismos latinizantes e até de Castela oriundos, que a esfacelaram, em sincronias tão concretas da sua existência, pelos usos literários da Renascença ou pela presença espanhola imposta (1580-1640).

É no povo, pois, que busca a pureza impermeabilizada de um léxico que hoje seria impossível encontrar e preservar pela razia homogénea perpetrada pelos media; mas o povo, num país que se percorre num dia de ponta a ponta, falando uma língua única, desprovida de dialectos, quando mais co-dialectos, esse povo, se é das serranias do Demo, é-o também do Litoral ou de Trás-os-Montes, logo, é o povo de Portugal, íntegro na sua coesão mais estrutural, porque, na essência, Portugal é igual de Norte a Sul (…) a única coisa diferente é a Geografia. (…) mas poderá essa diferenciação constituir substância bastante para dar lugar ao ‘homem’ particular de região para região?

E auto-questinando-se:

Há escritores regionalistas em Portugal?

 lesto, logo dá a resposta:

Supomos que não.

para acrescentar:

Por via de regra quando entre nós se chama regionalista a um escritor é com intuitos malévolos. É dá-lo como dotado de asas curtas, impróprias ao voo de altanaria.

 

V

E conclui-se esta reflexão com mais estas palavras do Mestre recolhidas por Manuel Mendes, em 1960:

O facto de escolher para teatro tal ou tal localidade de província, com tais ou tais representantes nados e baptizados fora de Lisboa, não pode conferir habilitação ao título (regionalista). Seria absurdo que um escritor, alfacinha de gema, não pudesse armar o guinhol onde lhe aprouvesse sem continuar a ser universalmente português. Gil Vicente a cada passo fala das Beiras, dos seus ratinhos, dos seus abades, dos seus abegões, e nem por isso é escritor regionalista, nem qualquer se lembrou de o classificar de regionalista. (…) Quer dizer: a escola não se define pelo lugar geográfico.

Dir-me-ão que o regionalismo visa a outros objectivos, seja interpretar o tipo ou a índole de uma região. À parte as cambiantes, e é negócio de folclore, os labregos de Portugal são o mesmo presépio e com a mesma psique. Esfomeados, ignorantes, velhacos, trabalhador pelos instintos, tanto o são aqui como além. Quem faz o homem é o céu, é a Natureza, é o solo, são as leis e é a língua, que é como o molde dos pensamentos, e quem diz pensamentos diz necessidades. Portanto, acabe-se de vez com a ideia incôngrua e seu fundamento de que há uma escola regionalista em Portugal. O que há é figurantes de carapuça ou de chapéu vareiro, de polainas de junco ou safões de pele. É pouco. Mudam-se nos bastidores. Abel Botelho nas Beiras, Camilo no Minho, no Alentejo Fialho e Brito Camacho são naipes do mesmo baralho literário. O específico é fruto da sua arte.

Outra acusação que vejo fulminar contra tal e tal escritor é de que usa termos raros. Termo raro é aquele que não emprega a peixeira nem o contínuo da repartição e determina, se não sintetiza, a matéria ou em que a ignorância do leitor, tout court, tropeçou. É evidente que ninguém é obrigado a meter todo o dicionário na pinha. Mas seria absurdo que o leitor vulgar de Lineu – engenheiro, arquitecto, comerciante, político, amanuense, professor de dança, entregues a actividades que têm um vocabulário próprio – culpasse o autor, cuja lavra é a língua, de conhecer mais palavras do que ele, e aqui, além, o obriga a ir ao léxico, a tirar o significado da palavra pelo sentido ou simplesmente a fazer cruzes na boca. A leitura, de resto, pode ser e é uma forma de ensinança sem deixar de ser uma diversão. De modo que a palavra estranha ou ignorada é na leitura como o monumento que o turista encontra no seu caminho e visita se é curioso. Só na nossa terra, sem nenhuma espécie de alfândega mental, se arvorou o princípio de que se escreva apenas com termos que sejam acessíveis ao vulgo. (…)

Não digo que escrever com os termos corriqueiros da cozinheira não seja um processo; descrever, usando o autor de todos os recursos que possui a sua pena, seja em glossário, seja em ideias, é outra. Nunca vi nenhum crítico estrangeiro censurar um autor pelo vocabulário que emprega, se o emprega com propriedade. Se o emprega de molde que nem todo o bicho-careta meta o dente nos seus escritos, sem recorrer ao dicionário de quando em vez, está no seu pleníssimo direito. É forçoso que o romancista se recalque na sua opulência e se nivele com a cultura do leitor na sua tacanhez? Basta um minuto de bom-senso, ao menos pelo Pentecoste, que é a descida do Espírito Santo sobre as almas, para julgar casos destes. O pior é que não há higiene mental nos nossos meios chamados cultos, nem quem a exerça. As ideias tolas correm pelos cantos como centopeias e infiltram-se por todos os interstícios. O regionalismo do caldo-verde, e uso do vocabulário raro são dos tais.  

 

VI

Em jeito de anexo e com o objectivo de transmitir ao nosso leitor menos especializado, um complemento mais lato de informação, nem sempre acessível a quem não cuida em investigar, deixamos excertos colhidos, de viva voz, por Jorge Reis, e compulsados em Le retour d’Aquilino Ribeiro à Paris, Arquivos do Centro Cultural Português, V. XXI, FCG., Lisboa-Paris, 1985:

 

“Comment connais-je tant de mots? Mais, Jorge Reis, en lisant les classiques… en lisant surtout Camilo Castelo Branco et – écoutez-moi bien parce que cela va vous servir – en entendant les gens parler. C’est cela: un écrivain doit prêter l’oreille à tout ce qui se dit autour de lui, et ne pas oublier d’en prendre note. Si vous le faites, sachez que le moment venu, ces mots et ces expressions que vous avez captés, viendront d’eux-mêmes au bout de votre plume… Evidemment, moi, j’ai bien appris le latin et un peu de grec, mais c’est avec les classiques et surtout avec les gens de ma région que je me suis fait un vocabulaire et, avec lui, un style… qui vaut ce qu’il vaut, mais qui est le mien! Bien sûr, me direz-vous, il y a aussi des influences espagnoles… françaises – surtout celle d’Anatole France – mais cela, je crois, ne se remarque qu’à mês débuts… Tout ce que je sais c’est que, quand mon éditeur, après avoir jeté un regard à ma Via Sinuosa, a déclaré: ‘Vous n’avez pas de public’, j’ai pris la décision de ne ressembler à personne, de ne pas écrire comme les autres… Cependant cela exige un travail acharné, de la volonté et – pourquoi pas? – une bonne dose de fierté intérieur! C’est cela qui nous permet de réaliser un roman comme… comme l’on construit une cathédrale. Cela est vrai pour un roman et pour l’oeuvre de toute une vie. Regardez: qu’est-ce qu’ils ont fait les architectes de Notre Dame? La même chose que nous: écouter les autres. Ils connaissaient bien les príncipes d’architecture, la technique (ça ne s’improvise pas ((et Maître Aquilino, indiquait le monument)), mais ils ont dû écouter les croyants parler, ils ont dû écouter les mots – le savoir – des maçons, des tailleurs de pierre: les hommes humbles du métier… Voilà le résultat. C’est ça l’universalité d’une oeuvre, car à la base il y a l’originalité des gens qui l’ont conçue…

(…)

Cette ville (Paris) forme un homme!… Et dire que les critiques qui n’ont jamais quitté le Chiado, m’accusent d’être un provincial, un écrivain régionaliste, quand une grande partie de mon oeuvre est imprégnée de cette atmosphère… de cet air qu’un écrivain ne peut respirer qu’ici. (…) Parce que je ne parle pas de certaines choses d’une façon directe, en mettant en bas de page le nom d’écrivains étrangers pour épater le bourgeois, les imbéciles croient que je les ignore… Même mon fils, oui, toi… Même mon fils qui est ici (Aquilino Ribeiro Machado), et qui est au courant de tout ce qui se passe dans le monde des Lettres, me critique de ne pas être à la page!… Si, si, mon garçon: tu crois que ton père ne te connaît pas et qu’il ne sait pas que tu aurais préféré que j’écrive des romans à la manière… de je ne sais pas… de Proust… de Sartre, de Faulkner… ‘do raio que o parta’?! (…) Selon ce monsieur je devrais écrire des ‘romans intellectuels’ comme le veut la mode. Or, je ne suis pas quelqu’un qui suit des modes: j’écris comme j’écris, à ma manière, et je ne demande à personne de m’imiter, car cela serait lui rendre un très vilain service. Un véritable écrivain écrit selon son être; selon l’argile dont il a été pétri. C’est la seule manière de posséder un style – lequel est le résultat d’une très laborieuse alchimie dont il est le seul à connaître le secret. Ce qui compte pour un écrivain, un vrai, c’est ce qu’il obtient dans son creuset personnel, et le rest … le rest ‘são cantatas’! (C’est du blabla).”